Neste Dia

Manuel Buíça

Regicida português

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Manuel Buíça, de seu nome completo Manuel dos Reis da Silva Buíça (Bouçoães, Valpaços, 31 de dezembro de 1875 – Lisboa, 1 de fevereiro de 1908) foi o regicida de D. Carlos I e o Príncipe Real D. Luís Filipe.

Nascido em Bouçoães, baptizado com o nome de Manuel dos Reis, filho natural de Maria Barrosa (sic), criada de servir, e de pai incógnito. Segundo o Abade de Baçal, em Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança: Tomo VI - Os Fidalgos, o pai de Manuel Buíça era Abílio Augusto da Silva Buíça, abade de Vinhais, nome semelhante ao indicado pelo regicida no seu testamento, escrito pouco tempo antes de morrer. Conhecem-se-lhe duas ligações conjugais. A primeira, entre 1896 e 1898, e a segunda com Hermínia Augusta da Costa, de que resultaram dois filhos - Elvira Celeste da Costa Buíça (nascida a 19 de dezembro de 1900) e Manuel Augusto da Costa Buíça (nascido a 12 de Setembro de 1907) que, à data do regicídio tinham sete anos e cinco meses, respectivamente. Cerca de cinco meses antes do Regicídio, Buíça ficou viúvo.

Homem de carácter colérico, exaltado e violento, não mantinha, no entanto, muitas ligações exteriores ao seu círculo profissional e, frequentava, com Alfredo Costa e Aquilino Ribeiro (uma das pessoas a quem legou o testamento), o Café Gelo no Rossio.

Começou a sua carreira profissional ao ingressar no Exército, onde alcançou a categoria de Segundo-Sargento no Regimento de Cavalaria de Bragança, exercendo também aí o cargo de instrutor da carreira de tiro. Senhor de uma pontaria exímia, detinha o curso de mestre de armas e uma medalha de atirador de 1.ª classe que, se viu justificada pela precisão com que, a 8 metros de distância do landau em que seguia o rei, Buíça alvejou Carlos I na coluna vertebral. Apesar do seu talento, destreza e capacidades militares, a sua carreira não deixou de ser algo atribulada, figurando, na sua caderneta, três punições disciplinares por infracções diversas. Demitido do exército, a partir de 1898 envereda pela carreira de docente do ensino livre, leccionando no Colégio Nacional e, ministrando também, a nível particular, lições de música e francês.

O Golpe do Elevador da Biblioteca

Na noite de 28 de Janeiro de 1908, data fixada para o movimento que abortou desastradamente no elevador da Biblioteca, fazia parte de um grupo de de vinte homens, liderados por Alfredo Costa. Este grupo deveria primeiramente assaltar o Palácio Real mas, depois, por uma modificação da estratégia, no Quartel dos Lóios, o grupo, ainda se envolveu em confrontos com a Guarda Municipal, nas imediações da Rua de Santa Bárbara, quando aguardava que um morteiro desse o sinal da revolução.

A Janeirada foi planeada em conjunto entre o Partido Republicano e a Dissidência Progressista, fornecendo o primeiro os homens e o segundo o dinheiro e as armas. Além de António José de Almeida, tinha como organizador na sombra Luz de Almeida. O golpe tinha como objectivo proclamar a República e, como meio, a revolta armada e o assassínio do odiado ditador João Franco. Não está claro quando é que se tomou a decisão de abater também o rei mas, fazia parte das instruções do comando do qual faziam parte Alfredo da Costa e Manuel Buíça, como parte do golpe.

Esta tentativa de Revolução foi gorada pelo governo de João Franco, que graças a uma inconfidência empreendeu uma onda de prisões que decapitaram o movimento antes que pudesse arrancar. Os que puderam fugir fizeram-o no meio do pânico geral, sendo que ninguém do grupo de Alfredo Costa tinha sido preso nesse dia e eram dos conspiradores que não arredavam do seu posto. De facto, as prisões limitaram-se aos cabecilhas e pouco mais, continuando muitos dos comandos a vaguear pela cidade, fazendo distúrbios - houve escaramuças no Rato, Alcântara, no Campo de Santana e, na Rua da Escola Politécnica, cai morto um polícia.

A sala traseira do Café Gelo, sempre tão frequentada pelos carbonários e republicanos, estava vazia e, apenas Manuel Buíça e Alfredo Costa com mais uns tantos temerários ficavam por lá e continuavam a frequentar o local, sendo que os outros passavam de esfuziote, rápidos e silenciosos.

Na madrugada do dia 1 de fevereiro de 1908, Manuel Buíça reúne-se com Alfredo Costa e outros carbonários na Quinta do Xexé, aos Olivais, onde planearam o atentado. No mesmo dia, pelas duas horas da tarde, almoça com Alfredo Costa e mais três desconhecidos, numa mesa a um canto do Café Gelo, que fica perto da porta para a cozinha, saem estes para dar lugar a um outro que se senta à mesma mesa, com quem os regicidas conversam baixo. Consta que durante esta conversa Buíça terá dito, em tom jocoso, a um outro freguês do mesmo café sentado numa mesa à parte, o seguinte dito muito banal na altura: "Estamos aqui, estamos em Timor…", relacionado já com a empresa que ia tomar em mãos.

Findo o diálogo, Buíça é o primeiro a se levantar e, diz aos outros dois que vai buscar o varino e o resto, que seria muito provavelmente a carabina winchester, modelo 1907 (n.º de série 2137), importada da Alemanha por Heitor Ferreira, com que alvejaria dali a algumas horas o rei D. Carlos I e o princípe-herdeiro D. Luís Filipe.

Pelas quatro horas da tarde do mesmo dia, Manuel Buíça, com Domingos Ribeiro e José Maria Nunes, posicionou-se no Terreiro do Paço, perto da estátua de D. José, ficando o primeiro perto duma árvore, frente ao Ministério do Reino, junto a um quiosque.

Alfredo Costa, Fabrício de Lemos e Ximenes assumiram posições debaixo da arcada do mesmo ministério, os seis aguardam a chegada do monarca, misturados com a população que espera o desembarque da família real, acompanham atentamente a atracagem do navio a vapor, D. Luís, onde seguia a mesma.

Sensivelmente às cinco horas e vinte minutos, Manuel Buíça, avançando da placa central do Terreiro do Paço, a oito ou dez metros de distância do landau régio, descobre a carabina, assenta um joelho em terra e abre fogo à retaguarda do mesmo, atingindo o rei no pescoço e partindo-lhe a coluna vertebral, que o vitima instantaneamente. O segundo tiro visava assegurar a morte do rei ou, mais provavelmente, era dirigido ao Príncipe Real, sentado em frente de D. Carlos. O tiro atinge as dragonas no ombro esquerdo do rei, desviando-o para a direita. É nesta altura que intervém Alfredo Costa, que sobe para o estribo do landau e dá dois tiros nas costas do rei (que havia ficado de costas para ele), trocando depois tiros com o príncipe que se levantara. Buíça muda de posição, pois o landau estava em movimento e 20 metros mais à frente volta a fincar o joelho em terra e atira duas vezes sobre o príncipe. O primeiro projéctil falha, mas o segundo atinge-o na face esquerda, saindo-lhe pela nuca.

Buíça volta a mudar de posição mas é impedido de disparar sobre a carruagem pela intervenção de Henrique da Silva Valente, soldado de Infantaria 12, que passava no local, e que se lança sobre ele de mãos nuas. Na breve luta que se segue o soldado é atingido numa perna. Tendo voltado o seu cavalo, o Tenente Francisco Figueira carrega sobre Buíça. Este ainda o consegue atingir numa perna com a sua última bala e tenta fugir, mas Figueira alcança-o e imobiliza-o com uma estocada, não sem antes ser ainda atingido numa coxa.

O regicida é acometido por vários polícias, mas debate-se, mesmo já não tendo mais balas. Neste corpo a corpo é baleado e morto por agente desconhecido, embora as forças da ordem se tenham gabado de o ter abatido.

Autópsia e homenagens fúnebres

Manuel Buíça, com trinta e dois anos, foi a enterrar no dia 11 de fevereiro de 1908.

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