Qin Shi Huang Di (Novembro/Dezembro 260 a.C. - 10 de Setembro, 210 a.C.), foi rei do Estado chinês de Qin de 247 a.C. a 221 a.C., e posteriormente tornou-se o primeiro imperador de uma China unificada, de 221 a.C. a 210 a.C., reinando sob a alcunha de Primeiro Imperador.
Tendo unificado a China, ele e seu primeiro-ministro, Li Si, iniciaram uma série de reformas significativas com o intuito de fortificar e estabilizar a unidade política chinesa, ordenando projetos de construção gigantescos, como a própria Muralha da China - ainda não em suas dimensões máximas. Apesar de Qin Shi Huang ser considerado ainda hoje como um dos fundadores da China unificada, que assim permaneceria, com certas interrupções e diferenças territoriais, por mais de dois milênios, o imperador também é lembrado como um tirano autocrático.
Qin Shi Huang nasceu, segundo o calendário chinês da época, no mês de Zheng (正), o primeiro mês do ano (no século III a.C. o ano chinês começava antes do Solstício de Inverno, e não depois, como ocorre atualmente), e portanto recebeu o nome de Zheng (政), podendo ambos ideogramas serem utilizados na China antiga. Naquela época, as pessoas não uniam o nome próprio com o sobrenome como é costume atualmente, portanto referir-se a Qin Shi Huangdi como "Ying Zheng" seria anacronismo. O nome próprio era apenas utilizado por parentes próximos, e portanto seria também incorreto se referir ao jovem Qin Shi Huangdi como "Príncipe Zheng", ou como "Rei Zheng de Qin". Como rei, referiam-se a ele apenas como "Rei de Qin". Ele teria recebido ainda, assim como seu pai, um nome póstumo, e teria sido conhecido pelos historiadores como "Rei NN. (nome póstumo) de Qin", mas isto nunca ocorreu, contudo.
Após conquistar o último Estado chinês independente em 221 a.C., Qin Shi Huangdi tornou-se o rei do Estado de Qin governando toda a China, um feito nunca antes alcançado. Para demonstrar que não era um rei como os do Período dos Reinos Combatentes, ele passou a se autodenominar Huangdi (皇帝), combinando as palavras Huang (皇), que era utilizada para denominar os três Huang lendários (três Augustos) que reinaram nos primórdios da história chinesa, com a palavra Di (帝), que era utilizada para denominar os lendários cinco Di (Cinco Imperadores) que reinaram imediatamente após os três Huang. Estes três Huang e cinco Di eram considerados líderes perfeitos de imensos poderes, além de possuírem grande longevidade. A palavra huang também significa "grande". A palavra di também significa o deus supremo, criador do mundo. Neste sentido, juntando essas duas palavras, o que ninguém havia feito anteriormente, Qin Shi Huangdi criou um título relacionado ao seu feito único de unificação do reino da China - ou melhor, de unificação do mundo, já que os antigos chineses, assim como os romanos, acreditavam que seu império englobava todo o mundo.
A palavra huangdi foi traduzida na maioria dos idiomas ocidentais como "imperador", uma palavra também com uma longa história que remete a Roma antiga, e que os europeus consideram como superior a "rei". Qin Shi Huang adotou o nome Primeiro Imperador (Shi Huangdi, literalmente "imperador que começa"). Ele aboliu nomes póstumos, os quais os antigos reis tornavam-se conhecidos após morrerem, julgando-os inapropriados e contrários à piedade filial, e decidiu que as gerações futuras deveriam referir a ele como Primeiro Imperador (Shi Huangdi), seu sucessor deveria ser referido como Segundo Imperador (Er Shi Huangdi, literalmente "imperador da segunda geração"), o sucessor de seu sucessor deveria ser Terceiro Imperador (San Shi Huangdi, literalmente "imperador da terceira geração"), e assim por diante, por dez mil gerações, já que a casa imperial deveria reinar na China por dez mil gerações ("dez mil anos" é equivalente a "eternamente" em chinês, e também significa "boa sorte").
Qin Shi Huang tornou-se então o Primeiro Imperador do Estado de Qin. O nome oficial do Estado recém-unificado ainda era "Estado de Qin", já que Qin absorvera todos os outros Estados. O nome China (中華 ou 中國) originado de "Chin", como era conhecido na Pérsia e Industão, é uma versão romanizada de "Qin". Contemporâneos chamavam o imperador de "Primeiro Imperador", deixando de lado o "do Estado de Qin", o que era obviamente desnecessário. Entretanto, logo após a morte do imperador, seu regime entrou em colapso, e a China entrou em uma guerra civil. Eventualmente, em 202 a.C. a Dinastia Han iria reunificar a China, que ficou conhecida oficialmente como a Dinastia Han (漢國), que também pode significar "Império de Han". Qin Shi Huang não poderia mais ser chamado "Primeiro Imperador", já que isso implicaria que ele era "Primeiro Imperador do Império de Han". Tornou-se hábito então ter seu nome procedido por Qin (秦), o que não se referia mais ao Estado de Qin, mas a Dinastia Qin, uma dinastia agora substituída pela Dinastia Han. A palavra huangdi (imperador) em seu nome foi também minimizada para huang, e então ele ficou conhecido como Qin Shi Huang. Provavelmente huangdi foi encurtado para obter um nome de três ideogramas, o que está de acordo com o costume chinês (é raro entre os chineses um nome composto de quatro ou mais ideogramas).
O nome Qin Shi Huang (i.e., "Primeiro Imperador da Dinastia Qin") é o nome que aparece no livro Registros do Historiador, escrito por Sima Qian, e é o nome mais aceito atualmente na China para se referir ao Primeiro Imperador. Ocidentais às vezes escrevem "Qin Shi Huangdi", o que não é convencional - o mais comum é escrever "Qin Shi Huang" ou "Primeiro Imperador".
Juventude e Rei de Qin: O Conquistador
No período em que o jovem Zheng nasceu, a China estava dividida em Estados feudais que guerreavam entre si. Este período da história chinesa é conhecido como o Período dos Reinos Combatentes. A competição entre eles era extremamente violenta, e aproximadamente em 260 a.C. havia apenas alguns Estados (tendo os outros sido conquistados e anexados pelos demais), mas o Estado de Zheng, Qin, era o mais poderoso. Ele era governado por uma filosofia Legalista e se centrava desde seus primórdios em assuntos militares.
Zheng nasceu em Handan (邯鄲), a capital do Estado inimigo de Zhao. Ele era filho de Zichu, um príncipe da casa real de Qin que havia se tornado refém em Zhao devido a um acordo político entre os Estados de Qin e Zhao. Zichu posteriormente retornou a Qin após muitas aventuras e com a ajuda do rico mercador chamado Lü Buwei. Ele planejou ascender ao trono de Qin, colocando Lü Buwei como chanceler (primeiro-ministro) de Qin. Zichu é conhecido postumamente como Rei Zhuangxiang de Qin. De acordo com uma história bastante difundida, Zheng não era o verdadeiro filho de Zichu, mas sim filho do poderoso chanceler Lü Buwei. Esta história surgiu porque a mãe de Zheng era originalmente uma concubina de Lü Buwei antes dele dá-la ao seu bom amigo Zichu pouco antes do nascimento de Zheng. Entretanto, a história é duvidosa já que os confucionistas teriam tido muito facilidade em denunciar um líder cujo nascimento foi ilegítimo.
Zheng ascendeu ao trono em 247 a.C. com pouco mais de 12 anos de idade, e era auxiliado por um regente até 238 a.C., quando atinge a idade de 21 anos e passa a assumir o poder de forma absoluta. Zheng continuou a tradição de atacar com tenacidade os Estados feudais (escapando de uma tentativa de assassinato realizada por Jing Ke enquanto o fazia) e finalmente tomou controle de toda a China em 221 a.C. derrotando o último Estado chinês independente de Qin, o estado de Qi
Então no mesmo ano, com 38 anos de idade, o rei de Qin proclamou a si mesmo "Primeiro Imperador".
Para evitar o caos do Período dos Reinos Combatentes, Qin Shi Huang e seu primeiro-ministro Li Si aboliram completamente a economia tradicional, predominantemente considerada como feudal. Em vez deste sistema, o que fizeram foi dividir o império em trinta e seis províncias, governadas cada uma por três governadores, que poderiam ser dispensados de acordo com a vontade do governo central. Poderes civis e militares eram também divididos, para evitar que muito poder caísse nas mãos de uma única pessoa. Assim, cada província era governada por um governador civil, auxiliado por um governador militar. O governador civil era superior ao governador militar (uma constante na história chinesa). O governador civil também era redirecionado para uma província diferente em poucos anos, para evitar que pudesse construir uma base de poder própria. Um inspetor também governava cada província, sendo responsável de informar o governo central a respeito dos outros dois governantes, e possivelmente evitando conflitos entre estes.