Pierre Seel (Haguenau, 16 de Agosto de 1923 - Toulouse, 25 de Novembro de 2005) foi a única vitima francesa que relatou abertamente a sua experiência de deportação por homossexualidade durante a Segunda Guerra Mundial.
Pierre, nascido na residência de Fillate, em Haguenau, era o quinto e último filho de uma família católica abastada da Alsácia. Aos onze anos descobriu que a sua irmã mais nova, Josephine (tratada por Fifine), era de facto sua prima, adotada pelos pais de Pierre quando ficara órfã de mãe. O pai de Pierre era responsável por uma pastelaria-padaria muito famosa, no número 46 da rue du Sauvage, a artéria principal do centro de Mulhouse. Sua mãe, Emma Jeanne, que tinha chefiado uma grande loja, integrou-se no negócio familiar quando se casou. No final da sua adolescência, Pierre Seel já se identificava com as subculturas gay e zazou de Mulhouse. Acreditava que a sua homossexualidade era causada pela repressiva moral católica da família, que o proibia de mostrar interesse pelas raparigas da sua idade quando era mais novo. Teve muita dificuldade em aceitar a sua homossexualidade e descreveu-se a si mesmo como irascível.
Em 1939, aos 16 anos de idade, no jardim público Steinbach, conhecido lugar de engate de homens, roubaram-lhe o relógio, que lhe fora presenteado por sua tia e madrinha (irmã de sua mãe) para a sua primeira comunhão. Ao denunciar o roubo à polícia, sem se aperceber, o seu nome foi acrescentado à "lista rosa", uma relação de homossexuais que a polícia elaborava (a homossexualidade não era ilegal em França desde 1792 e só foi recriminalizada pelo Regime de Vichy em 1942).
A invasão alemã desfez as esperanças de Seel de estudar o fabrico de tecidos em Lille. Completou a sua formação em contabilidade, decoração e vendas, e procurou trabalho como vendedor numa loja da vizinhança.
Pierre Seel foi preso no dia 3 de maio de 1941. Torturado e violado com uma vara de madeira partida, foi de seguida enviado para a prisão da cidade e, no dia 13 de maio de 1941, transferido para o campo de Schirmeck-Vorbrück, 30 km a oeste de Estrasburgo. A sua farda de recluso exibia uma barra azul, identificadora dos presos católicos e não-sociais, em vez do conhecido triângulo rosa, que não se utilizava em Schirmeck.
"Não havia solidariedade para com os prisioneiros homossexuais; pertenciam à casta mais baixa. Outros prisioneiros, mesmo entre eles, costumavam agredi-los."
(...) "Mas tardo em evocar a prova que para mim foi a mais dura, apesar de ter ocorrido nas primeiras semanas do meu encarceramento. Mais do que qualquer outra, contribuiu para fazer de mim uma sombra obediente e silenciosa entre as demais.
Um dia, os altifalantes convocaram-nos para a Appellplatz. Sob os berros e o ladrar dos cães, apresentámo-nos de imediato. Dispuseram-nos em sentido, formando um quadrado, rodeados pelos SS como na chamada da manhã. O comandante do campo estava presente, com o seu estado-maior. Pensava eu que ele iria uma vez mais impingir-nos a sua cega fé no Reich, acompanhada de uma série de diretrizes, insultos e ameaças, à imagem das célebres vociferações do grande mestre, Adolfo Hitler. Na verdade, tratava-se de uma prova infinitamente mais penosa, uma condenação à morte. Para o centro do quadrado que nós formávamos, trouxeram um homem jovem, ladeado por dois SS. Horrorizado, reconheci o Jo, o meu doce amigo de dezoito anos.
Eu não dera pela sua presença no campo. Teria chegado antes ou depois de mim? Não nos tínhamos visto nos poucos dias anteriores à minha convocação pela Gestapo. Senti-me gelar de terror. Tinha rezado para que ele escapasse às rusgas, às listas, às humilhações. E ali estava ele, sob o meu olhar impotente embaciado pelas lágrimas. Ao contrário de mim, o Jo não tinha transportado correio perigoso, arrancado cartazes ou assinado declarações. No entanto, fora preso, e ia morrer. As listas estavam, pois, bem completas. O que se teria passado? O que lhe reprovavam aqueles monstros? Na minha dor, esqueci-me completamente do teor da ata de execução.
Em seguida, os alti-falantes começaram a difundir uma ruidosa música clássica, enquanto os SS o desnudavam. Depois, enfiaram-lhe violentamente na cabeça um balde de latão. Lançaram contra ele os ferozes cães pastores alemães, que o atacaram primeiro no baixo ventre e nas coxas, antes de o devorarem perante os nossos olhos. Os seus gritos de dor eram ampliados e distorcidos pelo balde. Rígido e titubeante, com os olhos esbugalhados por um horror sem nome e as lágrimas a correrem-me pelas faces, orei ardentemente para que ele não tardasse a perder a consciência.
Desde então, ainda me acontece frequentemente acordar a meio da noite aos gritos. Decorridos mais de cinquenta anos, aquela cena passa-me incessantemente pela vista. Jamais esquecerei o bárbaro assassinato do meu amor, sob os meus olhos, sob os nossos olhos — porque fomos centenas a testemunhá-lo."
No dia 6 de Novembro de 1941, depois de meses de fome, maus tratos e trabalhos forçados, Pierre Seel foi libertado sem explicações e declarado cidadão alemão. Karl Buck, o comandante do campo (que viria a morrer tranquila e impunemente na sua residência perto de Estugarda, muitos anos mais tarde), fê-lo jurar que manteria em segredo as suas experiências dessa época. Ficou obrigado a apresentar-se diariamente nos escritórios da Gestapo.
Entre 21 de março e 26 de setembro de 1942, Pierre Seel foi forçado a juntar-se ao Reichsarbeitsdienst. Seguiu primeiro para Viena, como ajudante de campo de um oficial alemão. Depois, foi colocado no aeroporto militar de Gütersloh, perto da fronteira entre a Alemanha e os Países Baixos.
A 15 de outubro de 1942, foi incorporado na Wehrmacht e converteu-se num dos «malgré-nous», jovens da Alsácia e da Lorena (regiões francesas que os nazis consideravam historicamente pertencentes à Alemanha) que foram recrutados contra a sua própria vontade pelo exército alemão e tiveram de lutar ao lado dos seus inimigos contra as pessoas que apoiavam. Durante os três anos seguintes, deambulou pela Europa, sem grandes memórias de acontecimentos, lugares ou datas. Na Jugoslávia, em luta contra a Resistência local, Pierre Seel e os seus camaradas incendiaram aldeias isoladas, onde viviam apenas mulheres e crianças. Numa refrega, um membro da Resistência partiu-lhe a mandíbula, arrancando-lhe um dente. Ferido, foi enviado para uma posição administrativa em Berlim.
Na primavera de 1943, para seu desconcerto, Seel foi enviado para a Pomerânia, para um Lebensborn, um de entre uma dúzia de lugares do Reich que Heinrich Himmler criara, com vista à procriação da nova raça ariana pura. Homens e mulheres jovens e saudáveis eram encorajados a procriar e a ofertar os seus filhos ao Reich. Seel permaneceu aí poucos dias.
No verão de 1943, ofereceu-se como voluntário para o Reichsbank e passou a ser caixa de banco nos comboios de soldados em gozo de licença entre Belgrado e Salonica. O ataque de 20 de julho de 1944 contra Hitler, com as consequentes medidas de segurança e reforço de autoridade, pôs termo a estas viagens e Seel acabou a ajudar a população civil nos abrigos de Berlim durante um ataque dos Aliados que durou quarenta dias e quarenta noites.
Com a situação a agravar-se para o Reich, Seel foi enviado para Smolensk, na frente russa. Por ter deixado escapar-se o cavalo do oficial que servia, foi enviado para uma posição perigosa, acompanhado apenas de um outro alsaciano. O inimigo disparou e o seu camarada teve morte instantânea. Pierre passou três dias na trincheira, quase enlouquecendo, julgando que o tinham esquecido.
Perante a iminente derrota alemã, o seu comandante propôs-lhe desertar com ele. Pouco depois esse oficial foi morto e Seel ficou só. Decidiu render-se às tropas soviéticas e marchou com elas para oeste. Algures na Polónia, foi preso e condenado ao fuzilamento, juntamente com um grupo de habitantes de uma povoação próxima, como represália pelo assassinato de um oficial soviético. Salvou-se dando um passo em frente e entoando A Internacional, já defronte do pelotão, o que, estranhamente, levou os soldados a desistirem de o fuzilar.