Muricy Ramalho (São Paulo, 30 de novembro de 1955) é um ex-treinador, ex-futebolista brasileiro que atuava como meio-campista e ex-comentarista esportivo. Foi coordenador de futebol do São Paulo por 5 anos sendo um dos maiores ídolos da história do clube.
Como técnico, Muricy foi tricampeão do Campeonato Brasileiro de forma consecutiva (2006, 2007 e 2008), igualando-se a Rubens Minelli. Já em 2010, levou o Fluminense ao título nacional, e no ano seguinte, foi campeão da Copa Libertadores da América com o Santos.
Muricy defendeu na década de 1970 as cores do São Paulo, onde atuou em 177 partidas e marcou 26 gols. Meio-campista, jogava ao lado de Pedro Rocha e Chicão. Com longos cabelos e futebol refinado, foi saudado pela imprensa paulista como mais um dos "sucessores de Pelé". Nesta passagem, foi treinado por nomes como José Poy e Rubens Minelli.
Palmeirense quando criança, em 1965 foi levado por Valdemar Carabina, amigo do pai de Muricy, para o São Paulo. Era tão elogiado quando estava no Infantil que, em 1969, só a sua presença no time do São Paulo que decidiria o campeonato dos dentes-de-leite fez 20 mil pessoas lotar o Estádio Nicolau Alayon, campo do Nacional. Em 1971, com o São Paulo sob o comando de Osvaldo Brandão, treinou pela primeira vez entre os profissionais, mas só fez sua estreia dois anos depois, em 22 de agosto de 1973, em um amistoso contra o União Bandeirante (vitória por 1 a 0), logo após voltar, a pedido da diretoria, de alguns meses emprestado ao Pontagrossense. Segundo o Jornal da Tarde, ele "deveria ser lançado aos poucos, pois, como os outros juvenis que Poy (então técnico do time) está promovendo, não parece ter a estrutura necessária para entrar no time numa fase instável e acertar". Tanto é que sua partida seguinte foi também sua primeira partida oficial, em 10 de novembro, no empate por 2 a 2 contra o Coritiba, pelo Campeonato Brasileiro de 1973.
No ano seguinte, não teve muitas chances na equipe, o que o levou a tomar uma "resolução de ano novo". "Agora você vão ver o que vai acontecer", avisava. "Vem aí o Muricy 75." De fato, em 1975 Muricy estourou. Ganhou peso, passando de 64 para 68 quilos, e foi um dos principais jogadores da conquista do Campeonato Paulista de 1975, sendo considerado a maior revelação do torneio, apesar de ter marcado apenas quatro gols, menos até que o volante Chicão. Ao longo de todo o campeonato, ficou fora de três jogos por contusão e de um porque o técnico Poy decidira poupar os titulares. Entretanto, na decisão contra a Portuguesa, Muricy foi expulso ainda no primeiro tempo, justamente quando era o melhor jogador em campo, por uma entrada dura em Dicá logo depois do gol da Portuguesa que eventualmente levaria o jogo para a prorrogação.
"É verdade que Muricy não atingiu Dicá", disse o árbitro Dulcídio Wanderley Boschilia depois do jogo. "Mas a violência do lance exigiu o cartão vermelho." Muricy foi ao vestiário adversário pedir desculpas a Dicá e lá descobriu que não tinha machucado o adversário. "Eu estava pensando que minha falta tinha sido mais dura", admitiu o jogador. "O Dicá fez mais encenação, a dor foi mesmo muito pequena. Como o juiz estava longe, acabou me expulsando." De qualquer maneira, não conseguiu assistir ao resto da partida e chorou muito no vestiário até o fim do jogo, quando foi procurado por seus colegas de time para comemorar. Perdoado também pela torcida, foi carregado e teve seu nome cantado nas comemorações.
Nessa época, o cabelo comprido de Muricy chamava a atenção não só por destoar dos demais como também por ser criticado pelo técnico José Poy. O jogador chegou a se afastar dos treinos por dez dias depois de brigar para não cortar o cabelo. Na volta, como marcou gols, resolveu "não cortar nunca mais". "Eu era cabeludo, não rebelde", lembraria Muricy em 2008. "Nunca fui rebelde. Sempre obedeci os técnicos."
Ainda naquele ano, Valdemar Carabina profetizava que Muricy seria o titular da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1978. O problema é que 1976 foi um mau ano tanto para o meia como para o São Paulo. E 1977 foi pior ainda. Na final do primeiro turno do Campeonato Paulista, em 18 de maio, Muricy torceu o joelho direito em uma de suas primeiras jogadas depois de substituir Pedro Rocha no segundo tempo. Ele sentiu uma dor enorme que já indicava o prognóstico pessimista feito pelo médico do clube logo em seguida. No dia seguinte, falava-se em três meses sem treinar, mas a volta de Muricy aos gramados só se daria mais de um ano depois, em 4 de junho de 1978.
Por causa dessa contusão, o jogador ficou de fora de toda a campanha do título do Campeonato Brasileiro de 1977, embora tenha ajudado como lhe era possível. Serginho, artilheiro do time, tinha sido suspenso às vésperas da final contra o Atlético Mineiro e por isso não viajou com a delegação para Belo Horizonte. Mas no dia da partida o presidente do São Paulo, Henri Aidar, ligou para Muricy e pediu que ele fosse à casa de Serginho buscá-lo e levasse-o ao aeroporto, onde pegaria um voo fretado para a capital mineira, a fim de fazer pressão psicológica sobre os atleticanos, que tentavam escalar o também suspenso Reinaldo. A chegada de Serginho inquietou os adversários, que se decidiram por não escalar seu atacante e entraram nervosos em campo.
Nessa época, muitos já o consideravam acabado para o futebol, mas ele seguia indo ao clube para assistir a treinos e jogos, algo incomum para um jogador contundido. Quando voltou a jogar, ainda tinha medo das jogadas mais duras, e entrou em poucas partidas, nenhuma delas como titular. "Sabe o que é?", perguntou, retoricamente, o técnico são-paulino Rubens Minelli. "Fiquei sabendo que o Muricy vem entrando nas partidas para ir se ambientando com os demais companheiros, mas ainda se mostra receoso de que volte a sentir as dores que o obrigaram a ser operado." O treinador cogitava usar Muricy no segundo tempo da estreia na terceira fase do Campeonato Brasileiro, mas não como titular: "Posso colocar o Muricy durante a partida, mas isto se tivermos a felicidade de estar à frente do placar. Seria uma temeridade colocá-lo com o placar igual ou se o São Paulo estiver inferiorizado no marcador."
Não chegou sequer a ser cogitado para a Copa do Mundo prevista por Valdemar. "Essa é a minha maior frustração", confessaria, em 2007, à revista Veja São Paulo. "Era a minha oportunidade", diria, em 2010, ao jornal O Globo. "Faltava um ano, e, com certeza, eu iria. Não iria ser titular, porque o titular era o meu ídolo Zico. Eu iria ser reserva dele. Já estava bom." O primeiro jogo que começou foi só em 10 de dezembro, contra o Corinthians, e só na partida seguinte, contra a Ferroviária, é que atuou durante todos os noventa minutos. Sem conseguir se firmar novamente no time titular, chegou a ser cobiçado pelo Santos, mas o São Paulo pediu alto e não liberou seu passe. "Eles quase não usam o garoto", reclamou um dirigente santista à revista Placar. "Mas na hora de lhe dar uma chance pedem esse dinheirão."
Seu último jogo pelo São Paulo foi em 25 de julho de 1979, pelo Campeonato Paulista, uma derrota por 2 a 0 para o Guarani, no Estádio do Pacaembu, em que entrou no segundo tempo. Cinco dias depois foi anunciado que o São Paulo vendera seu passe por cem mil dólares para o Puebla, do México.
O início não foi fácil, e Muricy demorou um pouco para ajustar seu futebol de toques rápidos à forte marcação mexicana, que ele também era obrigado a exercer. Já adaptado e com um dos maiores salários do clube, ajudou-o a conquistar o Campeonato Mexicano na temporada 1982–83. Após a conquista, ele planejava jogar mais três anos no México e depois voltar ao Brasil.
Na temporada 1983–84, Muricy foi o terceiro artilheiro do Campeonato Mexicano, com 21 gols, sete atrás de Norberto Outes, do Necaxa. "Do ponto de vista técnico, realmente perdi prestígio e fiquei em segundo plano, pois estava começando a carreira quando fui negociado pelo São Paulo", admitiu, nessa época. "Mas, pelo lado financeiro, foi excelente, porque, ainda jovem, fiz um bom patrimônio. Por isso, não tenho do que reclamar. Ainda jogarei novamente no futebol brasileiro e vou mostrar que sei jogar futebol."