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Papa Gregório I

64º Papa da igreja católica e criador do canto gregoriano

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Gregório I; São Gregório I; Gregório, Magno ou Gregório, o Grande (em latim: Gregorius I), nascido Gregório Anício (em latim: Gregorius Anicius); (Roma, 540 - Roma, 12 de março de 604) foi o 64.º Papa da Igreja Católica de 3 de setembro de 590 até a data de sua morte. É conhecido principalmente por suas obras, mais numerosas que as de seus predecessores. Ele é também conhecido como Gregório, o Dialogador na Ortodoxia por causa de seus "Diálogos" e é por isso que seu nome aparece em algumas obras listado como "Gregório Dialogus". Foi o primeiro Papa a ter sido monge antes do pontificado.

Gregório é reconhecido como um Doutor da Igreja e um dos Padres latinos. É também venerado como santo por católicos, ortodoxos, anglicanos e alguns luteranos. Foi canonizado assim que morreu, por aclamação popular, como era o costume. O reformador protestante João Calvino admirava Gregório e declarou em seus "Institutos" que ele teria sido o "último bom papa".

A data exata do nascimento de Gregório é incerta, mas estima-se que tenha ocorrido por volta do ano 540 em Roma. Seus pais o batizaram Gregorius, um nome que, segundo Elfrico de Abingdon (Ælfric) em sua "Uma Homilia sobre o Nascimento de São Gregório" "...é grego e significa, na língua latina, 'vigilantius', que em inglês se traduz como 'watchful' [vigilante em português]...". Autores medievais seguem também esta mesma etimologia e não hesitam em aplicar seu significado à vida de Gregório. Elfrico, por exemplo, conta que "era muito diligente [em sua obediência] aos mandamentos de Deus". Na realidade, o nome deriva de um termo do Novo Testamento, "grēgorein", que significa um "aspecto presente e contínuo do ato ser vigilante em não abandonar Cristo" e deriva de um termo mais antigo, "egrēgora", que significa "despertado do sono", derivado por sua vez de "egeirein", "acordar alguém".

Gregório nasceu numa rica família patrícia romana que tinha relações muito estreitas com a Igreja. Seu pai, Gordiano (Gordianus), que já havia servido como senador e prefeito urbano, era um "regionarius" na Igreja, embora quase nada se saiba sobre a função. Sua mãe, Sílvia, era bem nascida e tinha uma irmã casada, Patéria, na Sicília. Ela e duas irmãs, tias de Gregório, são veneradas como santas por católicos e ortodoxos. O trisavô de Gregório também havia sido papa, com o nome de Félix III, candidato do rei ostrogodo Teodorico, o Grande. A eleição de Gregório ao bispado de Roma transformou sua família na mais distinta dinastia clerical de sua época.

A família morava numa villa suburbana no Monte Célio na mesma rua – atualmente chamada "Via di San Gregorio" - onde estavam os palácios dos imperadores romanos, estes do lado oposto, no Monte Palatino. Ela ligava o Coliseu, no norte, ao Circo Máximo, no sul. Na época de Gregório, os edifícios antigos estavam em ruínas e eram propriedades privadas; villas se espalhavam por toda a região. A família de Gregório também tinha fazendas na Sicília e nas vizinhanças de Roma. Gregório posteriormente mandaria pintar retratos da família na forma de afrescos em sua casa no Monte Célio e estes foram descritos mais de 300 anos depois por João, o Diácono. Gordiano era alto, de rosto alongado, barbado e tinha olhos brilhantes. Sílvia era também alta, mas de rosto redondo, olhos azuis e semblante alegre. Pela descrição, o casal tinha também um outro filho do qual não sabemos sequer o nome.

O período em que Gregório nasceu era de grandes reviravoltas na Itália. A partir de 542, a chamada "Praga de Justiniano" arrasou as províncias imperiais, provocando fome, pânico generalizado e, por vezes, revoltas populares. Em algumas regiões, até um terço da população morreu, provocando profundos traumas emocionais e espirituais nos sobreviventes. Politicamente, embora o Império Romano do Ocidente já tivesse há muito desaparecido, durante a década de 540 toda a península itálica foi sendo gradualmente retomada pelo imperador bizantino Justiniano I de seus governantes godos. Como as batalhas ocorriam principalmente no norte, o jovem Gregório provavelmente nunca presenciou os horrores da guerra. Tótila saqueou e despopulou Roma em 546, assassinando quase toda a população que ainda vivia ali, mas, três anos depois, convidou os poucos sobreviventes a retornarem para as ruas vazias e arruinadas da cidade. Pressupõe-se que a família de Gregório se refugiou em suas terras na Sicília durante este período e retornou quando Tótila permitiu. A guerra contra os godos terminou em Roma em 552 e uma nova invasão, desta vez pelos francos, foi derrotada em 554. A partir daí, a paz se instaurou na Itália e uma restauração aparente começou, com a diferença que, desta vez, o monarca vivia em Constantinopla.

Como a maioria dos jovens de status similar na sociedade romana, Gregório recebeu uma excelente educação, aprendendo gramática, retórica, as ciências clássicas, literatura e direito, destacando-se em todas. Gregório de Tours relatou que "em gramática, dialética e retórica...não tinha rivais...". Gregório conseguia escrever o latim corretamente, mas não sabia ler e nem escrever o grego. Conhecia além disso as obras dos principais autores latinos, história, matemática, música e tinha tamanha "fluência no direito imperial" que é possível que sua educação servisse "como preparação para uma carreira no serviço público". E, de fato, Gregório logo tornou-se um funcionário do governo e ascendeu rapidamente na hierarquia, tornando-se, como o pai, prefeito urbano de Roma, o mais alto posto civil na cidade, com apenas 33 anos de idade.

Os monges do Mosteiro de Santo André, fundado nas terras da família de Gregório no Monte Célio, tinham um retrato de Gregório feito logo depois de sua morte e que João, o Diácono, também viu no século IX. Conta que era uma pintura de um homem ''um pouco careca" com uma barba "amarelada" como a de seu pai e um rosto que era de formato intermediário entre o de sua mãe e de seu pai. O cabelo nos lados da cabeça eram longos e cuidadosamente cacheados. Seu nariz era "fino e reto" e "levemente aquilino". "Sua testa era alta" e tinha lábios grossos e "subdivididos", um queixo "de graciosa proeminência" e "belas mãos".

Quando seu pai morreu, Gregório converteu a villa da família num mosteiro dedicado a Santo André. Posteriormente, depois de sua própria morte, o local seria rededicado e rebatizado como San Gregorio Magno al Celio.

Sobre a vida contemplativa, Gregório afirmava que "naquele silêncio do coração, enquanto permanecemos vigilantes no interior através da contemplação, estamos como que dormindo para tudo que está no exterior". Porém, é possível que Gregório nem sempre tenha sido tão complacente ou agradável em seus anos como monge. Conta-se que, certa vez, um monge moribundo confessou ter roubado três moedas de ouro. Gregório, implacável, obrigou-o a morrer sozinho e sem amigos e depois atirou seu corpo, com as moedas, numa pilha de esterco para apodrecer, amaldiçoando-o: "Leva teu dinheiro contigo para a perdição!" Gregório acreditava que mesmo no leito de morte, a punição pelos pecados cometidos deve ser severa, mas seus atos tinham por objetivo ajudar o monge a se arrepender de seus pecados. A penitência de fato ajudou-o em seu arrependimento e, depois do incidente, Gregório ofereceu 30 missas em sua memória para ajudar sua alma antes do juízo final, como era o costume. O monge depois apareceu para seu irmão, afirmou ter sido libertado e que estava no céu. Em algum momento neste período, o papa Pelágio II ordenou-o diácono e pediu sua ajuda para tentar resolver a controvérsia dos Três Capítulos, que já provocara um cisma no norte da Itália, uma tarefa que Gregório não conseguiu realizar com sucesso.

Gregório nutria um profundo respeito pela vida monástica e entendia o monge como estando numa "busca ardente pela visão de nosso Criador". Suas três tias paternas eram freiras famosas por sua santidade. Porém, depois que as duas mais velhas faleceram após terem tido uma visão do papa Félix II, um ancestral da família, a mais nova abandonou a vida religiosa e se casou com o administrador de suas terras. Gregório lamentou o escândalo na família afirmando que "muitos são chamados, mas poucos são escolhidos".

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