Waldir Cardoso Lebrego (Belém, 15 de setembro de 1933 – Rio de Janeiro, 11 de fevereiro de 1996), mais conhecido como Quarentinha, foi um futebolista brasileiro que atuou como centroavante. Notabiliza-se como o maior artilheiro da história do Botafogo, com 313 gols (em 442 jogos), muitos deles oriundos do fortíssimo chute que tinha nas duas pernas, especialmente na esquerda. Outra marca é que não comemorava gol algum, alegando que estava apenas fazendo seu trabalho.
Dezessete desses 313 gols ocorreram no clássico com o Vasco da Gama, fazendo de Quarentinha o maior artilheiro botafoguense nessa rivalidade. Outros dez gols o fazem ser também o terceiro maior artilheiro alvinegro no clássico com o Fluminense, embora tenha feito ainda mais no clássico com o Flamengo (quatorze gols). O jornalista João Saldanha descreveu ao jornal Ultima Hora, em 1963, que conhecia todos os Estados brasileiros à exceção de Sergipe, e creditou a Quarentinha a popularidade que observara ter o Botafogo no Pará, terra natal do atacante. Suas três artilharias seguidas no campeonato carioca só foram superadas por Zico e Romário, também os únicos a terem mais de três artilharias no geral pelo torneio. Quarentinha também é o maior artilheiro botafoguense no estádio do Maracanã, onde marcou 93 gols em 141 jogos, e é o quinto jogador com mais partidas pelo alvinegro - era o quarto até ser superado pelo goleiro Jefferson.
Quarentinha também tem a melhor média de gols (um por jogo) da história da Seleção Brasileira, recorde que compartilha com Leônidas da Silva; considerando-se somente partidas oficiais, Quarentinha acumulou 15 gols em 14 jogos e, abrangendo-se três amistosos não-oficiais, totalizou exatamente 17 gols em 17 jogos. A maior parte de suas partidas pelo Brasil concentraram-se justamente entre 1959-61, no período que intercalou a Copa do Mundo FIFA de 1958 e a de 1962, para a qual sua convocação era considerada certa até uma inoportuna lesão afasta-lo.
Suas partidas finais pelo Brasil se deram em 1963, ano em que foi sondado pela Seleção Portuguesa, por ter direito à cidadania em função de seu pai, e especulado também por Barcelona e Sporting. Em seu país, destacou-se também pelo Paysandu, onde se formara e pelo qual marcou o primeiro gol feito no exterior pelo clube; e no Vitória, protagonizando o primeiro título baiano que este time venceu após 45 anos - fator que impulsionou o futebol deste clube e a própria consolidação do Ba-Vi como principal clássico de Salvador e do Estado.
Origens familiares e do apelido
Seu pai, Luís Gonzaga Lebrego, havia sido um destacado atacante do Paysandu entre as décadas de 1920 e de 1940, sendo dez vezes vencedor do campeonato paraense, chegando a ser o jogador mais vezes campeão no Brasil em títulos estaduais (até ser eventualmente superado pelos doze de outro Quarentinha e também de Givanildo Oliveira, Durval e Jorge Henrique) e a ter no período breves passagens por Vasco da Gama e São Paulo. Havia nascido no Cabo Verde colonial e vindo órfão, ainda garoto, ao Pará. Casada em 1931 com Quarenta, a mãe de Quarentinha chamava-se Myrthes Lopes da Silva, descendente de índios e que falecera quando ele ainda era jovem. Ela tinha 13 anos ao casar-se (em precocidade socialmente aceita na época) e faleceu aos 24, em agonia que traumatizou Quarentinha - que desde então passou a evitar comparecer em funerais, abrindo exceções aos de Garrincha e de João Saldanha.
O pai era apelidado de Quarenta por ser seu número de inscrição no internato onde estudara e, em grande coincidência, Waldir receberia a mesma numeração na escola, rendendo naturalmente a si o apelido de Quarentinha. Tratava-se do Instituto Lauro Sodré, tal como seu pai, começando no colégio a praticar o futebol, mesmo em meio à severidade "militar" do sistema de ensino.
Por coincidência, já existiam ligações indiretas de Quarentinha com o Botafogo ainda antes de nascer: o político paraense Lauro Sodré homenageado no nome do internato era pai de Benjamin "Mimi" Sodré, outro ídolo de Botafogo, Paysandu e com jogos pela Seleção Brasileira. Os dois Sodré tinham parentesco também com Leônidas Sodré de Castro, precisamente o dirigente homenageado com o nome oficial do estádio da Curuzu; Josefina Sodré de Castro, mãe de Leônidas, era tia de Lauro, de modo que estes eram primos em primeiro grau. Leônidas e Benjamin, por sua vez, estiveram na mesma gestão do Paysandu, respectivamente como primeiro secretário e presidente da diretoria, em 1921. Em 1930, o clube, já sob presidência do próprio Leônidas, adquiriu o referido estádio, sendo esta a razão da escolha do nome oficial. O prédio do internato Lauro Sodré, por sua vez, atualmente abriga a sede do Tribunal de Justiça do Estado do Pará.
Ainda sobre o apelido, Quarentinha deu em 1954 essa explicação ao Jornal dos Sports: "papai tinha o número Quarenta, no Instituto Lauro Sodré. Acontecendo que fui estudar lá e, recebendo a mesma identificação, fiquei sendo chamado pelos professores de Quarentinha, o que, no fundo, servia em relação a eles próprios para me distinguir do 'velho'". Embora Waldir no começo não gostasse do apelido ("chato é. Mas acostuma-se. Que se há de fazer?", declararia em 1959 ao mesmo jornal), a alcunha também se reforçou por, segundo ele próprio, ser, dos diversos filhos que seu pai teve, o mais parecido na fisionomia e no jeito de jogar.
Quarenta teve cerca de duas dezenas de filhos entre homens e mulheres dentre os que reconheceu, com estes não descartando a possibilidade de irmãos frutos de casos extraconjugais de um pai mulherengo; o alto número chegaria a fazer Quarentinha e alguns irmãos precisarem residir com os avós maternos. Por ocasião de excursão do Botafogo a Belém no início daquele de 1959, fora noticiado na edição de 20 de fevereiro do Diario de Noticias que "o antigo jogador paraense Quarenta, pai do atacante botafoguense Quarentinha, ofereceu, em sua residência, uma feijoada à delegação alvinegra, tendo comparecido todos os jogadores, técnico e dirigentes. Na ocasião, todos ficaram conhecendo os vinte irmãos de Quarentinha, entre os quais o mais moço, de um ano apenas, que ainda não tinha sido visto pelo referido jogador do Botafogo". A presença de muitos vencedores da Copa do Mundo FIFA de 1958 não impedia que Quarentinha fosse mais popular que eles na terra natal, mas atraiu enorme público nos arredores do lar familiar, a ponto de se cobrar ingressos para os interessados em avistar os craques.
O nome de Quarentinha era iniciado com a letra W, conforme depoimento dele no mesmo ano de 1959 ao Jornal dos Sports, no qual também referiu-se à numerosa prole do pai: "formávamos uma pequena tribo de 18 irmãos, e cada qual precisava puxar um pouco a sua carroça... Tínhamos combinado que a nossa vida seria uma só. Que nos ajudaríamos até a morte. Papai havia se casado duas vezes. Do primeiro matrimônio fazem parte: eu Waldir, Walter, Walmir, Walfrido e Waldemar, todos em W. A ideia do W partiu de mamãe. A madrasta já não quis seguir a linha da mesma letra". Outros irmãos filhos de sua mãe eram Wagner e Walquir, além de Nadir, irmã que teria chamado a atenção de Zagallo na visita botafoguense de 1959. Quarentinha aprovava, mas o pai desautorizou o romance. Dos irmãos que teve concebidos pela madrasta, Irene, alguns chamavam-se Maria de Fátima e Maurício.
Waldir era o segundo mais velho dos filhos de Quarenta, atrás somente de Walter, sobre quem descrevia em 1959, na mesma matéria do Jornal dos Sports, ser o melhor jogador dentre todos os filhos do pai, integrando àquela altura o Bonsucesso, que curiosamente contava também com o irmão de Nilton Santos, Nilson Santos. Walmir, por sua vez, também chegou a ser apelidado de Quarentinha, embora gradualmente acabasse mais conhecido pelo nome real. Embora também formado no Paysandu, acabou sobressaindo-se mais nos rivais: venceu o campeonato paraense de 1964 pelo Remo e fora o artilheiro dos de 1961 e 1962 pela Tuna Luso. Quarentinha chegou a tentar arranjar-lhe alguma equipe no Rio de Janeiro e em São Paulo. Segundo a mesma matéria de 1959 do Jornal dos Sports, naquele ano Wagner estava no Paysandu. Walquir teria defendido o o Sport Belém; e, na década de 1970, outro dos irmãos, chamado pelo sobrenome Lebrego, defendeu o Sporting do Pará.