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Marisa Letícia Lula da Silva

35.ª primeira-dama da República Federativa do Brasil (2003–2011)

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Marisa Letícia Lula da Silva (São Bernardo do Campo, 7 de abril de 1950 — São Paulo, 3 de fevereiro de 2017) foi uma operária e militante política brasileira, primeira-dama do país entre 2003 e 2011, durante os dois primeiros mandatos presidenciais de seu marido, Luiz Inácio Lula da Silva, o 35.º presidente do Brasil. Nascida em uma família de trabalhadores rurais de ascendência italiana, começou a trabalhar ainda criança, foi operária de uma fábrica de chocolates durante a adolescência e tornou-se viúva aos vinte anos, quando estava grávida de seu primeiro filho.

Marisa conheceu Lula em 1973, no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, e casou-se com ele no ano seguinte. Durante as greves operárias do Grande ABC no fim da década de 1970, a residência do casal serviu de local para reuniões de sindicalistas, religiosos, intelectuais e políticos. Ela participou da formação do Partido dos Trabalhadores (PT), confeccionou aquela que ficou conhecida como a primeira bandeira do partido e, depois da prisão de dirigentes sindicais em 1980, ajudou a organizar uma marcha formada por mulheres e crianças.

Como primeira-dama, manteve perfil público mais reservado que o de algumas de suas antecessoras e não ocupou cargo no governo federal. Participou de cerimônias oficiais, viagens de Estado e campanhas sociais; foi presidente de honra da organização não governamental Apoio Fome Zero, presidente de honra do III Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes e apoiou mobilizações de proteção à infância. Em 2016, tornou-se ré por lavagem de dinheiro em duas ações penais da Operação Lava Jato. A defesa negou as acusações. Sua morte, antes de qualquer julgamento de mérito, levou à extinção da punibilidade; o Tribunal Regional Federal da 4.ª Região assinalou posteriormente que permaneciam preservados todos os atributos da presunção de inocência.

Marisa Letícia Casa nasceu em 7 de abril de 1950, em uma casa de pau a pique situada no Bairro dos Casa, então uma área rural de São Bernardo do Campo. Era filha de Antônio João Casa e Regina Rocco Casa, agricultores descendentes de italianos. O sobrenome Casa estava associado à família que possuíra terras na localidade e que deu nome ao bairro. Fontes jornalísticas divergem sobre o número exato de filhos do casal, mas são concordantes ao descrever uma família numerosa, na qual várias crianças morreram ainda pequenas.

A casa de infância tinha chão de terra batida, colchões de palha e criação doméstica de galinhas e porcos. Quando a família se transferiu para uma região mais urbanizada da cidade, a residência ainda não dispunha de eletricidade e utilizava água de poço. Regina Rocco Casa era conhecida na vizinhança como benzedeira; Antônio João Casa cultivava plantas, interesse que Marisa conservaria ao longo da vida. As comemorações religiosas e festas juninas também permaneceram entre os hábitos familiares da futura primeira-dama.

A ascendência italiana provinha de ambos os lados da família. Parte dos antepassados era originária da Lombardia, e um bisavô de Marisa havia nascido em Palazzago, na província de Bérgamo. Ela obteve cidadania italiana por descendência e, em maio de 2008, visitou pessoalmente a comuna de origem da família.

Marisa começou a trabalhar aos nove anos como pajem ou babá na casa do dentista Jaime Portinari, sobrinho do pintor Cândido Portinari. Aos treze anos, ingressou na fábrica de chocolates Dulcora, onde embalava bombons. O trabalho industrial levou à interrupção de sua escolarização formal, limitada aos primeiros anos do ensino primário, situação comum entre meninas de famílias operárias da região naquele período. Ela permaneceu na fábrica até os dezenove anos.

A experiência como operária inseriu sua juventude no processo de rápida industrialização do ABC paulista. Embora sua militância política mais conhecida tenha começado apenas depois do casamento com Lula, relatos biográficos registram que, antes disso, ela já havia ajudado informalmente uma campanha para vereador em São Bernardo do Campo. Depois de enviuvar, trabalhou também no bar administrado por uma prima, conciliando a atividade remunerada com os cuidados do filho recém-nascido.

Aos dezenove anos, Marisa casou-se com Marcos Cláudio dos Santos, motorista que trabalhava com caminhão e também fazia corridas de táxi. Cerca de seis meses depois, ele foi morto durante uma tentativa de assalto enquanto trabalhava. Marisa estava grávida de quatro meses; o filho, nascido posteriormente, recebeu o nome de Marcos Cláudio em homenagem ao pai.

A viuvez precoce obrigou-a a reorganizar a vida econômica. Ela viveu por um período com os sogros e, mais tarde, retornou à casa da mãe. Em 1973, ao procurar o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema para obter um carimbo necessário ao recebimento da pensão previdenciária, conheceu Lula, então dirigente do serviço de assistência social da entidade e também viúvo.

Marisa e Lula começaram a namorar em 1973 e se casaram civilmente em maio de 1974. Lula adotou legalmente Marcos Cláudio, filho do primeiro casamento de Marisa. O casal teve outros três filhos: Fábio Luís, Sandro Luís e Luís Cláudio. Ao casar-se, ela passou a usar o nome Marisa Letícia Casa da Silva; depois que o marido incorporou legalmente o apelido “Lula” ao próprio nome, adotou a forma pela qual se tornaria conhecida, Marisa Letícia Lula da Silva.

Durante grande parte da infância dos filhos, Lula esteve intensamente envolvido com o sindicato, as greves e a organização partidária. Marisa administrava o orçamento familiar, a casa e a rotina das crianças. Pessoas próximas ao casal a descreviam como responsável por preservar os períodos de convivência familiar e por impor limites à agenda pública do marido. Seu papel doméstico, embora geralmente exercido fora dos espaços formais de decisão, tornou-se parte recorrente das descrições jornalísticas sobre a vida familiar de Lula.

Participação sindical e formação do Partido dos Trabalhadores

Lula tornou-se presidente do Sindicato dos Metalúrgicos em 1975. Com a expansão das mobilizações operárias no final da década, a residência do casal passou a receber sindicalistas, religiosos, intelectuais e políticos envolvidos na oposição à ditadura militar e na reorganização do movimento dos trabalhadores. Entre os frequentadores citados em relatos da época estavam Frei Betto, Fernando Henrique Cardoso, Eduardo Suplicy e o então bispo Cláudio Hummes.

Marisa não ocupava função sindical formal, mas colaborava com a infraestrutura doméstica e política do movimento. A casa servia para reuniões e para a preparação de materiais; ela participava da arrecadação de recursos, da organização de fichas de filiação e do cadastramento de apoiadores. Esse trabalho de bastidores contribuiu para a rede de apoio às greves e, posteriormente, para a formação do Partido dos Trabalhadores.

Segundo o relato de Marisa, ela utilizou um retalho de tecido vermelho de origem italiana e costurou uma estrela branca no centro, confeccionando em casa a primeira bandeira do PT. Também estampava camisetas com a estrela e as vendia para obter recursos destinados à nascente organização partidária. A peça tornou-se um dos episódios mais citados da memória sobre a fundação do partido.

A atribuição foi reproduzida por diferentes perfis biográficos e pelo próprio PT, embora reportagem da Folha de S.Paulo publicada em 2003 tenha registrado que alguns militantes históricos manifestavam ceticismo sobre a identificação daquela peça como a primeira bandeira da legenda. Em termos enciclopédicos, o episódio é descrito como uma tradição consolidada na memória partidária, sustentada sobretudo pelo testemunho de Marisa e de pessoas próximas ao núcleo fundador.

Em abril de 1980, Lula e outros dirigentes sindicais foram presos com base na Lei de Segurança Nacional durante a greve dos metalúrgicos. Marisa participou da mobilização pela libertação dos sindicalistas e ajudou a organizar uma marcha composta por mulheres e crianças. O grupo percorreu o centro de São Bernardo do Campo sob vigilância policial; Marisa caminhou à frente, de mãos dadas com os filhos.

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Marisa Letícia Lula da Silva | World in Stories