Plácido (... – Trasacco, 31 de agosto de 237) foi um sacerdote romano, venerado como santo pela Igreja Católica.
Da vida de Plácido, a não confundir com o seu - e muito mais ilustre - homónimo venerado em Messina, não se conhece praticamente nada, a não ser que era um sacerdote cristão que viveu no século III. Existem, no entanto, lendas medievais tiradas de um relato hagiográfico inserido no Martirológio Jeronimiano que o identificam como um dos dois discípulos prediletos de São Bento de Núrsia juntamente com Mauro. Este relato narra de outros santos comemorados a 5 de outubro que, embora pertencentes a lugares diferentes, teriam sido todos mortos em Messina no Século VI, durante uma incursão de piratas, erroneamente tomados por árabes por Pedro Diácono na sua *Vita Placidi*.
Portanto, para remontar às causas do seu martírio, devemos referir-nos ao sacrifício do sacerdote Cesídio, originário de Trasacco, e inserido no Martirológio Romano de 1583. O curador da entrada foi o cardeal Cesare Baronio, por interesse do padre Camillo, cuja esposa Porzia Febonia e mãe do historiador era de Trasacco.
O Martirológio Romano indica a 31 de agosto a morte do sacerdote Cesídio, juntamente com outros cristãos perto da bacia do lago Fucino, em virtude da narração baseada, provavelmente, numa *passio* latina dos *Atos* de São Cristóvão e segundo a qual os três sacerdotes, Cesídio, Plácido e Eutíquio (mas deste último não se conhece praticamente nada), foram vítimas das perseguições ordenadas pelo imperador Maximino Trácio. Os três religiosos foram mortos durante uma missa em Trasacco, onde o bispo de Assis Rufino, pai de Cesídio, tinha fundado uma igreja confiada ao próprio filho, que depois foi destruída em 936 por incursão dos Húngaros e reedificada com o nome de Basilica dei Santi Cesidio e Rufino. Com eles pereceu um número impreciso de cristãos. Após o martírio, os restos mortais de Plácido foram levados secretamente para Roma, onde permaneceram até 1686.
Presume-se que Plácido fosse originário da região dos Marsi e que encontrou Cesídio depois de este, no final de uma prisão sofrida em Amasya, na Turquia, juntamente com o pai, se ter refugiado no Ocidente, em Trasacco. Só mais tarde Rufino se estabeleceu em Assis. Segundo esta reconstrução, Cesídio foi depois condenado à morte por ter roubado o corpo do pai, martirizado em Assis após uma nova prisão. Consequentemente, o assassinato de Plácido, de Eutíquio e dos fiéis presentes na missa dependeu principalmente da condenação à morte que tinha atingido Cesídio.
A transladação dos restos mortais do santo
Em 1686, os restos mortais do mártir foram retirados das Catacumbas de Calepódio – um presbítero romano morto cinco anos antes de Plácido e condenado à morte pelo imperador Alexandre Severo – mediante autorização do Papa Inocêncio XI, e transferidos para Montecarotto. Esta transferência ocorreu na sequência do processo de recuperação do culto dos santos, típico da política contrarreformista, que levou à quase total espoliação das catacumbas romanas. Pode-se intuir que a família Cybo-Malaspina tinha um interesse particular pela paróquia de Montecarotto, especialmente desde que o bispo de Jesi Lorenzo Cybo ali tinha morrido em 1680. Coube ao seu irmão, o poderosíssimo cardeal Alderano Cybo, então Secretário de Estado de Inocêncio XI e anteriormente bispo de Jesi de 1656 a 1671, depois de ter sido prelado doméstico de Urbano VIII, encarregar-se do pedido de concessão a Montecarotto dos restos mortais de um mártir romano. Ainda em 1686, o sucessor de Lorenzo Cybo, Pier Matteo Petrucci, foi elevado à dignidade cardinalícia; isso também pode ter facilitado junto do pontífice a obtenção da autorização para tal retirada. A escolha recaiu sobre Plácido, cujas relíquias chegaram ao destino a 5 de outubro, dia da veneração do monge messinense, gerando desde então uma fácil confusão.
A 6 de julho de 1693, durante a Visita Pastoral à paróquia, Monsenhor Orazio Perozzi, Comissário apostólico do Santo Ofício enviado de Roma para erradicar qualquer vestígio de Quietismo (depois de ter suspendido o cardeal Petrucci da atividade episcopal, subsequentemente à coação à abjuração), efetuou um reconhecimento canónico dos restos de São Plácido. Perozzi examinou com atenção tanto a caixa que continha os ossos, verificando a autenticidade e a integridade dos selos apostos no momento da extração e autenticação das relíquias em Roma pelo Prefeito da Sacristia Apostólica, quanto as próprias relíquias. No final do reconhecimento, Perozzi concedeu a autorização para expor à veneração dos fiéis aquelas relíquias.
Na falta de conhecimentos hagiográficos precisos, no Século XIX (mais precisamente após 1843) em torno da vida do santo cresceu em Montecarotto uma autêntica lenda, que o quis até neto e discípulo predileto de São Bento de Núrsia, e por ele enviado à Sicília para fundar novos mosteiros, antes de ser vítima das incursões sarracenas (ou, se for caso, de piratas vândalos de fé ariana liderados pelo temível Mamucha), que pretendiam erradicar o culto cristão. Como prova da ausência de uma ligação histórica entre o homónimo morto em Messina e o nosso jovem romano, há o facto de que os restos mortais do primeiro foram encontrados em Messina a 4 de agosto de 1588, cinco anos após a primeira edição do Martirológio Romano, e desde então guardados na Sicília.
Não menos arriscada é a comparação com outro suposto Plácido, também ele monge mas do qual não se têm referências hagiográficas, sempre morto em Messina no século VI, ou até antes, sob Diocleciano, de onde a suspeita de que a reconstrução dos eventos históricos seja grosseira e que insista nas investigações hagiográficas uma recorrente dificuldade em distinguir duas figuras religiosas cuja única relação é, provavelmente, o nome.
Sempre Baronio no Martirológio Romano nos narra de um grupo de mártires com recorrência a 11 de outubro composto pelos santos Plácido (diácono) e Anastásio (presbítero), cujo nome foi mudado dos precedentes Tanasio e, ainda antes, Taraco, aos quais se juntam Genésio e companheiros, nunca lembrados nas cópias do "Jeronimiano", mas que formam no seu conjunto um grupo artificial de mártires sempre mortos na Sicília, "devido" - escreve Caraffa - "a copistas ineptos".
É inegável que todas estas reconstruções, de escassa fiabilidade, ignorem a proveniência das catacumbas dos restos mortais do mártir, que atesta a sua época pré-constantiniana e valoriza a importância da recuperação do corpo num contexto de ferozes perseguições anticristãs. E os seguidores de Pedro e Paulo estavam bem conscientes de que desafiar as autoridades romanas, e em particular roubar as relíquias dos mártires (um crime punível com a morte), teria oferecido notáveis vantagens em termos de proselitismo.
Martírio de Plácido e Eutíquio
Mais digno de nota é, contudo, o martírio de Plácido e Eutíquio, que o "Jeronimiano" coloca genericamente na "Sicília", lembrando-o a 5 de outubro, embora tal data (que para Montecarotto permanece o aniversário da chegada das relíquias de Roma) esteja rodeada de mais imprecisões do que certezas. Os dois foram mortos juntamente com um número variável de companheiros: trinta nos manuscritos conhecidos como Bernense e Wissenburgense, oito no Epternacense.
Contudo, as identidades e a época em que estes mártires pereceram são impossíveis de estabelecer com certeza, pois faltam notícias antigas e fidedignas. Tudo isto torna particularmente difícil estabelecer uma relação entre o mártir e os restos mortais conservados em Montecarotto, embora se presuma que a morte remonte ao período das perseguições anticristãs. Não faltam, também neste caso, as habituais lendas medievais, que identificam Plácido com o célebre discípulo de São Bento, culminando num trágico, mas historicamente impreciso, martírio por mão de piratas árabes. Consequentemente, tanto as origens sicilianas como o 5 de outubro vacilam.
Em 1843, Gregório XVI oficializou São Plácido como padroeiro de Montecarotto. Se por um lado a decisão suscitou um sentimento de orgulho pelo seu significado religioso, por outro deu origem a um aceso debate sobre as supostas identidades beneditinas — nunca documentadas antes de 1843 — já valorizadas pela escolha de Gregório XVI de fixar a data da veneração do mártir no dia dedicado ao monge messinense. Daqui derivou também a atribuição de dotes miraculosos, pontualmente desmentidas pela Cúria romana. Desde então, muitas imagens o representam em hábito beneditino, em nítido contraste com o tradicional hábito romano que cobre as suas relíquias. Também a oração a ele dedicada denuncia um “tormento” reconduzível às torturas sofridas pelo homónimo messinense, como prova de uma não-cisão das duas ocorrências martirológicas e de uma escassa reflexão sobre os restos mortais das catacumbas do jovem mártir romano.