Museologia (do grego μουσειόν = museión 'museu', lugar das musas, e λόγος = logos, razão) é a área do conhecimento que pesquisa a relação dos sujeitos humanos com os seus objetos/referências culturais socialmente relevantes, num dado contexto. Está situada entre as ciências humanas e sociais, com corpus teórico próprio e uma linguagem de especialidade em constante expansão e consolidação.
Compreende a reflexão e a prática sobre museus e instituições culturais em atividades como a gestão/administração, pesquisa, documentação, curadoria, preservação, exposição, educação e interpretação de coleções e referências culturais. Envolve também a teoria e a prática da preservação do patrimônio cultural e natural, principalmente a partir dos processos de patrimonialização e de musealização, estabelecendo frequentes diálogos interdisciplinares e de co-criação com diferentes comunidades.
Entre os museólogos distingue-se normalmente duas escolas: A Escola da Museologia, que defende esse campo como detentor de um estatuto científico próprio e, portanto, autônomo (Davis, Peter 2013), e a Escola dos Estudos de Museus (Museum Studies), que aborda os museus como uma técnica ou um conjunto de práticas, sem constituir uma ciência específica. As diferenças baseiam-se em abordagens conceituais, de objeto de estudo e de foco, assim como em distintas tradições museológicas desenvolvidas em contextos específicos, pautados na história do pensamento museológico delineado a partir de diferentes matrizes intelectuais, práticas e políticas.
Sucintamente, a tradição científica se desenvolveu bastante a partir dos anos 70, com os trabalhos de museólogos do Leste Europeu, como Zbyněk Zbyslav Stránský, Jan Jelínek, Anna Gregorová, Vinoš Sofka, dentre outros. Já na América, com o Canadá, México e Brasil foram desenvolvidas várias experiências marcantes de intervenção, que influenciaram os rumos da Museologia a nível global, com marcantes contribuições de pensadores como Fernanda de Camargo Almeida-Moro, Waldisa Rússio Camargo Guarnieri, Mário Vasquez Ruvalcaba, Felipe Lacouture Fornelli, Marta Arjona Pérez, Teresa Scheiner, dentre outros. O local de acolhimento de toda essa produção acadêmica, a nível internacional, se dá no Comitê Internacional de Museologia (ICOFOM) do Conselho Internacional de Museus (ICOM). Nesta tradição, distingue-se a abordagem museológica (Museologia) da prática e técnicas de museus (Museografia).
Na tradição dos Estudos de Museus, há também uma preocupação com a teoria social, embora sem assumir a autonomia de uma disciplina científica específica. Predominante em países anglo-americanos (como Reino Unido e Estados Unidos), o termo Museum Studies tende a ter uma conotação mais ampla e pragmática, em oposição à busca por um estatuto científico autônomo. O foco direciona-se ao estudo do museu como instituição a partir de suas atividades, práticas e funções (frequentemente denominadas de museum work). Predominam trabalhos sobre museus com bases em outras disciplinas acadêmicas: a sociologia, a antropologia, as ciências naturais, a arqueologia, a comunicação, semiótica e os estudos culturais.
Apesar da procura de um corpo teórico para a formação da teoria social museológica, o Museu - enquanto instituição - se dedica à gestão, pesquisa e comunicação (em suas diversas formas) dentro ou fora de um espaço institucionalizado, visando promover a cultura, a educação e as representações da sociedade. As diferentes compreensões sobre Museu implicam em diferentes perspectivas sobre como estudá-los e compreendê-los. Entretanto, ambas as tradições têm dado importantes contribuições para o fortalecimento da função social dos museus e do reconhecimento de seu papel junto a diferentes comunidades.
As palavras usadas para descrever o estudo dos museus variam de acordo com o idioma e o país. Algumas línguas europeias utilizam uma palavra latinizada. Esse é o caso do francês (muséologie), do espanhol (museología), do alemão (museologie), do italiano (museologia) e do português (museologia). Porém, os falantes do inglês usam com mais frequência o termo Museum Studies para se referir a esse campo de estudo. O mesmo ocorre na palavra usada para se referir às operações cotidianas dos museus. Línguas europeias geralmente usam derivados do latim “museographia”, tais como o francês (muséographie), espanhol (museografía), alemão (Museographie), italiano (museografia), português (museografia), enquanto os falantes do inglês normalmente preferem o termo "museum practice” ou “operational museology”.
Outros termos e conceitos fundamentais incluem derivados do arquiconceito museu, como museália, musealização, musealidade, museal, museólogo, museável, museológico, museográfico, dentre outros. Ainda são relevantes termos como preservação, conservação, pesquisa, curadoria, expografia, expologia, comunicação, educação, patrimônio, patrimonialização, acervo, coleção, dentre outros, utilizados com frequência nos textos especializados.
O desenvolvimento da museologia na Europa coincidiu com o surgimento dos primeiros colecionadores e gabinetes de curiosidade nos séculos XVI, XVII e XVIII. Em particular, durante o Iluminismo, antropólogos, naturalistas e colecionadores amadores encorajaram o crescimento de museus públicos na América do Norte e na Europa que faziam exposições de história natural, e de objetos etnográficos e artísticos. Nos séculos XVIII e XIX, a colonização de terras ultramarinas pelas potências europeias foi acompanhada pelo desenvolvimento das disciplinas de história natural e etnografia e pela construção de coleções privadas e institucionais. Em muitos casos, os museus receberam coleções adquiridas nas conquistas coloniais, o que os posicionou como instituições-chave nos projetos coloniais da Europa Ocidental.
A Museums Association, a primeira organização profissional de museólogos, foi fundada em Londres em 1889. Em 1901, a associação passou a publicar o Museums Journal, a primeira publicação inteiramente dedicada à teoria e prática dos museus. Com a criação do Conselho Internacional de Museus (ICOM) em 1946, o estudo dos museus ganhou cada vez mais impulso e exposição, embora na época a maior parte do foco acadêmico fosse na museologia operacional, ou prática museológica.
A partir da década de 1950, novas formas de museologia surgiram para revitalizar o papel educacional dos museus. Uma tentativa nesse sentido foi o conceito de Ecomuseus, proposto pela primeira vez publicamente na 9ª Conferência Internacional do ICOM na França, em 1971. Os ecomuseus proliferaram na Europa - e ainda existem em várias partes do mundo - desafiando os museus tradicionais e suas narrativas dominantes. Eles tinham como foco explícito a participação da comunidade e o desenvolvimento do patrimônio e da sustentabilidade. Em 1988, o livro de Robert Lumley, The Museum Time Machine, “expressou a crescente inquietação sobre as pressuposições e operações museológicas tradicionais”. No ano seguinte, Peter Vergo publicou The New Museology (1989/1997), uma coletânea aclamada pela crítica. Essa obra visava desafiar o campo tradicional ou “antigo” da museologia, e foi eleita uma das brochuras do ano pelo The Sunday Times na Grã-Bretanha. Na mesma época, Ivan Karp coorganizou duas conferências inovadoras no Smithsonian, Exhibiting Cultures (1988) e Museums and Communities (1990), que logo resultou em volumes altamente influentes com os mesmos pesquisadores que redefiniram os estudos sobre museus. Estudiosos engajados em várias “novas” práticas museológicas discordam sobre quando essa tendência começou “oficialmente”, o que exatamente ela abarcava e se era ou não um campo de estudo contínuo. No entanto, o traço comum da Nova Museologia é que sempre envolveu alguma forma de “reavaliação radical dos papéis dos museus na sociedade”.
Teóricos como Michel Foucault, Walter Benjamin e Benedict Anderson tiveram influência profunda na museologia no final do século XX e início do século XXI. À medida que várias disciplinas começaram a ser reavaliadas criticamente, muitas vezes adicionando o termo “crítica” a seus novos títulos, também emergiu a proposta de uma museologia crítica, intensificando-se por volta da virada do século XXI. Essa proposta surgiu de uma avaliação crítica semelhante ao da Nova Museologia e compartilha com ela muitas de suas características, o que faz com que muitos estudiosos discordem sobre as fronteiras entre elas. Em outras palavras, enquanto alguns pesquisadores dizem que a Nova Museologia foi um divisor de águas no final do século XX e a museologia crítica é um movimento relacionado, mas separado, no início do século XX, outros argumentam que a Nova Museologia é um campo de estudo contínuo que tem muitas manifestações e nomes, um dos quais é a museologia crítica.