Piracicaba é um município brasileiro no interior do estado de São Paulo, Região Sudeste do país. É a principal cidade da Região Metropolitana de Piracicaba (RMP) e está situada a cerca de 150 km a noroeste da capital paulista. Ocupa uma área de pouco mais de 1 378 km², sendo aproximadamente 245 km² em área urbana e população de 438 827 habitantes, sendo assim o 13.º município mais populoso do estado.
Foi fundada em 1767, às margens do rio Piracicaba, manancial que foi vital para a região. No decorrer do século XIX, a agricultura se desenvolveu no município, com destaque para o cultivo da cana-de-açúcar e do café. Contudo, ainda na primeira metade do século XX, a cidade entrou em decadência. Com o fim do ciclo do café e a queda constante de preços do açúcar, a economia piracicabana se estagnou, o que viria a ser revertido somente a partir do início de sua industrialização.
A cidade se tornou uma das primeiras a se industrializar no país, com a abertura de plantas fabris ligadas ao setor metal-mecânico e de equipamentos destinados à produção de açúcar. Esta atividade expandiu-se a partir da década de 1970 para o setor sucroalcooleiro, com a criação do programa Pró-álcool, voltado para a produção de álcool hidratado para uso automotivo, devido à crise mundial do petróleo em 1973. Isto contribuiu significativamente para o crescimento industrial de Piracicaba ao longo das décadas seguintes, chegando a ser o 36.º maior PIB brasileiro em 2021, sendo sede de um dos principais centros industriais da região, além de contar com diversas universidades.
Além da importância econômica, Piracicaba ainda é um importante centro cultural de sua região. Rica em cultura caipira, teve seu sotaque e dialeto Caipiracicabano tombado como Patrimônio Imaterial pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural (Codepac). Além dessa, outras manifestações culturais foram tombadas como Patrimônio Imaterial, tais quais a Festa do Divino de Piracicaba (que ocorre desde 1826) e a Orquestra Sinfônica de Piracicaba (OSP), considerada a orquestra erudita com maior tempo em atividade do país. O Horto Florestal de Tupi e o Balneário de Ártemis configuram-se como grandes áreas de preservação ambiental, enquanto que o Parque Professor Phillipe Westin e os parques situados às margens do rio Piracicaba são relevantes pontos de visitação localizados na zona urbana. O Salão Internacional de Humor de Piracicaba é considerado um dos mais importantes eventos sobre humor gráfico, realizado anualmente no Engenho Central. Este antigo engenho canavieiro foi tombado como patrimônio histórico e cultural, servindo hoje como espaço cultural, artístico e recreativo.
O nome do município vem da língua geral paulista e significa "o lugar de chegada do peixe", através da junção dos termos pirá ("peixe"), syk ("chegar") , ab (sufixo que significa o lugar em que algo é feito ou acontece) e -a (sufixo substantivador). É uma referência às quedas do rio Piracicaba, que bloqueiam a migração (piracema) dos peixes.
É relevante notar que, conforme Eduardo Navarro em seu Dicionário de Tupi Antigo (2013), o termo provém da língua geral, que é um desenvolvimento histórico do tupi antigo e, portanto, mais recente. No tupi antigo, syk significava apenas chegar por terra (chegar por água, como no caso dos peixes, seria îepotar). O século em que foi dado o nome de Piracicaba ao lugar (século XVIII) coincide com a época em que a língua geral paulista era falada, e não mais o tupi antigo ou clássico.
Segundo datações por termoluminescência obtidas em sítios arqueológicos localizados entre os rios Claro e Piracicaba, essa região é ocupada de forma contínua por grupos humanos há pelo menos 8.000 anos. Nesses locais foram identificados antigos instrumentos de pedra, tais como percutores, raspadores, núcleos e lascas, assim como diversas pontas de projétil feitas a partir de arenito, quartzo e outras rochas, apresentando características geralmente associadas às Tradições Humaitá e Umbu. Essas primeiras populações ameríndias que habitaram os vales do rio Piracicaba e Corumbataí viviam da caça, pesca e coleta de frutos, raízes e outros alimentos. Ao todo, treze sítios arqueológicos pré-coloniais já foram identificados no território do atual município de Piracicaba, todos eles apresentando vestígios de antigas aldeias a céu aberto, oficinas líticas e acampamentos de caça.
Grupos indígenas agricultores e produtores de cerâmica teriam alcançado a região de Piracicaba por volta do início da Era Cristã, sendo estes os antepassados dos Tupi, Guarani e Guaianazes, povos falantes de idiomas dos troncos Tupi e Macro-Jê, respectivamente. Contudo, poucas informações precisas acerca do modo de vida e costumes dessas populações chegaram até a atualidade, já que os europeus nem sempre compreendiam as distinções étnicas que existiam entre os indígenas. Por outro lado, algumas fontes mencionam os Paiaguás e Caiapós enquanto possíveis habitantes dos arredores do vale do rio Piracicaba. A passagem de expedições bandeirantes pela região gerou diversos conflitos com os indígenas, sendo muitos destes expulsos, escravizados ou mortos ao longo dos primeiros séculos de colonização europeia.
Povoamento e criação do município
O Vale do Rio Piracicaba começou a ser ocupado por descendentes de europeus durante o século XVII, quando alguns colonos adentraram a floresta e começaram a ocupar as terras ao redor do rio Piracicaba, praticando a agricultura de subsistência e exploração vegetal. Por sua vez, o primeiro registro confirmado de sesmaria concedida na região de Piracicaba data de 1726, embora existam indícios de uma doação de sesmaria já em 1693, em nome de Pedro de Morais Cavalcanti. Recebida pelo ituano Felipe Cardoso, a sesmaria concedida em 1726 situava-se a cerca de um quilômetro do salto do rio Piracicaba, reunindo-se diversos posseiros e sesmeiros no entorno dessa área, a qual era parcialmente atravessada pelas estradas que levavam à vila de Itu e às minas de Cuiabá. Essa pequena comunidade rural formada na região aparece inclusive no “Mappa da Capitania de São Paulo”, produzido pelo cartógrafo genovês Francesco Tosi Colombina durante a década de 1750, o qual mostra uma certa localidade denominada “povoação nova de Piracicaba” na margem direita do rio de mesmo nome.
Em 1766, o então governador da Capitania de São Paulo, Dom Luís António de Sousa Botelho Mourão, decidiu fundar uma povoação na região, a qual serviria de apoio à navegação das embarcações que desceriam o rio Tietê, em direção ao rio Paraná, dando também retaguarda ao Forte de Iguatemi, localizado na divisa com o futuro Paraguai. A povoação deveria ser fundada na foz do rio Piracicaba com o Tietê, nas proximidades da atual cidade de Santa Maria da Serra, mas o capitão Antônio Correa Barbosa, incumbido de tal missão, decidiu-se por um ponto localizado entre setenta e noventa quilômetros da foz do Piracicaba, lugar já ocupado por alguns posseiros e com melhor acesso a outras vilas da região, notadamente Itu. A povoação de Piracicaba foi fundada em 1 de agosto de 1767, na margem direita do rio, localizado aproximadamente onde futuramente se situaria o Engenho Central e partes da Vila Rezende. Conforme era costume no período colonial, as povoações que recebiam autorização para erguer uma capela eram consagradas a uma figura santa cristã, sendo Nossa Senhora dos Prazeres escolhida para a localidade, sendo posteriormente mudada para Santo Antônio. Nesse sentido, a povoação de Piracicaba era ligada politicamente a Itu, então a vila mais próxima. Em 1774, a povoação foi elevada à condição de freguesia, contando na época com cerca de 230 habitantes e 45 casas, segundo um recenseamento realizado em 1775.
Em 1777, o forte de Iguatemi foi tomado pelos espanhóis, parte de uma campanha militar mais ampla da Coroa da Espanha na América, envolvendo também a conquista da colônia de Sacramento, localizada no atual Uruguai, e o rendimento das fortalezas lusitanas na Ilha de Santa Catarina. Consequentemente, a freguesia de Piracicaba parece também ter sofrido impactos indiretos dos conflitos, já que o apoio logístico ao forte de Iguatemi era uma das principais atividades econômicas locais. Por outro lado, conflitos entre Antonio Correa Barbosa e o padre João Manuel da Silva, primeiro pároco da freguesia, levaram o último a solicitar transferência em 1776, fazendo com que Piracicaba permanecesse sem serviços religiosos durante os oito anos seguintes. As tensões entre a população local e Correa Barbosa eram aparentemente frequentes, a ponto de, em 1786, ocorrer uma representação coletiva junto ao capitão-general da Capitania de São Paulo contra o chamado Povoador de Piracicaba.