Milton Almeida dos Santos ComMC (Brotas de Macaúbas, 3 de maio de 1926 – São Paulo, 24 de junho de 2001) foi um geógrafo, escritor, cientista, jornalista, advogado e professor universitário brasileiro.
Considerado um dos mais renomados intelectuais do Brasil no século XX, foi um dos grandes nomes da renovação da geografia no Brasil ocorrida na década de 1970. Embora graduado em Direito, destacou-se por seus trabalhos em diversas áreas da geografia, em especial nos estudos de urbanização do Terceiro Mundo e por seus trabalhos sobre a globalização nos anos 1990. Sua obra caracterizou-se por apresentar um posicionamento crítico ao sistema capitalista e seus pressupostos teóricos dominantes na geografia de seu tempo.
Foi professor da Universidade Federal da Bahia, da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, da Universidade Columbia, Universidade de Toronto, da Universidade de Dar es Salaam e da Faculdade de Filosofia, Ciências Humanas e Letras da USP, onde se tornou professor emérito. Em alguns anos da sua trajetória profissional, conciliou suas atividades acadêmicas com consultorias à Organização Internacional do Trabalho, à Organização dos Estados Americanos e à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, além de ter participado da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo. Ele também escreveu mais de 40 livros, publicados não apenas no Brasil, como também em países como França, Reino Unido, Portugal, Japão e Espanha.
Recebeu diversos títulos acadêmicos e honrarias, dentre eles, o Prêmio Vautrin Lud, o de maior prestígio e uma espécie de Nobel na área da geografia. Também foi agraciado postumamente com o Prêmio Anísio Teixeira em 2006.
Milton Santos nasceu no município baiano de Brotas de Macaúbas, na região da Chapada Diamantina, em 3 de maio de 1926. Ainda criança, migrou com sua família para outras cidades do estado, como Ubaitaba, Alcobaça e, posteriormente, Salvador. Em Alcobaça, com os pais e os avós maternos (todos professores primários), foi alfabetizado e aprendeu álgebra e a falar francês. Seus pais eram Adalgisa Umbelina de Almeida Santos e Francisco Irineu dos Santos, casados desde 1924. Seu avô paterno, que era negro, havia sido escravizado anteriormente.
Aos 10 anos, ingressou no internato do Instituto Baiano de Ensino, onde morou por dez anos. Foi no instituto que seu interesse por geografia começou, especialmente pelas aulas do professor Oswaldo Imbassay. Com apenas 13 anos, já lecionava matemática no instituto, e aos 15, começou a lecionar geografia. Ao terminar os estudos ginasiais, Milton fez o curso pré-jurídico entre 1942 e 1943, e com 18 anos, prestou o vestibular para Direito na Universidade Federal da Bahia, em Salvador, formando-se em 1948. Apesar disso, não deixou o interesse pela geografia de lado, prestando concurso para professor catedrático no Colégio Municipal de Ilhéus. Enquanto ainda era estudante, tanto no instituto quanto na universidade, foi ativo no movimento estudantil, na militância de esquerda.
Além do magistério, Milton também foi jornalista em Ilhéus, onde conheceu sua futura esposa, Jandira Rocha, com quem teve um filho, Milton Filho. Ele trabalhou no jornal "A Tarde", primeiro como correspondente, depois como editor. Nessa época fez amizade com vários políticos de esquerda. Nesta época, escreveu o livro Zona do Cacau, incluído posteriormente na Coleção Brasiliana, já com influência da escola francesa do pós-guerra, a qual, inicialmente, era voltada para a geomorfologia e os aspectos climáticos, com influência de pensadores como Pierre Birot, Jean Dresch e Jean Tricart. Gradualmente, passou a se interessar por uma apreensão global do meio físico-natural, incorporando também aspectos demográficos e a dimensão econômica nas relações cidade campo, a partir de Pierre George.
Depois de seu casamento com Jandira, a família se mudou de Ilhéus para Salvador, onde Milton ingressou no serviço público e na carreira acadêmica, tornando-se professor da Universidade Católica do Salvador, em 1956. No Congresso Internacional de Geografia, sediado no Rio de Janeiro, Milton foi convidado para fazer doutorado na França. Entre 1956 e 1958, Milton concluiu seu doutorado na Universidade de Estrasburgo, com a tese "O Centro da Cidade de Salvador", sob orientação do professor Jean Tricart.
Ao regressar ao Brasil, criou o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais, mantendo intercâmbio com os mestres franceses. Em 1960, tornou-se Livre Docente em Geografia Humana pela Universidade Federal da Bahia. Nessa época, teve presença marcante na vida acadêmica, em atividades jornalísticas e políticas de Salvador. Em 1961, viajou a Cuba como editor do jornal A Tarde, com a comitiva de Jânio Quadros, então eleito Presidente da República. Logo após ser empossado, Jânio o convidou para ser subchefe da casa civil na Bahia, cargo que exerceu durante o curto mandato do presidente.
Em 1963, o então governador da Bahia, Lomanto Júnior, nomeou-o presidente da Comissão de Planejamento Econômico (CPE), cargo que ele deixou em 1964. Enquanto exercia esse cargo, Milton Santos tratou de temas de política econômica e planejamento regional a partir de uma perspectiva científica, sem, no entanto, negligenciar seu trabalho no Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais. Chegou a prestar concurso para lecionar na Universidade Federal da Bahia, mas o golpe militar de 1964 acabou interrompendo seus planos.
Em 1964, logo após o golpe militar que instituiu a ditadura no Brasil, Milton foi preso e enviado para o 19º BC, no Cabula, onde parte de sua equipe do laboratório e seus amigos iam visitá-lo diariamente. Em junho, na véspera do dia de São João, devido a um início de AVC, Milton foi levado ao hospital e depois foi solto. Nessa época, já tinha recebido vários convites para trabalhar em universidades francesas, mas estava impedido de deixar o país. Importantes personalidades locais, sobretudo o cônsul da França na Bahia, Raymond Van der Haegen, interviram junto às autoridades militares locais para negociar sua saída do país, após ter cumprido meio ano de prisão domiciliar. Assim, em dezembro, Milton deixou o Brasil já separado da sua primeira esposa, partindo para a França à convite da Universidade de Toulouse-Le Mirail (atual Universidade Toulouse — Jean Jaurès). Mais tarde, pela mesma universidade, receberia o título de Doutor Honoris Causa, o primeiro dos 20 que recebeu ao longo de sua vida. Inicialmente, Milton achou que ficaria fora do país por seis meses, mas acabou ficando 13 anos.
De Toulouse, onde morou por três anos, Milton se mudou para Bordeaux. Dentre seus alunos, encontra Marie Hélène Tiercelin, também geógrafa, que mais tarde viria a ser sua mulher durante os últimos quase 30 anos de sua vida e mãe de seu segundo filho, Rafael, nascido em 1977. De Bordeaux, onde ficou durante um ano, foi para Paris, em 1968, onde lecionou na Sorbonne e trabalhou como diretor de pesquisas em planejamento urbano no Institut d'Étude du Développement Économique et Social (IEDES).
Milton permaneceu em Paris até 1971, quando se mudou para o Canadá para lecionar na Universidade de Toronto. Foi pesquisador convidado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, onde trabalhou com Noam Chomsky. É no MIT que Milton prepara sua grande obra, O Espaço Dividido (1979). Dos Estados Unidos viajou para a Venezuela, onde atuou como diretor de pesquisa sobre planejamento da urbanização do país para um programa da ONU, onde manteve contato com técnicos da Organização dos Estados Americanos, o que facilitou sua contratação pela Faculdade de Engenharia de Lima, onde foi contratado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) para elaborar um trabalho sobre pobreza urbana na América Latina.
É nesta época que Milton começa suas pesquisas sobre os processos de urbanização das cidades do então chamado “terceiro mundo”. Foi convidado para lecionar no University College London, mas não deu certo. De volta a Paris, foi chamado de volta à Venezuela, onde lecionou na Faculdade de Economia da Universidade Central. Esteve em seguida na Tanzânia, onde organizou o curso de pós-graduação em Geografia da Universidade de Dar es Salaam, e lá morou por dois anos. Antes de seu retorno da Tanzânia, recebeu o primeiro convite para voltar a lecionar no Brasil, da Universidade de Campinas. Antes, voltou à Venezuela e partiu para a Universidade Columbia, em Nova Iorque.