Muammar Muhammad Abu Minyar al-Gaddafi (Abu Hadi, c. 1942 – Sirte, 20 de outubro de 2011), vulgarmente conhecido como Coronel Gaddafi, foi um revolucionário líbio, político e teórico político. Governou a Líbia como Presidente Revolucionário da República Árabe Líbia de 1969 a 1977 e depois como "Líder Fraternal" da Grande Jamahiriya Árabe Popular Socialista da Líbia de 1977 a 2011. Inicialmente estava ideologicamente empenhado no nacionalismo árabe e no socialismo árabe, mas mais tarde governou conforme a sua própria Terceira Teoria Internacional.
Nascido perto de Sirte, Líbia Italiana, numa família beduína pobre, Gaddafi tornou-se um nacionalista árabe enquanto frequentava a escola em Sabha, matriculando-se mais tarde na Academia Militar Real, Benghazi. No seio das forças armadas, fundou um grupo revolucionário que depôs a monarquia Senussi, apoiada pelo Ocidente, de Idris I, num golpe de Estado em 1969. Tendo tomado o poder, Gaddafi converteu a Líbia numa república governada pelo Conselho do Comando Revolucionário. Governando por decreto, deportou a população italiana da Líbia e expulsou as bases militares ocidentais. Reforçando os laços com os governos nacionalistas árabes — especialmente o Egipto de Gamal Abdel Nasser — ele defendeu sem sucesso a união política pan-árabe. Um modernista islâmico, introduziu a xaria como base do sistema legal e promoveu o "socialismo islâmico". Nacionalizou a indústria petrolífera e utilizou as crescentes receitas estatais para reforçar os militares, financiar revolucionários estrangeiros, bem como implementar programas sociais com ênfase na construção de casas, cuidados de saúde e projetos educacionais. Em 1973, iniciou uma "Revolução Cultural" com a formação de Congressos Populares de Base, apresentados como um sistema de democracia direta, mas mantendo o controlo pessoal sobre as principais decisões. Descreveu a sua Terceira Teoria Internacional nesse ano no Livro Verde.
Gaddafi transformou a Líbia num novo estado socialista chamado Jamahiriya ("estado das massas") em 1977. Adotou oficialmente um papel simbólico na governação, mas permaneceu chefe dos comités militares e revolucionários responsáveis pelo policiamento e repressão da dissidência. Durante as décadas de 1970 e 1980, os conflitos fronteiriços mal sucedidos da Líbia com o Egipto e o Chade, o apoio aos militantes estrangeiros, e a alegada responsabilidade pelo atentado de Lockerbie na Escócia deixaram-no cada vez mais isolado na cena mundial. Uma relação particularmente hostil desenvolveu-se com os Estados Unidos, Reino Unido e Israel, resultando no bombardeamento da Líbia pelos Estados Unidos em 1986 e sanções económicas impostas pelas Nações Unidas. A partir de 1999, Gaddafi evitou o pan-arabismo e encorajou a aproximação com as nações ocidentais e o pan-africanismo; foi presidente da União Africana de 2009 a 2010. No meio da Primavera Árabe de 2011, protestos contra a corrupção e o desemprego generalizados eclodiram na Líbia Oriental. A situação levou a uma guerra civil, na qual a NATO interveio militarmente do lado do antiGaddafista Conselho Nacional de Transição (NTC). O governo foi derrubado e Gaddafi retirou-se para Sirte, sendo capturado e morto pelos militantes do NTC.
Uma figura altamente polarizante, Gaddafi dominou a política da Líbia durante quatro décadas e foi objeto de um culto de personalidade generalizado. Foi condecorado com vários prémios e elogiado pela sua postura anti-imperialista, apoio à unidade árabe e depois africana, bem como por melhorias significativas que o seu governo trouxe à qualidade de vida do povo líbio. Pelo contrário, muitos líbios opuseram-se fortemente às suas reformas sociais e económicas; e foi acusado postumamente de abuso sexual. Também foi condenado pelos opositores como um ditador cuja administração autoritária violava sistematicamente os direitos humanos e financiava o terrorismo global.
O nome do líder líbio pode ser escrito de várias maneiras diferentes devido a dificuldades da transliteração da língua árabe e também da pronúncia regional da Líbia. As muitas grafias possíveis no alfabeto latino são, para o primeiro nome, Muamar, Muammar, Mu'ammar e Moammar e, para o sobrenome, Kadafi, Gadhafi, al-Khaddafi, al-Qadhafi e al-Khadafi. O próprio comandante líbio parecia preferir Moammar El-Gadhafi, Muammar Gadafi ou al-Gathafi.
Gaddafi nasceu numa família de berberes beduínos, adepta do islamismo sunita, filho de Abu Meniar Gaddafi e Aisha Gaddafi em uma tenda no deserto líbio, próximo à cidade líbia de Surt ou Sirte (norte). Teve contato com beduínos comerciantes que viajavam pela região de Surt, com quem adquiriu e formou suas precoces posições políticas. De acordo com várias biografias, sua família pertence a uma pequena tribo de árabes, os Qadhadhfa.
A data de nascimento de Gaddafi não é certa, com várias fontes dando datas divergentes. Algumas fontes colocam sua data de nascimento como sendo em 1942 ou na primavera de 1943, embora os biógrafos David Blundy e Andrew Lycett afirmam que ele pode ter nascido antes de 1940.
Muitos familiares de Gaddafi haviam lutado contra os colonizadores italianos no movimento liderado por Omar al-Mokhtar, sendo relatado que seu avô foi morto em combate e que seu pai e seu tio passaram um período de suas vidas como prisioneiros dos italianos.
Quando tinha 10 anos, seu pai, um pastor de camelos, que avaliava que o filho tinha uma inteligência incomum, investiu suas magras economias para internar o filho em uma escola primária em Sirte.
Quando tinha entre 12 e 13 ouvia pelo rádio os discursos do líder egípcio Gamal Abdel Nasser, que chamava os povos árabes à unidade política (pan-arabismo) e defendia a causa palestina, o que o ajudou a adquirir uma precoce consciência política.
Gadafi foi enviado para fazer os estudos secundários na cidade de Saba, onde, em 1956, formou, junto com três colegas, a primeira célula de seu futuro movimento revolucionário, que tinha como objetivos apoiar o programa pan-árabe de Nasser e, a longo prazo, derrubar o rei Idris I. Naquele mesmo ano participou de protestos anti-israelenses durante a Crise de Suez.
Os integrantes daquela primeira célula decidiram seguir carreira militar para futuramente articular um golpe militar, além disso cada um deles iria formar uma segunda célula com mais três integrantes, que, por sua sua vez, também formariam novas células, e assim progressivamente. Além disso, para garantir a segurança do movimento, cada conspirador somente conhecia os integrantes e as atividades das duas células das quais participava. No início de outubro de 1961 organizou uma manifestação de jovens em apoio à Guerra de Independência Argelina, que teve também conteúdo antimonarquista, isso resultou em sua prisão e expulsão da cidade.
O jovem líder concluiu o ensino secundário em uma escola de Misurata, onde criou uma nova rede de células revolucionárias, naquela cidade também foi elaborado um código secreto para proteger a comunicação entre os líderes das diferentes células da repressão policial. Para evitar a repressão, a organização se apresentava como um grupo de debates sobre Nasser e de atividades antisionistas, ocultando o objetivo de derrubada da monarquia.
Após o término de seus estudos secundários, Gaddafi iniciou a carreira militar. Integrou a Academia Militar de Bengazi, segunda principal cidade do país, e também integrou a Real Academia Militar de Sandhurst, na Inglaterra.
No ano de 1969 o governo de Idris I passava por uma crise de impopularidade, pois grandes quantidades de petróleo líbio estavam sendo compradas pelos Estados Unidos e Europa, sem trazer grandes melhorias ao povo Líbio. Admirador do líder egípcio e nacionalista árabe Gamal Abdel Nasser, Muammar al-Gaddafi, aos 27 anos de idade, foi naquele membro das tropas revolucionárias que tomaram o governo do país, no dia 1º de setembro de 1969, tendo como líder Mahmud Sulayman al-Maghribi. Coronéis do exército líbio invadiram Trípoli e obrigaram Idris a renunciar
Logo após o golpe de estado, Al Magrabbi sai de cena e Gaddafi, como líder da revolução líbia, com a patente de coronel, toma o poder, substituindo o príncipe regente Hasan as-Senussi e o rei ausente (licenciado para fins médicos na Grécia e no Egito), Ídris I, tio de Hasan as-Senussi.