Maria Henriqueta Ana de Habsburgo-Lorena (em alemão: Marie Henriette Anne von Habsburg-Lothringen; francês: Marie-Henriette Anne de Habsbourg-Lorraine; neerlandês: Marie Henriëtte Anne van Habsburg-Lotharingen; Peste, 23 de agosto de 1836 – Spa, 19 de setembro de 1902) foi a esposa do rei Leopoldo II e Rainha Consorte dos Belgas de 1865 até sua morte.
Nascida arquiduquesa da Áustria, filha de José, Palatino da Hungria, e da princesa Maria Doroteia de Württemberg, casou-se, em 1853, com Leopoldo, Duque de Brabante, e herdeiro do trono da Bélgica. Submissa à personalidade do marido, Maria Henriqueta não desempenhou nenhum papel político como rainha, mas organizou ambiciosos planos matrimoniais para suas filhas. Sua primogênita, Luísa, casou-se com o rico príncipe Filipe de Saxe-Coburgo-Gota-Koháry, enquanto sua filha Estefânia uniu-se a Rodolfo, Príncipe Herdeiro da Áustria.
Maria Henriqueta também desempenhou papel discreto como mecenas de pintores, escultores e cantores, promovendo suas obras e carreiras. Apaixonada por animais, cuidava pessoalmente de cães, cavalos e peixes ornamentais. Gradualmente, desiludida com o estado de seu casamento e da vida familiar, a rainha retirou-se da corte de Bruxelas para passar períodos de descanso na estância termal de Spa, delegando o papel de primeira-dama à sua filha mais nova Clementina. A partir de 1895, passou a residir permanentemente na vila real de Spa, onde faleceu em 1902, aos 66 anos.
A arquiduquesa Maria Henriqueta Ana da Áustria nasceu em Peste, em 23 de agosto de 1836. Era a filha mais nova do arquiduque José, Palatino da Hungria, e da princesa Maria Doroteia de Württemberg. Seu primeiro nome foi atribuído em homenagem à avó materna, Henriqueta de Nassau-Weilburg.
Foi criada no Castelo de Buda, então residência oficial da Monarquia Habsburgo na Hungria, localizado às margens do rio Danúbio. De acordo com relatos de contemporâneos, sua educação apresentou características pouco convencionais para os padrões femininos aristocráticos da época, sendo descrita como tendo sido "criada mais como um menino do que como uma menina por sua mãe". Habilidosa amazonas, Maria Henriqueta percorria as planícies húngaras e era tão apaixonada por cavalos que cuidava deles pessoalmente. Na corte austríaca, seus primos afirmavam que, "tendo comprado o cavalo do leiteiro um dia, ela imediatamente o montou e galopou de volta ao palácio".
Após as Revoluções de 1848, que impactaram diversas monarquias europeias, o rei Leopoldo I da Bélgica avaliou a aproximação com a Casa d'Áustria como estratégia para reforçar o prestígio e a estabilidade institucional da monarquia belga, então recentemente independente.
A política matrimonial dinástica era compreendida como instrumento de legitimação internacional e consolidação da dinastia reinante. Nesse contexto, o casamento de Maria Henriqueta foi arranjado por razões diplomáticas com Leopoldo, Duque de Brabante, filho e herdeiro do rei dos belgas, e futuro rei Leopoldo II da Bélgica. A decisão foi conduzida pelas cortes austríaca e belga, prevalecendo sobre eventuais objeções pessoais da noiva.
Em 8 de agosto de 1853, foi assinado, em Viena, o contrato de casamento. Em 10 de agosto do mesmo ano, realizou-se inicialmente o casamento por procuração no Palácio de Schönbrunn. A cerimônia presencial ocorreu doze dias depois, em Bruxelas, quando Maria Henriqueta se casou com Leopoldo. A realização da cerimônia na Bélgica sofreu breve adiamento em razão de um quadro de escarlatina apresentado pelo duque de Brabante.
Após as celebrações, o casal realizou visitas oficiais a diversas cidades belgas e, posteriormente, a outros países europeus. Durante estada na França, em 1855, observadores registraram contrastes marcantes de temperamento entre os entre os cônjuges, como observou Priscilla Anne Fane, Condessa de Westmorland: Diziam que ele [Leopoldo], aos dezesseis anos, era um rapaz alto e magro, com peito estreito e sem qualquer vestígio de barba. Falava muito, não lhe faltava sagacidade, mas, se o seu corpo era demasiado jovem, a sua mente não o era de todo. Falava não como um homem, mas como um velho. Julgue como ele devia ser divertido para sua jovem esposa, com quem ele se comportava como um senhor. Em determinados círculos sociais, surgiram comentários depreciativos acerca da união, referida de modo jocoso como "casamento de um rapaz de estábulo e uma freira", sendo a "freira" o tímido e retraído Leopoldo.
A convivência conjugal foi descrita como pouco harmoniosa. Maria Henriqueta, educada com relativa liberdade para os padrões aristocráticos do período, mantinha interesse constante por equitação e criação de animais. Dedicou-se especialmente à criação de cães das raças Griffon de Bruxelas e Schipperke, além de manter número expressivo de cavalos, entre éguas, pôneis e garanhões, aos quais atribuía nomes associados a regiões e rios europeus. Demonstrava preferência por domar animais considerados difíceis, atividade que ocasionalmente resultava em quedas. Também se dedicava à criação de aves e peixes ornamentais, com acompanhamento de veterinário particular. Paralelamente, buscou aperfeiçoamento em atividades musicais, com prática de harpa e piano, além de canto. Leopoldo, por sua vez, demonstrava maior inclinação para temas administrativos e políticos. Em razão de quadros recorrentes de ciática e bronquite, médicos recomendaram-lhe estadias em regiões de clima mais quente como medida terapêutica.
O rei Leopoldo I faleceu em 10 de dezembro de 1865. O então duque de Brabante, aos trinta anos, ascendeu ao trono sob o nome de Leopoldo II. Nos primeiros anos de reinado, mantinha-se certa rotina de convivência entre os soberanos, como o hábito de tomarem o pequeno-almoço juntos. O rei dedicava parte das noites à análise de documentos oficiais antes de recolher-se. Embora adotasse postura autoritária no âmbito conjugal, mantinha tratamento formal e respeitoso em relação à rainha, ainda que marcado por distanciamento. A rainha passou a dedicar-se com maior frequência a atividades culturais, especialmente à ópera e ao teatro. Posteriormente, foi instalada uma linha telefónica no Castelo de Laeken, permitindo-lhe acompanhar ensaios musicais a partir de seus aposentos.
A relação conjugal não apresentou aproximação significativa ao longo dos anos. Novo episódio de impacto ocorreu com a morte do único filho varão do casal real, Leopoldo, em 1869, em decorrência de pneumonia contraída após queda em um lago no parque de Laeken. Após o falecimento do filho, a rainha intensificou práticas religiosas, orientando-se para observância mais rigorosa de disciplinas cristãs. Demonstrou particular interesse por comunidades franciscanas e carmelitas, identificando-se com práticas de austeridade e disciplina espiritual. No âmbito familiar, passou a adotar postura mais severa na educação das filhas, delegando grande parte da formação cotidiana a governantas e preceptoras. Relatos indicam rigidez na aplicação de normas disciplinares e redução da convivência afetiva direta.
A rainha sonhava com casamentos brilhantes para suas filhas. Assim, em 1875, casou sua filha Luísa com o príncipe Filipe de Saxe-Coburgo-Gota-Kohary, um rico proprietário, detentor de considerável patrimônio na Hungria, e herdeiro do ramo de Koháry da Casa de Saxe-Coburgo-Gota. Em 1881, Maria Henriqueta regozijou-se ao lograr uma prestigiosa união de sua filha Estefânia com Rodolfo, Príncipe Herdeiro da Áustria, único filho varão do imperador Francisco José I e da imperatriz Isabel, mais conhecida como "Sissi". Sua filha mais nova Clementina, todavia, contraiu um casamento considerado menos prestigioso com Vítor, Príncipe Bonaparte, pretendente bonapartista ao trono francês.
Maria Henriqueta deixava regularmente a corte de Bruxelas para descansar na estância termal de Spa em razão de quadros recorrentes de ciática e bronquite, deixando o papel de primeira-dama para sua filha mais nova, a princesa Clementina. Em 1895, instalou-se definitivamente em uma vila adquirida em 1894. Spa passou a funcionar como residência real, servindo de ponto de parada para visitantes oficiais e alguns chefes de Estado, e Maria Henriqueta tornou-se conhecida como "a rainha de Spa".