Maria Ana da Espanha (El Escorial, 18 de agosto de 1606 – Linz, 13 de maio de 1646) foi uma imperatriz do Sacro Império Romano e rainha da Hungria e da Boêmia por seu casamento com o Sacro Imperador Fernando III. Ela atuou como regente em várias ocasiões durante as ausências de seu marido, principalmente durante sua ausência na Boêmia em 1645.
Filha do rei Filipe III da Espanha e de Margarida da Áustria, antes de seu casamento imperial, ela era considerada uma possível esposa para Carlos, Príncipe de Gales. O evento, mais tarde conhecido na história como o Casamento Espanhol, provocou uma crise doméstica e política nos reinos da Inglaterra e da Escócia. Na corte imperial em Viena, ela continuou a ser fortemente influenciada por sua cultura espanhola nativa, do vestuário à música, e também promoveu o fortalecimento das relações entre os ramos imperial e espanhol da Casa de Habsburgo.
Desde a infância, Maria Ana desempenhou um papel importante nos projetos matrimoniais de seu pai. Na adolescência, ela foi prometida em casamento ao arquiduque João Carlos, filho mais velho e herdeiro do Sacro Imperador Fernando II e de sua primeira esposa, Maria Ana da Baviera. Seu noivo era seu primo de primeiro grau e filho do irmão de sua mãe. O casamento jamais se concretizou devido à morte prematura do arquiduque João Carlos em 1618.
Houve também a possibilidade de um matrimônio entre o Príncipe de Gales e a infanta espanhola, episódio que ficou conhecido na história como a política do Casamento Espanhol, a qual provocou uma crise política interna tanto na Inglaterra quanto na Escócia. Em 1623, o Príncipe de Gales, acompanhado por Jorge Villiers, 1.º Duque de Buckingham, visitou Madrid para encontrar-se com sua pretendida. No entanto, Maria Ana não desejava casar-se com um protestante, e Carlos recusava-se a converter-se ao catolicismo. Ao final, o casamento não se realizou, tanto por razões políticas quanto pela relutância do novo rei espanhol em concluir uma aliança dinástica com a Casa de Stuart. Carlos acabaria por casar-se com a devota católica Henriqueta Maria da França, da Casa de Bourbon.
No final de 1626, Maria Ana foi prometida em casamento ao arquiduque Fernando, irmão mais novo de seu primeiro noivo e novo herdeiro do Sacro Imperador Fernando II. Ele era seu primo de primeiro grau, filho do irmão de sua mãe. O noivado formal foi precedido por uma série de negociações realizadas em 1625. Nesse mesmo ano, Fernando foi coroado Rei da Hungria e, em 1627, Rei da Boêmia. As negociações incluíram todos os aspectos da vida da infanta na corte de seu futuro esposo. Apesar do desejo do noivo de que o confessor de Maria Ana fosse o jesuíta Ambrosio de Peñalosa, a escolha acabou recaindo sobre o capuchinho Diego Quiroga. No contrato matrimonial assinado por ambas as partes em 1628, ficou estipulado que Maria Ana poderia manter seus direitos de sucessão ao trono espanhol, ao contrário de sua irmã mais velha, a infanta Ana, casada com o rei Luís XIII em 1615, que fora obrigada a renunciar aos seus direitos.
Maria Ana deixou Madrid com destino a Viena em dezembro de 1629, três anos após seu noivado e quase cinco anos depois da proposta inicial de casamento. A viagem, uma vez iniciada, levou mais de um ano para ser concluída. Durante o percurso marítimo, em Gênova, surgiram complicações devido a uma epidemia de peste que eclodiu na Península Itálica. Por essa razão, o séquito não pôde parar em Bolonha, onde o cardeal Antonio Barberini, sobrinho do Papa Urbano VIII, aguardava a infanta para entregar-lhe a Rosa de Ouro. A comitiva seguiu então para Nápoles, onde Maria Ana finalmente recebeu a honraria. Ao deixar Nápoles, a infanta atravessou os Estados Pontifícios após realizar uma peregrinação à Basílica da Santa Casa. Nesse trecho da jornada, Maria Ana foi acompanhada pela aristocracia romana, liderada por outro sobrinho do Papa Urbano VIII, Taddeo Barberini, Príncipe de Palestrina. Em 26 de janeiro de 1631, ela chegou a Trieste, onde encontrou-se com o arquiduque Leopoldo Guilherme da Áustria, seu futuro cunhado, que primeiro a representaria no casamento por procuração e depois a escoltaria até Viena. Naquele mesmo dia, Maria Ana casou-se com Fernando por procuração, sendo o arquiduque Leopoldo Guilherme o procurador.
Antes do casamento oficial, Fernando, desconfiado dos retratos que havia recebido da infanta, decidiu vê-la em segredo. O Oberhofmeister real solicitou uma audiência com Maria Ana. Nessa visita, foi acompanhado por alguns nobres, entre os quais estava o próprio noivo. Encantado com a beleza da infanta, Fernando imediatamente revelou sua identidade e iniciou uma conversa com Maria Ana em espanhol. O amor e o respeito que o futuro Sacro Imperador sentiu por sua esposa perduraram ao longo de todo o casamento. Ele jamais lhe foi infiel e não teve filhos ilegítimos.
Em Viena, em 20 de fevereiro de 1631, Maria Ana casou-se oficialmente com Fernando. As festividades duraram um mês inteiro. O casamento foi descrito como harmonioso. Maria Ana foi considerada de temperamento alegre, amigável e inteligente, qualidades que suavizavam o ânimo melancólico de Fernando.
Maria Ana chegou à corte imperial em Viena trazendo consigo a moda espanhola, o teatro, a dança e a música (incluindo a primeira guitarra sonorizada). Como esposa do herdeiro ao trono, manteve boas relações com todos os membros da família de seu marido, embora sua convivência com a madrasta de Fernando, a imperatriz-viúva Leonor Gonzaga, tenha sido complicada, principalmente devido a uma disputa por influência na corte imperial. Maria Ana também dedicava muita atenção às artes, especialmente à pintura. Reuniu uma coleção de obras de pintores italianos, espanhóis e flamengos dos períodos finais da Renascença e iniciais do Barroco.
Em Ratisbona, no dia 22 de dezembro de 1636, Fernando foi eleito Rei dos Romanos e, uma semana depois, foi coroado pelo Arcebispo de Mainz. Maria Ana foi coroada Rainha da Germânia um mês mais tarde, em 21 de janeiro de 1637. Após a morte de seu sogro, em 15 de fevereiro de 1637, Fernando ascendeu ao trono como Sacro Imperador Romano sob o nome de Fernando III, tornando-se também rei soberano da Hungria e da Boêmia. Como sua esposa, Maria Ana recebeu os títulos de imperatriz do Sacro Império Romano e rainha soberana. Sua coroação como Rainha da Hungria ocorreu em Pressburgo durante a Dieta da Hungria de 1637–1638.
Maria Ana, ativa na política como conselheira de seu esposo, exerceu um papel importante como mediadora entre o imperador e seus parentes espanhóis. Embora sempre defendesse os interesses de seu marido, não deixava de considerar os interesses de seus irmãos, o rei Filipe IV e o cardeal-infante Dom Fernando. Em sua corte, composta majoritariamente por espanhóis, eram frequentes as visitas do embaixador espanhol e de outros diplomatas da monarquia hispânica. Durante as ausências do imperador na corte imperial de Viena, Maria Ana foi nomeada regente, como ocorreu em 1645, durante a Guerra dos Trinta Anos, quando Fernando se encontrava no Reino da Boêmia.
Em março de 1645, Maria Ana e seus filhos deixaram Linz devido à aproximação do exército sueco protestante, dirigindo-se para Viena. Em abril, o exército já estava preparado para cruzar o Danúbio e ameaçava ocupar a cidade. A família imperial, então, fugiu temporariamente para Graz. Após retornar a Viena, foi obrigada a se deslocar novamente para Linz por causa da peste. A notícia da sexta gravidez de Maria Ana tornou-se pública em janeiro de 1646. Quatro meses depois, em 12 de maio, no Castelo de Linz, ela subitamente sentiu-se mal, com febre e forte hemorragia, vindo a falecer na manhã seguinte. Sua filha ainda não nascida foi retirada viva do ventre da mãe. Recebeu o nome de Maria, em homenagem à imperatriz, mas viveu apenas algumas horas.
No dia 24 de maio, mãe e filha, em um mesmo caixão, foram trasladadas para Viena e sepultadas na Cripta Imperial, que já abrigava os caixões com os restos mortais de dois filhos da imperatriz falecidos anteriormente. O cortejo fúnebre foi acompanhado pelo embaixador espanhol e pela dama de honra da imperatriz. Muito abalado com a morte da esposa e da filha, o imperador não conseguiu comparecer ao funeral. No entanto, após retornar a Viena no final de agosto, ele finalmente prestou suas homenagens aos restos mortais de Maria Ana. Em setembro, anunciou o noivado da filha primogênita, Maria Ana, com Baltasar Carlos, Príncipe das Astúrias. Contudo, o príncipe faleceu no mês seguinte, pouco tempo após o anúncio.