Octavia Estelle Butler (Pasadena, 22 de junho de 1947 – Lake Forest Park, 24 de fevereiro de 2006), mais conhecida por Octavia Butler, foi uma escritora afro-americana consagrada por seus livros de ficção científica feminista e por inserir a questão do preconceito e do racismo em suas histórias.
Octavia Butler decidiu tornar-se escritora aos doze anos ao assistir ao filme Devil Girl from Mars e convencendo-se de que poderia escrever uma história melhor. Depois de vender algumas histórias para antologias, adquiriu notoriedade a partir dos anos 1980, ganhando os prêmios Nebula e Hugo. Mas foi a publicação dos livros Parable of the Sower (1993) e Parable of the Talents (1998) que solidificou sua fama como escritora. Em 2005, ela foi admitida no Hall Internacional da Fama de Escritores Negros.
Após sua morte, em 2006, uma bolsa de estudos que leva seu nome foi criada para incentivar estudantes negros inscritos nas oficinas de escrita onde Butler foi aluna e, mais tarde, professora.
Octavia Estelle Butler nasceu em 1947, em Pasadena, na Califórnia, filha única de Octavia Margaret Guy, uma empregada doméstica, e Laurice James Butler, um engraxate. O pai de Butler morreu quando ela tinha sete anos, ficando sua criação a cargo da mãe e da avó materna. Posteriormente, a autora classificaria seu ambiente familiar como "estritamente Batista".
Octavia cresceu na comunidade racialmente integrada da cidade de Pasadena, o que lhe permitiu viver num espaço de diversidade cultural e étnica em meio à segregação racial nos Estados Unidos. Mesmo assim, a autora também se familiarizou com o funcionamento da supremacia branca, como nas ocasiões em que acompanhou sua mãe ao trabalho: nestes momentos, a escritora chegou a ver sua mãe entrando nas casas de pessoas brancas pelas portas dos fundos e também presenciou pessoas brancas falando a ela ou dela de maneira desrespeitosa. Diversas vezes, a mãe de Butler trouxe para casa livros e revistas que as famílias brancas haviam jogado fora para sua jovem filha ler.
Desde muito cedo, uma timidez quase paralisante tornou difícil para Octavia se socializar com outras crianças. Essa dificuldade, junto com uma pequena dislexia que tornava seus trabalhos escolares um tormento, a fez acreditar que ela era "feia e estúpida, desajeitada e socialmente incorrigível". Ela cresceu até atingir 1,80 m de altura, se tornando alvo fácil para bullies. Como resultado, ela frequentemente passava seu tempo lendo na Biblioteca Pública de Pasadena e escrevendo resmas e resmas de páginas em seu "grande caderno rosa". Cativada, a princípio, por contos de fadas e estórias equestres, rapidamente ela se interessou por revistas de ficção científica como a Amazing Stories, a Magazine of Fantasy & Science Fiction e a Galaxy. Nesta época, também começou a ler as histórias de Zenna Henderson, John Brunner e Theodore Sturgeon.
Aos dez anos, ela implorou que sua mãe lhe comprasse uma máquina de escrever Remington, na qual "escreveu [suas] histórias a dois dedos". Aos doze anos, ao assistir à versão televisionada do filme Devil Girl from Mars, convenceu-se de que poderia escrever uma história melhor. Escreveu, então, o rascunho do que, mais tarde, se tornaria a base para seus romances da série Patternist. Até então alegremente desavisada dos obstáculos que uma escritora negra e mulher poderia encontrar, a jovem autora se tornou insegura pela primeira vez aos treze anos quando sua bem-intencionada tia Hazel transmitiu-lhe a realidade da Segregação em cinco palavras: "Querida... Negros não podem ser escritores". Mesmo assim, Butler perseverou em seu desejo de publicar uma história, chegando a pedir ao seu professor de ciências do ensino fundamental, Sr. Pfaff, que digitasse o primeiro manuscrito que ela enviou a uma revista de ficção científica.
Após terminar o ensino médio na Escola John Muir, em 1965, Butler começou a trabalhar durante o dia e frequentar a Pasadena City College (PCC) à noite. Como caloura, Butler ganhou um concurso de contos da universidade, obtendo seu primeiro pagamento (15 dólares) como escritora.
Em 1968, Butler se formou pela PCC com um diploma de tecnóloga em artes com foco em história. Mais tarde, ela se inscreveu na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), onde também assistiu a aulas pelo programa UCLA Extension.
Apesar da mãe de Butler querer que sua filha se tornasse secretária com uma renda estável, a autora continuou a trabalhar numa série de empregos temporários, preferindo o tipo de trabalho que requeria pouco de sua mente, pois isto lhe permitiria se levantar às duas ou três da manhã para escrever. A ausência de críticas úteis levou-a a imitar o estilo da ficção científica dominada por homens brancos que ela cresceu lendo.
A autora conseguiu uma oportunidade durante o Open Door Workshop da Screenwriter's Guild of America, West, um programa criado com o objetivo de promover escritores de minorias. A escrita de Butler impressionou um dos professores da Writer's Guild, o célebre escritor de ficção científica Harlan Ellison, que a encorajou a participar do Clarion Science Fiction Writers' Workshop, um programa de seis semanas na cidade de Clarion, Pensilvânia. Lá, ela conheceu o escritor Samuel Delany, que se tornaria seu amigo de longa data. Lá, ela também vendeu suas duas primeiras histórias: "Child Finder" foi vendida a Harlan Ellison para a antologia The Last Dangerous Visions e "Crossover" a Robin Scott Wilson, diretor do programa Clarion, para a antologia Clarion de 1971.
Durante os próximos cinco anos, Octavia Butler trabalhou em uma série de romances que, mais tarde, ficaria conhecida como a série Patternist: Patternmaster (1976), Mind of My Mind (1977) e Survivor (1978). Em 1978, ela finalmente conseguiu parar de trabalhar em empregos temporários e viver da sua escrita. Nesse tempo, a autora dedicou-se menos à série Patternist para pesquisar e escrever o romance Kindred (1979), seu livro mais vendido, mas voltou para terminá-la, escrevendo Wild Seed (1980) e Clay's Ark (1984).
Octavia Butler teve o "germe da ideia" para Kindred na faculdade, quando um jovem colega de classe afro-americano, envolvido com o movimento Black Power, ruidosamente criticou gerações anteriores de afro-americanos por terem sido subservientes aos brancos. A autora explicou em entrevistas que os comentários do jovem a instigaram a responder com uma história que contextualizaria historicamente aquela vergonhosa subserviência para que, assim, ela pudesse ser entendida como uma sobrevivência silenciosa, porém corajosa.
A ascensão à notoriedade de Butler começou em 1984, quando seu conto "Speech Sounds" ganhou o prêmio Hugo de Melhor Conto e "Bloodchild" ganhou os prêmios Hugo, Locus e o prêmio Science Fiction Chronicle Reader de melhor Novelette.
Nesse tempo, Butler viajou à floresta amazônica e aos Andes, com o intuito de realizar pesquisa para o que se tornaria sua trilogia Xenogenesis, composta pelos livros Dawn (1987), Adulthood Rites (1988) e Imago (1989).
Durante os anos 1990, Butler trabalhou nos romances que solidificaram sua fama como escritora: Parable of the Sower (1993) e Parable of the Talents (1998). Em 1995, ela se tornou a primeira escritora de ficção científica a ganhar a bolsa do programa MacArthur Fellows da fundação John D. e Catherine T. MacArthur, cujo prêmio em dinheiro é de 295 mil dólares.
Em 1999, depois da morte de sua mãe, Butler se mudou para a cidade de Lake Forest Park, em Washington. Seu livro Parable of the Talents havia ganhado o prêmio Nebula de Melhor Romance da Science Fiction Writers of America (SFWA) e a autora tinha planos para mais quatro romances na série: Parable of the Trickster, Parable of the Teacher, Parable of Chaos e Parable of Clay. Contudo, depois de falhar diversas vezes em começar Parable of the Trickster, Butler decidiu parar de trabalhar na série. Em entrevistas posteriores, a autora explicou que a pesquisa e a escrita dos romances da série sobrecarregaram e deprimiram-na. Por conta disso, ao invés de continuar a série, decidiu escrever algo "leve" e "divertido", que se tornou seu último livro: Fledgling (2005), uma história que combina ficção científica e vampiros.