Ngũgĩ wa Thiong'o (pronunciado [ŋɡoɣe wa ðiɔŋɔ]; nascido James Ngugi; Kamiriithu, 5 de janeiro de 1938 – Atlanta, 28 de maio de 2025) foi um escritor, professor universitário e dramaturgo queniano, que escreveu obras em língua inglesa e posteriormente em língua gĩkũyũ. A sua obra inclui novelas, peças teatrais, contos e ensaios, da crítica social à literatura infantil. Foi o fundador e editor da revista gĩkũyũ Mutiiri.
O escritor, uma das grandes referências da África em literatura, tem também uma história de luta pela libertação de seu país. Na década de 60, quando a colonização do continente africano estava em cheque, terminando na queda de vários governos, ele lutou pela emancipação do Quênia das mãos dos britânicos ao lado de jovens intelectuais que, como ele, eram recém-saídos da universidade.
Em 1977, Ngũgĩ wa Thiong'o escreveu uma peça de teatro no seu Quénia natal que procurava libertar o processo teatral do que ele dizia ser "o sistema geral de educação burguês", ao encorajar a espontaneidade e a participação da audiência na execução da peça. A peça não foi bem acolhida pelo autoritário regime queniano e o autor passou mais de um ano na cadeia. A esse respeito, diz que:"Escrevi em inglês meus primeiros quatro romances, inclusive Um grão de trigo. Quando fui preso, em 1977, foi porque escrevi uma peça de teatro em gikuyu. Por isso, tomei a decisão política, de resistência, de escrever sempre no meu idioma original."A Amnistia Internacional tomou-o como prisioneiro de consciência, e o artista foi libertado da cadeia, saindo do país. Nos Estados Unidos, ensinou na Universidade de Yale durante alguns anos, e também na Universidade de Nova Iorque. Ngũgĩ viu muitas vezes o seu nome nas listas de candidatos ao prémio Nobel da Literatura. Para o crítico literário Jonatan Silva, Thiong'o retrata como poucos a luta pela independência do Quénia. Em sua crítica para Um Grão de trigo, livro que lhe deu reconhecimento mundial, Silva ressaltou a habilidade do escritor em criar um "jogo de espelhos" entre realidade e ficção.
Ngũgĩ wa Thiong'o é o quinto filho de Wanjikũ wa Ngũgĩ, terceira de quatro esposas do seu pai, Thiong'o wa Ndũcũ, que teve 24 filhos com suas esposas. Ele é descendente de kikuyus e foi batizado James Ngugi. Sobre a oportunidade que teve, por idealização da sua mãe, de realizar o sonho de frequentar a escola pela primeira vez, anotou em sua autobiografia: "Certa noite, minha mãe me perguntou: Você gostaria de ir para a escola? Foi em 1947. (...) Era o oferecimento do impossível o que me destituía de palavras. Minha mãe teve que fazer a pergunta de novo.
- Sim, sim - disse eu rapidamente, no caso de ela ter mudado de ideia.
- E por isso talvez você nem sempre leve uma refeição de meio-dia.
- Me promete que não vai me envergonhar se recusando algum dia a ir à escola por causa da fome ou de outras dificuldades?
- E que sempre vai dar o seu melhor?
Eu teria prometido qualquer coisa naquele momento. Mas quando olhei para ela e disse 'Sim', lá no fundo sabia que ela e eu havíamos feito um pacto: eu sempre tentaria dar o meu melhor, fosse qual fosse a dificuldade, fosse qual fosse o obstáculo."Sua família era de fazendeiros cujas terras haviam sido retomadas sob a Lei de Terras do Império Britânico de 1915. Durante a infância de Ngũgĩ, eles foram pegos na Revolta dos Mau-Mau de 1952-1960; seu meio-irmão Mwangi estava ativamente envolvido no Exército da Terra e da Liberdade do Quênia (no qual foi morto), outro irmão foi baleado durante o Estado de Emergência e sua mãe foi torturada no posto de guarda residencial de Kamiriithu.
Ngũgĩ deixou Limuru em 1955 para estudar na Alliance High School, uma escola pública para meninos a cerca de 20 quilômetros de distância. Depois, estudou no Uganda, na Universidade Makerere. Ele disse que foi nesses anos em seu novo país de residência que encontrou sua voz como escritor: "Os romances The River Between e Weep Not, Child foram os primeiros produtos da minha residência no país de minha migração educacional. Uganda me permitiu descobrir meu Quênia e até mesmo reviver minha vida na aldeia. Descobri meu país de origem estando longe do país de origem." Como estudante, ele participou da Conferência de Escritores Africanos realizada em Makerere em junho de 1962, e sua peça The Black Hermit estreou como parte do evento no The National Theatre. Na conferência, Ngũgĩ pediu a Chinua Achebe que lesse os manuscritos de The River Between e Weep Not, Child, que foram posteriormente publicados na African Writers Series de Heinemann, lançada em Londres naquele ano, com Achebe como seu primeiro editor consultivo. Ngũgĩ recebeu seu diploma de bacharel em inglês pela Makerere University College em 1963.
Primeiras publicações e estudos na Inglaterra
A sua primeira novela Weep not Child, escrita em 1962 pouco antes da independência queniana aborda, através dos olhos de um jovem chamado Njoroge, as tensões entre brancos e negros, entre a cultura africana e a europeia, numa época em que os revoltosos kikuyus (Mau-Mau) se levantaram contra a autoridade britânica. Foi o primeiro romance em inglês a ser publicado por um escritor africano da África Oriental.
Mais tarde naquele ano, tendo ganhado uma bolsa de estudos para a Universidade de Leeds para estudar para um mestrado, Ngũgĩ viajou para a Inglaterra, onde estava quando seu segundo romance, The River Between, foi lançado em 1965. The River Between, que tem a Revolta dos Mau-Mau como pano de fundo e descreve um romance infeliz entre cristãos e não cristãos, estava anteriormente no currículo nacional do ensino médio do Quênia. Ele deixou Leeds em 1967 sem concluir sua tese sobre literatura caribenha, para a qual seus estudos se concentraram em George Lamming, sobre quem Ngũgĩ disse em sua coleção de ensaios de 1972, Homecoming: "Ele evocou para mim uma imagem inesquecível de uma revolta camponesa em um mundo dominado pelos brancos. E de repente eu soube que um romance poderia falar comigo, poderia, com uma urgência convincente, tocar cordas [sic] bem no fundo de mim. Seu mundo não era tão estranho para mim quanto o de Fielding, Defoe, Smollett, Jane Austen, George Eliot, Dickens, DH Lawrence."
Mudança de nome, ideologia e ensino
O romance de Ngũgĩ de 1967, A Grain of Wheat, marcou sua adesão ao marxismo fanonista. Posteriormente, ele renunciou à escrita em inglês e ao nome James Ngugi como colonialista; em 1970, ele mudou seu nome para Ngũgĩ wa Thiong'o, e começou a escrever em sua língua nativa, Gikuyu. Em 1967, Ngũgĩ também começou a lecionar na Universidade de Nairóbi como professor de literatura inglesa. Ele continuou a lecionar na universidade por dez anos, enquanto atuava como bolsista em Escrita Criativa na Universidade Makerere. Durante esse tempo, ele também deu palestras como convidado na Universidade Northwestern, Evanston, no departamento de Estudos Ingleses e Africanos por um ano.
Enquanto professor na Universidade de Nairóbi, Ngũgĩ foi o catalisador da discussão para abolir o departamento de inglês. Ele argumentou que, após o fim do colonialismo, era imperativo que uma universidade na África ensinasse literatura africana, incluindo literatura oral, e que isso deveria ser feito com a compreensão da riqueza das línguas africanas. No final da década de 1960, esses esforços resultaram no abandono da Literatura Inglesa como curso de estudo pela universidade e sua substituição por um que posicionasse a Literatura Africana, oral e escrita, no centro.
Em 1976, Thiong'o ajudou a estabelecer o Centro Cultural e Educacional Comunitário Kamiriithu que, entre outras coisas, organizou o Teatro Africano na área. No ano seguinte, foi publicada Petals of Blood. Sua forte mensagem política, e a de sua peça Ngaahika Ndeenda (Eu me casarei quando eu quiser), coescrita com Ngũgĩ wa Mirii e também publicada em 1977, levaram o então vice-presidente queniano Daniel arap Moi a ordenar sua prisão. Cópias de sua peça, livros de Karl Marx, Friedrich Engels e Vladimir Lenin foram confiscados dele. Ele foi enviado para a Prisão de Segurança Máxima de Kamiti, e mantido lá sem julgamento por quase um ano.