Moisés Mendelssohn (em alemão: Moses Mendelssohn; Dessau, 6 de setembro de 1729 — Berlim, 4 de janeiro de 1786) foi um filósofo iluminista judeu alemão, considerado o precursor da Haskalá, ou seja, "a renascença" e "iluminismo judaico" na Europa.
Moses Mendelssohn nasceu em Dessau filho de Mendel Heymann [de] e Bela Rachel Wahl [de]. O nome de seu pai era Mendel, mas Moses e seu irmão Saul foram os primeiros a adotar o sobrenome Mendelssohn ("filho de Mendel"). O filho de Moses, Abraham Mendelssohn, escreveu em 1829 (para Felix): "Meu pai sentia que o nome Moses Ben Mendel Dessau o prejudicaria ao tentar obter o acesso necessário àqueles que dispunham de melhor educação. Sem qualquer receio de que seu próprio pai se ofendesse, meu pai assumiu o nome Mendelssohn. A mudança, embora pequena, foi decisiva".
Mendel era um escriba empobrecido—um escritor de pergaminhos da Torá—e seu filho Moses desenvolveu na infância uma curvatura da coluna vertebral. A educação inicial de Moses foi fornecida por seu pai e pelo rabino local, David Fränkel, que, além de ensinar-lhe a Bíblia e o Talmud, introduziu-o à filosofia de Maimônides. Em 1743, Fränkel recebeu uma convocação para Berlim, e alguns meses depois Moses o seguiu. Moses, com 14 anos, "entrou em Berlim pelo Rosenthaler Tor, o único portão na muralha da cidade por onde judeus (e gado) podiam passar". "Mendelssohn matriculou-se no rigoroso seminário de Frankel, onde o programa consistia em intermináveis repetições mecânicas de textos medievais antigos, interpretações dos mesmos, elaborações da lei talmúdica e copiosos comentários acumulados ao longo dos séculos".
Um judeu polonês refugiado, Israel Zamosz, ensinou-lhe matemática, e um jovem médico judeu ensinou-lhe latim. Ele foi, no entanto, principalmente autodidata. Aprendeu a soletrar e a filosofar ao mesmo tempo (segundo o historiador Graetz). Com seus parcos ganhos, comprou uma cópia em latim de Ensaio sobre o Entendimento Humano de John Locke, e a dominou com a ajuda de um dicionário latino. Fez então conhecimento com Aaron Solomon Gumperz, que lhe ensinou francês e inglês básicos. Em 1750, um rico comerciante judeu de seda, Isaac Bernhard, nomeou-o para ensinar seus filhos. Mendelssohn logo conquistou a confiança de Bernhard, que fez do jovem estudante sucessivamente seu contador e seu sócio.
Foi possivelmente Gumperz quem apresentou Mendelssohn a Gotthold Ephraim Lessing em 1754, que se tornou um de seus maiores amigos. Diz-se que a primeira vez que Mendelssohn conheceu Lessing, eles jogaram xadrez. Na peça de Lessing Natã, o Sábio, Natã e o personagem Saladino se encontram pela primeira vez durante um jogo de xadrez. Lessing havia recentemente produzido o drama Die Juden, cuja moral era que um judeu pode possuir nobreza de caráter. Esta noção era, na Berlim contemporânea de Frederico, o Grande, geralmente ridicularizada como falsa. Lessing encontrou em Mendelssohn a realização de seu sonho. Em poucos meses, os dois se tornaram estreitamente aliados intelectualmente. Lessing também trouxe Mendelssohn à atenção pública pela primeira vez: Mendelssohn havia escrito um ensaio atacando a negligência dos alemães para com seus filósofos nativos (principalmente Gottfried Leibniz), e emprestou o manuscrito a Lessing. Sem consultar o autor, Lessing publicou as Conversações Filosóficas (Philosophische Gespräche) de Mendelssohn anonimamente em 1755. No mesmo ano apareceu em Danzig (hoje Gdańsk, Polônia) uma sátira anônima, Papa um Metafísico (Pope ein Metaphysiker), que se revelou ser obra conjunta de Lessing e Mendelssohn.
Destaque inicial como filósofo e crítico
Mendelssohn tornou-se o espírito dirigente dos importantes empreendimentos literários de Friedrich Nicolai, a Bibliothek e as Literaturbriefe, e correu algum risco ao criticar os poemas de Frederico II, Rei da Prússia; a boa natureza de Frederico o manteve fora de problemas. Em 1762 casou-se com Fromet Guggenheim, que lhe sobreviveu por vinte e seis anos. No ano seguinte ao seu casamento, Mendelssohn ganhou o prêmio oferecido pela Academia de Berlim por um ensaio sobre a aplicação de provas matemáticas à metafísica, Sobre a Evidência nas Ciências Metafísicas; entre os competidores estavam Thomas Abbt e Immanuel Kant, que ficou em segundo lugar. Em outubro de 1763, o rei concedeu a Mendelssohn, mas não à sua esposa ou filhos, o privilégio de Judeu Protegido (Schutzjude), que assegurava seu direito à residência tranquila em Berlim.
Como resultado de sua correspondência com Abbt, Mendelssohn resolveu escrever sobre a imortalidade da alma. Visões materialistas estavam na época desenfreadas e na moda, e a fé na imortalidade estava em baixa. Nesta conjuntura favorável apareceu Phädon oder über die Unsterblichkeit der Seele (Fédon ou Sobre a Imortalidade das Almas; 1767). Modelado no diálogo de Platão de mesmo nome, a obra de Mendelssohn possuía algum do encanto de seu exemplar grego e impressionou o mundo alemão com sua beleza e lucidez de estilo. O Fédon foi um sucesso imediato, e além de ser um dos livros mais amplamente lidos de seu tempo em alemão, foi rapidamente traduzido para várias línguas europeias, incluindo o inglês. O autor foi saudado como o "Platão alemão" ou o "Sócrates alemão"; amigos reais e outros aristocráticos despejaram atenções sobre ele, e dizia-se que "nenhum estrangeiro que viesse a Berlim deixava de prestar suas homenagens pessoais ao Sócrates alemão".
Até então, Mendelssohn havia dedicado seus talentos à filosofia e à crítica; agora, porém, um incidente direcionou o curso de sua vida para a causa do Judaísmo. Em abril de 1763, Johann Kaspar Lavater, então um jovem estudante de teologia de Zurique, fez uma viagem a Berlim, onde visitou o já famoso filósofo judeu com alguns companheiros. Eles insistiram que Mendelssohn lhes dissesse suas opiniões sobre Jesus e conseguiram obter dele a declaração de que, desde que o Jesus histórico tivesse mantido a si mesmo e sua teologia estritamente dentro dos limites do judaísmo ortodoxo, Mendelssohn "respeitava a moralidade do caráter de Jesus". Seis anos depois, em outubro de 1769, Lavater enviou a Mendelssohn sua tradução alemã do ensaio de Charles Bonnet sobre Evidências Cristãs, com um prefácio onde desafiou publicamente Mendelssohn a refutar Bonnet ou, se não pudesse, então "fazer o que a sabedoria, o amor à verdade e a honestidade devem ordenar-lhe, o que um Sócrates teria feito se tivesse lido o livro e o achado irrefutável". Mendelssohn respondeu em carta aberta em dezembro de 1769: "Suponha que estivessem vivendo entre meus contemporâneos um Confúcio ou um Sólon, eu poderia, de acordo com os princípios de minha fé, amar e admirar o grande homem sem cair na ideia ridícula de que devo converter um Sólon ou um Confúcio". A controvérsia pública contínua custou a Mendelssohn muito tempo, energia e força.
Lavater posteriormente descreveu Mendelssohn em seu livro sobre fisiognomonia, Physiognomische Fragmente zur Beförderung der Menschenkenntnis und Menschenliebe (1775–1778), como "uma alma sociável e brilhante, com olhos penetrantes, o corpo de um Esopo [que era tradicionalmente considerado feio]—um homem de percepção aguçada, gosto refinado e ampla erudição [...] franco e de coração aberto"—terminando seu elogio público com o desejo de Mendelssohn reconhecer, "junto com Platão e Moisés... a glória crucificada de Cristo." Quando, em 1775, os judeus suíço-alemães, diante da ameaça de expulsão, se dirigiram a Mendelssohn e pediram-lhe para intervir em seu favor junto a "seu amigo" Lavater, Lavater, após receber a carta de Mendelssohn, prontamente e efetivamente assegurou sua permanência.
Em março de 1771, a saúde de Mendelssohn deteriorou-se tanto que Marcus Elieser Bloch, seu médico, decidiu que seu paciente tinha que abandonar a filosofia, pelo menos temporariamente. Após um sono breve e agitado certa noite, Mendelssohn se viu incapaz de se mover e teve a sensação de algo chicoteando seu pescoço com varas em chamas, seu coração estava palpitando e ele estava em extrema ansiedade, porém totalmente consciente. Este episódio foi então interrompido subitamente por alguma estimulação externa. Ataques deste tipo se repetiram. A causa de sua doença foi atribuída ao estresse mental devido à sua controvérsia teológica com Lavater. No entanto, este tipo de ataque, em forma mais branda, havia presumivelmente ocorrido muitos anos antes. Bloch diagnosticou a doença como devido a 'congestão de sangue no cérebro' (um diagnóstico sem sentido na prática médica moderna, pois tal congestão é anatomicamente impossível), e após alguma controvérsia este diagnóstico também foi aceito pelo famoso médico da corte de Hanover, Johann Georg Ritter von Zimmermann, um admirador de Mendelssohn. Em retrospectiva, sua doença poderia ser diagnosticada como um problema de ritmo cardíaco (como fibrilação atrial) e/ou uma forma branda de disautonomia familiar, uma doença hereditária dos judeus asquenazes, que frequentemente traz consigo uma curvatura da coluna vertebral e sintomas semelhantes à epilepsia em tempos de estresse.