Marjane Satrapi (em persa: مرجان ساتراپی; nome de nascimento Marjane Ebrahimi; Rasht, 22 de novembro de 1969 — Paris, 4 de junho de 2026) foi uma romancista gráfica, ilustradora, roteirista e cineasta iraniana e francesa. Tornou-se mundialmente conhecida por sua série autobiográfica de história em quadrinhos Persépolis (2000–2003), que narra sua infância e juventude no Irã e no exílio europeu após a Revolução Iraniana. A adaptação animada da série, que co-dirigiu com Vincent Paronnaud, recebeu o Prêmio do Júri do Festival de Cannes de 2007 e foi indicada ao Oscar de melhor longa-metragem de animação na cerimônia de 2008, sendo a primeira mulher indicada nessa categoria.
Marjane Satrapi cresceu em Teerã, no Irã, em uma família de orientação comunista e socialista envolvida nos movimentos de esquerda que antecederam a Revolução Iraniana. Durante a infância, presenciou a crescente repressão das liberdades civis e as consequências dos eventos políticos na vida cotidiana do país, incluindo a queda do xá, o regime de Ruhollah Khomeini e os primeiros anos da Guerra Irã-Iraque. Seu tio Anouche, militante político pelo qual tinha profunda afeição, foi executado em 1982 por suas opiniões políticas.
Em 1983, aos 14 anos, seus pais a enviaram para Viena, Áustria, onde estudou no Lycée Français de Vienne. Passou os anos do ensino médio em Viena, morando em diferentes residências e chegando a ficar sem teto por um período, até ser hospitalizada em decorrência de uma bronquite grave. Após a recuperação, retornou ao Irã, onde obteve o mestrado em Comunicação Visual pela Universidade Islâmica Azad de Teerã.
Quando tinha cerca de 21 anos, casou-se com um veterano da Guerra Irã-Iraque, de quem se divorciou três anos depois. Em 1994, mudou-se para a França para estudar na Haute école des arts du Rhin (então denominada École supérieure des arts décoratifs), em Estrasburgo, e depois se instalou em Paris, onde se integrou ao atelier des Vosges — coletivo de quadrinistas que reunia nomes como Joann Sfar, Christophe Blain e David B. — e encontrou sua vocação nos quadrinhos.
A leitura de Maus, de Art Spiegelman, foi uma revelação decisiva para Satrapi. Entre 2000 e 2003, publicou os quatro volumes de Persépolis pela editora L'Association, obtendo enorme sucesso crítico e comercial — a série foi traduzida para dezenas de idiomas e vendeu mais de um milhão de exemplares somente na França.
Em 2003, publicou Broderies, indicado ao prêmio do melhor álbum do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême. Seu último álbum, Poulet aux prunes (2004), conquistou o mesmo prêmio. Após essa obra, Satrapi decidiu abandonar os quadrinhos para se dedicar à pintura e ao cinema.
Em 2023, coordenou o álbum coletivo Femme, vie, liberté (L'Iconoclaste), homenagem às iranianas que se levantaram após a morte de Mahsa Amini, com versão em persa disponibilizada gratuitamente para todos os iranianos.
Entre 2005 e 2007, Satrapi co-realizou com Vincent Paronnaud o longa-metragem de animação Persépolis (2007), adaptação de sua série autobiográfica. O filme foi exibido em seleção oficial no Festival de Cannes de 2007, onde recebeu o Prêmio do Júri, e conquistou dois César no ano seguinte: melhor primeiro filme e melhor adaptação. Foi também indicado ao Oscar de melhor longa-metragem de animação na cerimônia de 2008, tornando Satrapi a primeira mulher indicada nessa categoria.
Em 2011, co-dirigiu novamente com Paronnaud o filme Poulet aux prunes, adaptação de seu álbum homônimo. Em 2012, realizou a comédia La Bande des Jotas, da qual também foi roteirista e atriz. Em 2014, dirigiu a comédia negra The Voices, com Ryan Reynolds e Anna Kendrick. Em 2019, dirigiu Radioactive, cinebiografia da cientista Marie Curie. Em 2024, realizou Paradis Paris, comédia negra exibida no Festival de Cinema de Turim.
Satrapi começou a pintar antes de se dedicar aos quadrinhos. Expôs pela primeira vez em 2013 na Galeria Jérôme de Noirmont, em Paris, e em 2020 realizou a exposição Femme ou Rien na galeria Françoise Livinec. Em julho de 2021, o Ministério da Cultura francês encomendou-lhe um tríptico para os Jogos Olímpicos de Paris, reproduzido em tapeçaria pelos artesãos da Manufatura dos Gobelins. Em 28 de fevereiro de 2024, foi eleita para o assento V da seção de cinema e audiovisual da Academia das Belas Artes da França.
Em junho de 2009, Satrapi e o cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf compareceram ao Parlamento Europeu para apresentar documento que alegava mostrar que o candidato reformista Mir Hossein Mousavi havia vencido as eleições iranianas, contestando o resultado oficial.
Em 2022, manifestou apoio às manifestações pela morte de Mahsa Amini e coordenou, no ano seguinte, o álbum coletivo Femme, vie, liberté como ato de solidariedade com as mulheres iranianas.
Em janeiro de 2025, recusou a Legião de Honra — a mais alta condecoração da França —, em protesto ao que chamou de "atitude hipócrita da França em relação ao Irã". Em carta aberta ao Ministério da Cultura, criticou a política de vistos que, segundo ela, favorecia filhos de oligarcas iranianos em detrimento de jovens dissidentes e artistas iranianos.
Satrapi residia em Paris, onde conheceu o ator e produtor sueco Mattias Ripa, com quem se casou em 1996. Ripa faleceu de câncer em 8 de abril de 2025, aos 53 anos. Após sua morte, Satrapi criou a Fundação Cinematográfica Mattias e Marjane Ripa-Satrapi para apoiar estudantes estrangeiros que desejam estudar cinema em Paris.
Satrapi enfrentou uma depressão severa após a perda do marido e, em abril de 2026, internou-se em uma clínica em Munique, na Alemanha, na esperança de se recuperar. Morreu em Paris em 4 de junho de 2026, aos 56 anos. Sua família anunciou em comunicado que ela "morreu de tristeza, pouco mais de um ano após o falecimento de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida".
Persepolis (L'Association, Paris)
Tomo 1, 2000. ISBN 2-84414-058-0
Tomo 2, 2001. ISBN 2-84414-079-3