Qiu Miaojin (29 de maio de 1969 – 25 de junho de 1995), foi uma escritora, jornalista e cineasta taiwanesa. Ela é mais conhecida pelo romance de 1994, Notas de um Crocodilo, e pelo romance de 1996, Últimas Palavras de Montmartre, publicado postumamente. As obras de Qiu são "frequentemente citadas como clássicas" e sua representação destemida da experiência lésbica teve uma profunda influência no mundo todo. A escrita de Qiu lançou bases significativas para a terminologia e a discussão do lesbianismo na língua chinesa moderna e na cultura popular da China.
Nascida no condado de Changhua, na parte oeste de Taiwan, Qiu frequentou a prestigiada Escola Secundária Feminina nº 1 de Taipei e a Universidade Nacional de Taiwan, onde se formou em psicologia. Trabalhou como conselheira e mais tarde como repórter na revista semanal The Journalist. Em 1994, mudou-se para Paris, onde fez seusestudos de pós-graduação em psicologia clínica e feminismo na Universidade de Paris VIII, estudando com a filósofa Hélène Cixous.
Qiu se suicidou aos 26 anos. Grande parte dos relatos sugere que ela se esfaqueou com uma faca de cozinha.
A escrita de Qiu Miaojin é influenciada pelas estruturas não narrativas do cinema de vanguarda e experimental, bem como pelos modernismos literários europeu e japonês. Seus romances contêm ângulos de câmera e écfrase em resposta ao cinema de arte europeu, incluindo alusões a diretores como Andrei Tarkovsky, Theo Angelopoulos, Derek Jarman e Jean-Luc Godard. Durante sua estadia em Paris, Qiu dirigiu um curta-metragem intitulado Ghost Carnival. Em 2021, o filme original em 16mm foi encontrado nos arquivos do Instituto de Cinema e Audiovisual de Taiwan e digitalizado. Atualmente, seus trabalhos como cineasta fazem parte da coleção do Museu de Arte Moderna de Nova York.
Sua obra mais conhecida é Notas de um Crocodilo, pela qual recebeu postumamente o Prêmio de Literatura do China Times em 1995. O apelido da personagem principal, Lazi, é a origem direta de um termo importante da gíria chinesa para "lésbica", "Lala". Notas de um Crocodilo foi publicado em 1994, em meio a um frenesi da mídia taiwanesa em torno de lésbicas, incluindo um incidente no qual um(a) jornalista de TV filmou secretamente frequentadoras de um bar lésbico sem o consentimento delas, resultando em alguns suicídios, e o suicídio coletivo de duas garotas, supostamente lésbicas, da escola de elite frequentada por várias personagens do romance e pela própria Qiu. Junto com sua última obra antes de sua morte, Últimas Palavras de Montmartre, o romance foi amplamente descrito como "um clássico cult".
Últimas Palavras de Montmartre é um romance epistolar composto por 20 cartas que podem ser lidas em qualquer ordem, baseado na noção de indeterminação musical. Sua prosa parece "confundir as distinções entre confissão pessoal e aforismo lírico", de acordo com uma resenha na Rain Taxi. Datadas entre 27 de abril de 1995 e 17 de junho de 1995, cerca de uma semana antes do suicídio da autora, as cartas começam com a dedicatória: "Para a pequena Bunny morta, e para mim, que em breve morrerei". Foi descrita como uma obra de arte relacional e notável pela presença obrigatória do leitor, "um 'você' para quem narrar", que é uma marca registrada das obras de Qiu.
Qiu foi reconhecida como um tesouro literário nacional e um ícone da contracultura, e descrita como uma "mártir" no movimento pelos direitos LGBT em Taiwan. Suas obras são ensinadas em escolas de ensino médio e faculdades em Taiwan e "tornaram-se um modelo literário para muitos aspirantes a escritores". Junto com Chen Xue, Lucifer Hung e Chi Ta-wei, seu trabalho é visto como o de uma "nova geração de autores queer" de Taiwan.
A vida, a obra e as circunstâncias do suicídio de Qiu Miaojin foram transformadas em documentário por Evans Chan, Amor e Morte em Montmartre, com a participação de Lai Xiangyin, romancista premiado e executor literário de Qiu. O filme teve origem num curta-metragem de 50 minutos, Morte em Montmartre, encomendado e transmitido pela RTHK em 2017. Chan expandiu-o posteriormente para o longa-metragem Love and Death in Montmartre, que estreou como nomeado para Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema Queer de Hamburgo em 2019. Posteriormente, o Festival de Cinema Asiático de San Diego apresentou a sua estreia nos EUA em 2020. Hélène Cixous descreveu o filme de Evans Chan como “fascinante” e “maravilhoso”, com Qiu evocada como “uma aparição comovente em busca do amor perdido”.
Multidão Solitária 《寂寞的群眾》(1990)
Um Carnaval de Fantasmas 《鬼的狂歡》(1991)
Notas de um Crocodilo 《鱷魚手記》(1994) - traduzido por Bonnie Huie (New York Review Books Classics, 2017)
Últimas Palavras de Montmartre 《蒙馬特遺書》(1996) - traduzido por Ari Larissa Heinrich (New York Review Books Classics, 2014)
"Cage"《囚徒》(1988) - traduzido por Shengchi Hsu (Strangers Press, 2024)
"Platonic Hair"《柏拉图之发》(1990) - traduzido por Fran Martin em Angelwings: Contemporary Queer Fiction from Taiwan (University of Hawai'i Press, 2003)