O naufrágio do Capitão Ribeiro refere-se ao naufrágio da embarcação a motor "B/M Capitão Ribeiro", que fazia o transporte clandestino de passageiros entre Santarém e Vitória do Xingu. O acidente teve lugar na noite de 22 de agosto de 2017, no rio Xingu, no sudoeste do Pará, nas imediações da Vila do Maruá, causando a morte de pelo menos vinte e três pessoas. O naufrágio do Capitão Ribeiro foi uma das tragédias marcantes da história da navegação do Pará. Foi o pior acidente do gênero no Pará desde a década de 1980, e o sexto naufrágio ocorrido naquele estado em 2017.
O B/M Capitão Ribeiro, inicialmente designado na imprensa como Comandante Ribeiro, é um barco-motor construído em madeira, alto e estreito, com duas cobertas e porão, onde passageiros e carga viajavam lado a lado. A embarcação pertence à empresa Almeida e Ribeiro Navegação, Ltda. Segundo declarou o proprietário, a embarcação era capaz de suportar uma carga total de 56 toneladas. Em viagens com duração de mais de um dia, eram servidos jantares, e instaladas redes nos conveses, onde os passageiros dormiam.
Segundo o governo do Pará, a embarcação fazia o transporte clandestino de passageiros por via fluvial. O Capitão Ribeiro não se encontrava registrado na Agência Estadual de Regulação e Controle de Serviços Públicos (Arcon-PA) - autarquia do governo do Pará responsável por regular o transporte intermunicipal - não estando assim legalizada para fazer o transporte de passageiros. Das trinta mil embarcações que cruzam as águas do Pará com autorização da Marinha Brasileira, apenas 128 estão devidamente autorizadas pela Arcon-PA para o transporte de passageiros.
A 5 de junho de 2017, durante uma operação realizada pelos fiscais da Arcon-PA, o armador foi notificado pelos fiscais da autarquia para proceder à devida regularização, mas até ao momento do naufrágio da embarcação nenhum representante da empresa havia comparecido na agência para esse fim.
Familiares do piloto que comandava a embarcação no momento do desastre, Sebastião Soares Batista, afirmaram que a embarcação se encontrava regular, e registrada junto da Capitania dos Portos de Santarém, informação confirmada pela Marinha.
A embarcação estava devidamente autorizada pela Marinha a efetuar o trajeto entre Santarém e Prainha, por despacho válido até 20 de outubro de 2017. Não estava, no entanto, devidamente autorizada pela Arcon a transportar passageiros.
Em depoimento à Polícia Civil, o proprietário da embarcação, Alcimar Almeida da Silva, assumiu que esta não tinha autorização para transportar passageiros entre Santarém e Vitória do Xingu. Almeida declarou que obteve autorização da Capitania dos Portos para fazer o trajeto de 170 quilômetros entre Santarém e Prainha, segunda escala das cinco que o navio faz antes de chegar a Vitória do Xingu. Durante três anos, o Capitão Ribeiro viajou semanalmente entre Santarém e Vitória do Xingu, num trajeto de mais de 500 quilômetros, com essa autorização parcial. O proprietário confirmou ter sido procurado pela Arcon, mas declarou que se registrasse o destino como Vitória do Xingu, seria obrigado a colocar mais dois tripulantes a bordo, despesa que não podia assumir "em razão da crise e por estar em fase de 'experimentação'". Apesar da falta de autorização, o Capitão Ribeiro fazia semanalmente o trajeto até Vitória do Xingu, declarando estar viajando com destino a Prainha.
Segundo Pedro Lameira, diretor de Engenharia Naval da Universidade Federal do Pará, o transporte na Amazônia neste tipo de embarcações em madeira é problemático do ponto de vista da segurança, uma vez que este tipo de construção não permite a compartimentação do casco, tornando-as mais vulneráveis em situações de alagamento rápido, podendo ocorrer o afundamento em questão de minutos. Segundo Lameira, o Capitão Ribeiro é um caso de estudo para tudo o que não deve ser feito em matéria de segurança naval: Transporte clandestino de passageiros num navio frágil e propenso ao afundamento rápido, com os passageiros partilhando o espaço com a carga, muitas vezes acima da lotação máxima.
O Capitão Ribeiro partiu do porto fluvial improvisado da Praça Tiradentes, em Santarém, as 18h00 (UTC-3) do dia 21 de agosto. O proprietário da embarcação declarara à Capitania dos Portos daquela cidade que a bordo seguiam dois passageiros, com destino a Prainha, cerca de 170 quilômetros rio abaixo, pelo Amazonas. Na realidade, não havia controle no número de passageiros embarcados naquele porto, sendo esse número largamente superior ao declarado. Cerca de cinquenta passageiros teriam embarcado naquele porto. O destino real da embarcação também era outro: Vitória do Xingu, cerca de 380 quilômetros superior àquele para que a embarcação estava autorizada pela Marinha.
Ao comando da embarcação seguia Sebastião Soares Batista, natural de Santarém, piloto muito experiente, segundo seus familiares. Desceu o rio Amazonas, escalando os portos de Monte Alegre e Prainha, subindo depois o Xingu em direção à próxima escala, a cidade de Porto de Moz, trezentos e cinquenta quilômetros rio acima, onde chegou por volta de 19h00 horas (UTC-3) do dia 22 de agosto. Aqui embarcou cerca de vinte passageiros, seguindo viagem nesse mesmo dia em direção a Senador José Porfírio. A bordo seguia também um veículo Fiat Uno, colocado no convés inferior, junto com os passageiros, e duas motos. Segundo declarações do proprietário da embarcação, à saída de Porto de Moz a embarcação transportava sete toneladas de carga, numa capacidade total de 56.
Após a saída de Porto de Moz, uma tempestade se formou na região. No início da noite de 22 de Agosto, o Instituto Nacional de Meteorologia detectou um intenso deslocamento de cúmulo-nimbos, nuvens conhecidas por causar tempestades, saindo de Altamira e em direção a Porto de Moz. Entre 20h00 e 23h00, os instrumentos do Instituto registaram em Porto de Moz uma Precipitação de 14mm. De acordo com o Sistema de Proteção da Amazônia, os ventos da noite do acidente, se ocorressem em terra, seriam suficientes para destelhar casas. As imagens de satélite feitas por aquele órgão mostram muitas nuvens naquela noite na região da Ponta Grande do Xingu, onde ocorreu o acidente.
As 21h30 o navio tinha já percorrido quase cinquenta quilômetros rio acima, em direção a Senador José Porfírio, encontrando-se nas imediações da Vila do Maruá, numa região do rio conhecida como Ponta Grande do Xingu, de grande largura, com com mais de dez quilômetros entre margens, a quinhentos metros da margem mais próxima. 32 redes estavam instaladas nos conveses, sugerindo que boa parte dos passageiros estaria dormindo ou repousando. Nesse momento, terá sido surpreendido pela tormenta Segundo relatos de sobreviventes, o acidente ocorreu durante uma tempestade. Um vendaval muito forte terá atingido a popa, virando o barco. Segundo Hito Braga, doutor em Engenharia Naval, a grande largura daquela área do rio forma uma pista geradora de vento, com elevada possibilidade de tempestade e geração de ondas, fator que poderá ter feito a embarcação balançar sem ter condições de voltar à posição vertical.
Muitas pessoas terão ficado presas entre os destroços. A lona que fora estendida sobre o convés para proteger os passageiros da chuva da tempestade terá atrapalhado quem se tentava salvar, sendo relatada a falta de equipamento de segurança, em particular coletes salva-vidas. A correnteza e a falta de visibilidade também, terão contribuído para dificultar quem tentava fugir do navio.
De acordo com o delegado responsável pelas investigações, no momento do naufrágio seguiam na embarcação 48 passageiros, número calculado de acordo com os dados dos bilhetes de viagem emitidos, número de jantares servidos aos passageiros, redes de dormir instaladas, e informações prestadas pela tripulação. Segundo os bombeiros, o número de passageiros seria 49. A 24 de agosto surgiram quatro novos sobreviventes, que não estavam na lista provisória de passageiros. No dia 26, apareceu um outro sobrevivente que não estava contabilizado. O número de passageiros a bordo no momento do naufrágio foi assim atualizado para 53. Uma vez que o barco não possuía lista de passageiros, a Defesa Civil trabalhou com o nome dos reclamados, atualizando a lista à medida que novos nomes iam aparecendo.