Ney de Souza Pereira OMC (Bela Vista, 1 de agosto de 1941), mais conhecido como Ney Matogrosso, é um cantor, intérprete, dançarino, ator e diretor brasileiro.
Ex-integrante do Secos & Molhados (1973–1974), foi o artista que mais sobressaiu do grupo após iniciar sua carreira solo com o disco Água do Céu - Pássaro (1975) e com suas apresentações subsequentes.
É considerado pela revista Rolling Stone como a terceira maior voz brasileira de todos os tempos e, pela mesma revista, 31.º maior artista brasileiro de todos os tempos.
Embora tenha começado relativamente tarde, das canções poéticas e de gêneros híbridos dos Secos e Molhados passou a interpretar outros compositores do país, como Chico Buarque, Cartola, Rita Lee, Tom Jobim, construindo um repertório que prima pela qualidade e versatilidade. Em 1983, completava dez anos de estreia no cenário artístico e já possuía dois Discos de Platina e dois Discos de Ouro, inclusive pela enorme repercussão da canção "Homem com H" de 1981.
Como iluminador de espetáculos, tem supervisionado toda a produção da área em suas próprias apresentações. Também merece destaque seu trabalho de iluminação e seleção de repertório no show Ideologia (1988) de Cazuza e no show Paratodos (1993) de Chico Buarque, ao que afirma: "quero que as luzes provoquem sensações nas pessoas". Matogrosso também tem atuado recentemente no cinema: estreou em 2008 no curta-metragem Depois de Tudo, dirigido por Rafael Saar, e no filme Luz das Trevas de 2009, dirigido por Helena Ignez.
Atribuem a sua maquiagem cênica e seu vestuário exótico desde os anos 1970 uma certa mudança de conceitos sobre o comportamento masculino apropriado no Brasil. Segundo Violeta Weinschelbaum, "o magnetismo de sua figura, a atração decididamente sexual que Ney Matogrosso produz sobre o palco é algo inimaginável". A biógrafa Denise Pires Vaz também escreve: "Dos cantores brasileiros, Ney Matogrosso é um dos poucos, senão o único, que pode merecer o título de showman". Posteriormente foi lançado o filme Homem com H retratando a carreira e pessoal do artista.
Filho do militar Antônio Mattogrosso Pereira e Beita de Souza Pereira, Ney teve uma infância nômade, mudando de cidade com frequência. Era o filho do meio, com seus irmãos Gay e Grey homenageando dois militares amigos do pai. O nome artístico que adotou mais tarde foi resgatado da própria família, já que seu pai tem "Matogrosso" no nome e é uma referência a seu estado de nascimento, Mato Grosso do Sul. Ney nasceu na cidade de Bela Vista, fronteira com o Paraguai. Adotou seu nome artístico somente em 1971, quando se mudou para São Paulo. Desde cedo demonstrou dotes artísticos: cantava, pintava e interpretava. Teve a infância e a adolescência marcadas pela solidão, pois se sentia incompreendido pela família e diferente dos outros meninos. Ao completar 18 anos assumiu sua bissexualidade, e decidiu deixar a casa de sua família para ingressar na Aeronáutica. Nesta época Ney ainda estava indeciso quanto à futura profissão. Gostava de ler sobre teatro e música, e desde a adolescência cantava em bares e cabarés de sua cidade natal e cidades próximas, com um grupo de amigos seus, todos os fins de semana. Desistiu, então, de servir as forças armadas, e acabou indo morar em Brasília, na casa de seu primo, onde começou a trabalhar no laboratório de anatomia patológica do Hospital de Base do Distrito Federal. Alguns anos depois, foi convidado para participar de um festival universitário, onde chegou a formar um quarteto vocal. Depois do festival, atuou dançando e cantando em um programa de televisão. Também concentrou suas atenções no teatro, decidido se profissionalizar na área da atuação. Atrás deste sonho, deixou a Capital Federal e desembarcou no Rio de Janeiro em 1966, onde passou a viver da confecção e venda de peças de artesanato em couro. Ney adotou completamente a filosofia de vida hippie.
Neste período, viveu entre Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, até conhecer o produtor musical João Ricardo, que procurava um cantor para um conjunto musical e convidou Ney para ser o cantor do grupo Secos & Molhados, com o qual gravou dois discos, ambos autointitulados e lançados pela extinta gravadora Continental, entre 1973 e 1974. O álbum de estreia chegou à marca de mais de um milhão de cópias vendidas e gerou vários sucessos, como "Rosa de Hiroshima", poema de Vinicius de Moraes musicado por Gérson Conrad; "O Vira", de Luli e João Ricardo; "Sangue Latino", de João Ricardo e Paulinho Mendonça; "O Patrão Nosso de Cada Dia", de João Ricardo; e no segundo álbum o destaque foi para "Flores Astrais", de João Ricardo, em parceria com João Apolinário.
Saiu dos Secos & Molhados em 1974 e no ano seguinte lançou o primeiro disco solo, Água do Céu - Pássaro (também conhecido como O homem de Neanderthal em referência à faixa homônima de abertura, de autoria de Luiz Carlos Sá, e por ter sido o título do antológico primeiro espetáculo da carreira solo), que vinha numa capa de papelão cru, com Ney Matogrosso pintado, vestido com pelos de macaco, chifres e pulseiras de dentes de boi, apresentando sonoridade vanguardista, com músicas interligadas por sons da floresta, macacos, ventanias, água corrente e pássaros.
Água do Céu foi considerado extravagante demais e obteve vendagem inexpressiva. Destacam-se no repertório as músicas "América do Sul", de Paulo Machado; o mambo "Coubanacan"; a regravação de um fado de Amália Rodrigues ("Barco Negro") e canções de Milton Nascimento/Rui Guerra ("Bodas") e João Bosco/Aldir Blanc ("Corsário"), além das músicas "Açúcar Candy" (de Sueli Costa e Tite de Lemos) e "Idade de ouro" (de Jorge Omar e Paulo Mendonça). O trabalho foi distribuído juntamente com um compacto, que apresentou duas músicas que gravou na Itália com o músico e compositor argentino Astor Piazzola: "As Ilhas" e "1964".
Em 1976 veio o reconhecimento com o disco Bandido. A canção "Bandido Corazón" foi composta por Rita Lee e tornou-se um grande sucesso na voz de Ney. Além desta, o disco trazia, dentre outras, as músicas "Pra não morrer de tristeza", de João Silva e Caboclinho; "Trepa no coqueiro", de Ari Kerner; "Gaivota", de Gilberto Gil; "Usina de Prata", de Rosinha de Valença e "Mulheres de Atenas", de Chico Buarque em parceria com Augusto Boal. Contando com a produção musical da violonista Rosinha de Valença, com direção musical do empresário Guilherme Araújo. Nessa época, Ney escandalizava o Brasil. Bandido é considerado o espetáculo mais ousado da carreira do cantor e performático.
Na sequência veio Pecado (1977), que trouxe músicas do espetáculo calcado na divulgação do disco anterior que ainda não haviam sido registradas em disco. Este também foi o último trabalho feito para a gravadora Continental, em um repertório que misturou rock ("Metamorfose Ambulante", de Raul Seixas e "Com a Boca no Mundo", de Rita Lee em parceria com Luís Sérgio e Lee Marcucci), bossa nova ("Desafinado", de Tom Jobim e Newton Mendonça), tango ("Retrato marrom", de Fausto Nilo e Rodger Rogério), "San Vicente" de Milton Nascimento e Fernando Brant, e as regravações das músicas "Da Cor do Pecado", de Bororó com a participação especial do grupo Regional do Evandro; e "Sangue Latino", consagrada pelo grupo Secos & Molhados, e ainda originou um especial gravado para a Rede Bandeirantes.
O álbum Feitiço (1978) marcou a estreia na gravadora WEA e trouxe alguns sucessos, como "Bandoleiro", da dupla Luli e Lucina; "Mal Necessário", de Mauro Kwitko; a regravação de "O Tic-Tac do Meu Coração", de Alcyr Pires Vermelho e Valfrido Silva (sucesso de Carmen Miranda em 1935); "Dos Cruces", de Carmelo Larrea, e o frevo "Não Existe Pecado ao Sul do Equador", de Chico Buarque e Rui Guerra, cujo arranjo evoca a batida da disco music, que naquela época já era executada no Brasil inteiro. A regravação da canção, originalmente gravada pelo autor 5 anos antes no censurado álbum Calabar, impulsionou as vendas do álbum e foi utilizado como tema de abertura da novela global Pecado Rasgado, de Sílvio de Abreu.