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Migrações dos povos bárbaros

Período que vai do quarto ao nono século

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Na História da Europa, dá-se o nome de migrações bárbaras, invasões bárbaras ou período das migrações, ou a expressão alemã Völkerwanderung (AFI: [fœlkervandəruŋ]; em alemão: Völkerwanderung; lit. "migração de povos"), à série de migrações de vários povos que ocorreu entre os anos 300 e 800 a partir da Europa Central e que se estenderia a todo o continente. A referência aos bárbaros, nome cunhado pelos gregos e que em grego antigo significava apenas estrangeiro, foi usada pelos Romanos para designar os povos que não partilhavam seus costumes e cultura (nem a sua organização política). Estas migrações nem sempre implicaram violentos combates entre os migrantes e os povos do Império Romano, embora estes tenham existido. Já os romanos também eram chamados de "bárbaros" (estrangeiros) pelos gregos. Os povos migrantes, em muitos casos, coexistiam pacificamente com os cidadãos do Império Romano nos anos que antecederam este período.

No sentido mais estrito, refere-se à "migração" de grupos, principalmente germânicos, a partir da invasão dos hunos na Europa por volta de 375/376 até à invasão dos lombardos na Itália em 568. O Período de Migração forma um elo entre a Antiguidade Clássica e o início da Idade Média na Europa Ocidental.

Na pesquisa moderna, o termo "migração de povos" está sendo usado de forma cada vez mais crítica, pois, de acordo com as avaliações atuais, a imagem de "povos migrantes" não é sustentável ou a ideia de uma migração de povos é fundamentalmente um "mito de pesquisa".

Destacam-se, neste processo, os Godos (originários do sudeste europeu), os Vândalos e os Anglos (da Europa Central), entre outros povos germânicos e eslavos. Os motivos que desencadearam estas migrações em todo o continente são incertos: talvez como reação às incursões dos Hunos, pressões populacionais ou alterações climáticas.

Os historiadores modernos dividem este movimento migracional em duas fases. Na primeira, de 300 a 500, assistiu-se a uma movimentação de povos maioritariamente germânicos por toda a Europa, colidindo, portanto, com as várias regiões ocupadas pelo Império Romano. Foram os Visigodos os primeiros a eclodir com o império — na verdade, os Visigodos foram inicialmente contratados para ajudar na defesa das fronteiras do império, mas mais tarde seriam responsáveis pela invasão da península Itálica; de imediato, seguiram-lhes os Ostrogodos, liderados por Teodorico, o Grande.

Na segunda fase, entre os anos 500 e 700, assiste-se ao estabelecimento progressivo dos Eslavos no Leste Europeu, tornando-a predominantemente eslava, num movimento iniciado pela ocupação da região da actual República Checa.

Os búlgaros estavam estabelecidos na Europa no século II, mas no século IV, parte deles migrou do Cáucaso do Norte à Arménia. Em 632 estabeleceram a Antiga Grande Bulgária (em grego: Η παλαιά μεγάλη Βουλγαρία; nas crónicas romanas) no território entre o Cáucaso e o rio Danúbio. No século VII, búlgaros migraram também à Baviera, à península Itálica, à Panónia e à Macedónia. Em 681, o Império Búlgaro expandiu-se nos Balcãs ao sul do Danúbio, e no século IX era o berço do eslavo eclesiástico e alfabeto cirílico, que nos séculos subsequentes foram espalhados aos estados europeus medievais tais como Rússia, Croácia, Sérvia, Valáquia e Moldávia.

Já excluídos do período de migrações, mas ainda na Alta Idade Média, formam-se ainda movimentos migratórios, nomeadamente o dos Magiares, para a Panónia e, mais tarde, dos Turcos, para a Anatólia e do Cáucaso (século XI), e ainda a expansão dos Viquingues a partir da Escandinávia, ameaçando o recém-estabelecido Império Franco na Europa Ocidental, por Carlos Magno. No século VIII, os árabes tentaram invadir o sudeste da Europa, mas foram derrotados pelo cã Tervel da Bulgária e pelo imperador bizantino Leão III, o Isauro em 717, e desviaram sua expansão à Península Ibérica.

O termo Völkerwanderung ("migração dos povos") surgiu no idioma alemão no final do século XVIII. O Dicionário dos Irmãos Grimm (*Deutsches Wörterbuch*) registra a expressão na obra histórica Geschichte der Deutschen, publicada por Michael Ignaz Schmidt em 1778, na qual se menciona a "chamada migração dos povos" (sogenannte Völkerwanderung). Como designação periódica consolidada, foi empregado em 1790/1792 por Friedrich Schiller em seu ensaio intitulado Ueber Völkerwanderung, Kreuzzüge und Mittelalter ("Sobre a migração dos povos, cruzadas e Idade Média"), alcançando rápida difusão no século XIX. Uma das problemáticas historiográficas reside no fato de o termo designar simultaneamente uma época histórica e determinados desenvolvimentos sociopolíticos que supostamente teriam ocorrido nesse intervalo. Em sua gênese, a construção conceitual remonta ao humanista Wolfgang Lazius, que publicou em 1557 a obra De gentium aliquot migrationibus.

Fora do espaço germanófono, a tradição historiográfica enfatizou por muito tempo o caráter bélico do período associado às "invasões bárbaras" (como no inglês barbarian invasions — atualmente substituído frequentemente por Migration Period —, no francês invasions barbares ou no italiano invasioni barbariche).

Para a historiografia tradicional dos séculos XVIII e XIX, influenciada pelo nacionalismo emergente, parecia evidente que os deslocamentos populacionais da Antiguidade Tardia correspondiam a migrações de "povos" inteiros em busca de uma nova pátria, invadindo violentamente o território romano para conquistar terras de colonização. Essa perspectiva consolidou-se no imaginário coletivo e ainda permanece difundida fora do meio acadêmico. Contudo, segundo o consenso de grande parte dos historiadores e arqueólogos contemporâneos, a tese de "povos inteiros em marcha migratória" é cientificamente insustentável.

O cerne da questão reside na própria definição do conceito de "povo" (etnicidade). Embora tenham ocorrido movimentações de grupos de dimensões variadas, esses agrupamentos eram heterogêneos. A pesquisa contemporânea interpreta grande parte desses contingentes não como nações coesas, mas sim como exércitos mercenários multiétnicos acompanhados por um séquito familiar (Tross), frequentemente convocados pelas próprias autoridades romanas para lutar em guerras civis ou proteger fronteiras contra inimigos externos. Além disso, assim como em outras épocas, registrou-se a migração desorganizada de indivíduos e pequenos núcleos familiares. Portanto, a ideia de uma marcha coordenada de nações homogêneas é amplamente considerada um "mito historiográfico" gestado no século XIX, tornando problemático o uso acrítico da expressão.

Da mesma forma, não há razão para conceber o período como uma ruptura abrupta e absoluta, visto que a transição para a Idade Média constituiu um processo gradual e multifacetado. As migrações foram apenas um dos seus componentes, e inúmeros elementos da cultura clássica continuaram vigorando, sob novas formas, após o século VI.

Segundo o consenso acadêmico atual, as "tribos" germânicas (gentes, nationes) do período migratório não representavam comunidades biológicas de descendência comum nem entidades étnicas estáticas, ainda que fontes clássicas romanas frequentemente as descrevessem dessa maneira. Agrupamentos confederados, como os godos, incorporavam contingentes de diversas origens, como Rúgios ou Hérulos, e indivíduos ou grupos inteiros podiam alterar suas alianças ao longo do tempo. A arqueologia e a historiografia demonstraram que uniformidades linguísticas, indumentárias ou de armamento não bastam para fundamentar uma atribuição étnica unívoca. Do mesmo modo, o recurso crescente à análise de DNA antigo tem sido alvo de debates metodológicos por pesquisadores que alertam contra o risco de superestimar determinismos genéticos em detrimento das construções culturais e identitárias.

Análises paleogenéticas de esqueletos em necrópoles fornecem dados empíricos importantes, mas apresentam limitações hermenêuticas, já que artefatos funerários nem sempre correspondem à autoidentificação do falecido em vida e marcadores biológicos nada informam, por si sós, sobre pertencimento cultural. Por isso, a cooperação interdisciplinar entre arqueólogos, historiadores e geneticistas é considerada imprescindível.

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