Pedro I de Castela, cognominado o Cruel (Burgos, 30 de agosto de 1334 – 23 de março de 1369), foi rei de Castela de 1350 até seu assassinato em Montiel por seu irmão bastardo e sucessor. Foi filho de Maria de Portugal (1313–1357) ("A fermosíssima Maria" d'Os Lusíadas de Luís de Camões) e de Afonso XI de Castela (1311–1350). Foi neto materno de Afonso IV de Portugal (1291–1357) e de Beatriz de Castela (1293–1359) e, portanto, sobrinho do homónimo Pedro I de Portugal, o Justiceiro. Era neto paterno da infanta, Constança de Portugal, e de Fernando IV de Castela.
Mem Rodrigues de Sanabria e a Guerra Civil Castelhana (1366–1369)
Contexto: O Tabuleiro da Guerra dos Cem Anos
A Península Ibérica do século XIV foi um dos principais palcos da Guerra dos Cem Anos. O conflito pelo trono de Castela não era apenas uma disputa familiar, mas um embate de potências: de um lado, Pedro I contava com o apoio da Inglaterra (liderada pelo Príncipe Negro); do outro, seu meio-irmão Henrique de Trastâmara era sustentado pela França, que enviava as temíveis "Companhias Livres" sob o comando do mestre estrategista Bertrand du Guesclin.
Pedro I: "O Cruel" ou "O Justiceiro"?
Pedro I de Castela recebeu o epíteto de "O Cruel" de seus inimigos nobiliárquicos devido à execução implacável de nobres rebeldes e até de familiares que ameaçavam sua autoridade. Contudo, entre as classes populares e os judeus, era frequentemente chamado de "O Justiceiro", por sua tentativa de centralizar o poder real e proteger os súditos contra os abusos da aristocracia.
A Lealdade Inabalável de Mem Rodrigues
Em meio a traições e mudanças de lado constantes, a figura de Mem Rodrigues de Sanabria destaca-se pela fidelidade absoluta a Pedro I. Senhor de terras estratégicas na fronteira com Portugal, Mem Rodrigues foi o principal apoiador técnico e militar do rei, servindo como seu Adiantado-Mor e confidente nos momentos mais sombrios da guerra civil.
O Duelo Final em Montiel (1369)
O auge da tragédia ocorreu após a Batalha de Montiel. Pedro I, cercado, tentou negociar uma fuga com Bertrand du Guesclin através da mediação de Mem Rodrigues. No entanto, Du Guesclin atraiu o rei para uma armadilha. Dentro da tenda do francês, Pedro I encontrou-se frente a frente com seu meio-irmão Henrique.
O encontro evoluiu para um combate físico brutal. Reza a lenda que, enquanto os irmãos lutavam no chão, Du Guesclin teria ajudado Henrique a desferir o golpe fatal, pronunciando a famosa frase: "Ni quito ni pongo rey, pero ayudo a mi señor" (Não tiro nem ponho rei, mas ajudo meu senhor). Pedro I foi morto, e Henrique II subiu ao trono, iniciando a Dinastia de Trastâmara.
A Fuga para Portugal e o Asilo de D. Fernando I
Com a morte de seu soberano, Mem Rodrigues de Sanabria recusou-se a prestar homenagem ao "fratricida". Ele liderou a resistência nas terras de Sanabria e, posteriormente, buscou asilo em Portugal.
O rei português D. Fernando I, que também possuía pretensões ao trono castelhano, acolheu Mem Rodrigues e outros nobres "petristas". Este movimento deu início às Guerras Fernandinas. Em troca de sua experiência militar, Mem Rodrigues recebeu o senhorio de várias terras em solo português (como a Vila da Feira). Foi nesse contexto de exílio e serviço à coroa portuguesa que o ramo da família Sanabria se estabeleceu em Portugal, onde o nome eventualmente evoluiu para a forma Seabra.
1. LOPES, Fernão. Crónica de D. Fernando. (Fonte primária essencial para as Guerras Fernandinas e o asilo dos nobres castelhanos).
2. AYALA, Pero López de. Crónica del Rey Don Pedro. (Relato contemporâneo das guerras civis de Castela).
3. COSTA, Maira. O Reino em Movimento: Nobreza e Fronteira no Século XIV.