Luís XV (Versalhes, 15 de fevereiro de 1710 – Versalhes, 10 de maio de 1774), também conhecido como "o Bem-Amado" (em francês: le Bien-Aimé), foi o Rei da França e Navarra de 1715 até sua morte. Bisneto e sucessor de Luís XIV, ascendeu ao trono aos cinco anos de idade, permanecendo inicialmente sob uma regência liderada pelo Duque de Orleães e, posteriormente, pelo Duque de Bourbon. Ao atingir a maioridade, confiou o governo ao Cardeal Fleury, seu antigo tutor, que atuou como seu principal ministro de 1726 até 1743, quando o rei passou a conduzir pessoalmente o ministério.
Seu reinado, de quase 59 anos, foi o segundo mais longo da história francesa, atrás apenas do seu bisavô Luís XIV – este com 72 anos e 110 dias de reinado. Embora tenha sido marcado por um período de prosperidade e estabilidade interna, a França sofreu importantes reveses militares, especialmente na Guerra dos Sete Anos (1756–1763), que resultou na perda de grande parte de seu império colonial na América do Norte e na Índia. Seu limitado envolvimento nos assuntos de governo, a instabilidade ministerial e os escândalos de sua vida privada contribuíram para a queda de sua popularidade e para o enfraquecimento da monarquia francesa. Seu reinado é frequentemente apontado como um dos fatores que contribuíram para a crise do Antigo Regime e para as condições que levaram à Revolução Francesa.
Vários contemporâneos que conviveram de perto com Luís XV procuraram descrever sua personalidade. O Duque de Croy afirmou: "Ele tinha uma memória, presença e retidão de espírito únicas. Era gentil, um excelente pai e o indivíduo mais honesto do mundo. Era bem informado nas ciências... mas com uma modéstia que, nele, era quase um vício. Ele sempre via as coisas com mais precisão do que os outros, mas sempre acreditava estar errado... Ele tinha a maior coragem, mas uma coragem que era modesta demais. Ele nunca ousava decidir por si mesmo, mas sempre, por modéstia, recorria a conselhos de outros, mesmo quando suas opiniões eram mais precisas do que as deles... Luís XIV fora orgulhoso demais, mas Luís XV não era orgulhoso o suficiente. Além de sua excessiva modéstia, seu grande e único vício eram as mulheres; ele acreditava que apenas suas amantes o amavam o suficiente para lhe dizer a verdade. Por essa razão, ele permitia que elas o guiassem, o que contribuiu para seu fracasso financeiro, que foi o pior aspecto de seu reinado."
Outros observadores, como o Conde d'Argenson, seu Ministro da Guerra, comentaram sobre sua extrema timidez e retraimento, bem como sua incapacidade de conversar com os outros. O Duque de Luynes observou que ele frequentemente parecia querer falar, mas "sua timidez o impedia e as expressões não vinham; sentia-se que ele queria dizer algo agradável, mas muitas vezes terminava simplesmente fazendo uma pergunta frívola."
Outra característica observada pelos contemporâneos foi sua inclinação para o segredo. D'Argenson escreveu: "Ninguém era mais especialista em dissimulação do que o Rei. Ele trabalhava da manhã à noite para dissimular; não dizia uma palavra, não fazia um gesto ou uma manobra, exceto para esconder o que realmente queria."
"Ele era o mais excelente dos homens", escreveu outro contemporâneo, o Conde de Cheverny, "mas, desafiando a si mesmo, falava dos assuntos de Estado como se outra pessoa estivesse governando."
Bisneto de Luís XIV, ocupava inicialmente a quarta posição na linha de sucessão ao trono da França; contudo, em 1712, uma série de falecimentos em sua família levou-o a tornar-se o herdeiro aparente da Coroa francesa: seu pai, o Duque da Borgonha, faleceu em 12 de fevereiro, sua mãe, Maria Adelaide de Saboia, em 12 de fevereiro, e seu irmão mais velho, o Duque da Bretanha, então com apenas quatro anos de idade, em 8 de março. Luís sobreviveu apenas graças aos cuidados de sua governanta, a Duquesa de Ventadour.
Em 1714, seu tio, o Duque de Berry, também faleceu e, com sua morte, desapareceu mais um potencial sucessor da linhagem direta dos Bourbons, uma vez que o único tio sobrevivente era Filipe V da Espanha, que havia renunciado aos seus direitos ao trono francês em virtude das disposições do Tratado de Utrecht, firmado em 1713. Dessa forma, a continuidade da dinastia passou a depender inteiramente do jovem príncipe, fato que suscitou crescente preocupação na corte francesa quanto à sua saúde e sobrevivência.
Após a morte de Luís XIV, em 1 de setembro de 1715, Luís XV ascendeu ao trono da França aos cinco anos de idade; foi coroado rei em 25 de outubro de 1722, na Catedral de Reims. Devido à sua menoridade, o governo foi exercido por seu primo, Filipe II, Duque de Orleães, que assumiu a regência do reino.
Na política externa, foram mantidas as diretrizes estabelecidas por Luís XIV. A paz foi consolidada com a Grã-Bretanha, enquanto os conflitos envolvendo a Espanha continuaram por algum tempo. No âmbito interno, foi adotado o sistema financeiro idealizado por John Law, cuja implementação acabou contribuindo para uma grave crise econômica na França.
Durante sua infância e juventude, Luís XV recebeu educação do bispo André Hercule de Fleury e do marechal François de Villeroy, que exerceram grande influência em sua formação. Em 1 de outubro de 1723, o rei foi declarado maior de idade. Apesar disso, o poder político permaneceu inicialmente sob a influência do Duque de Orleães e, após a morte deste, passou para Luís Henrique, Duque de Bourbon.
A saúde frágil de Luís XV gerava preocupações quanto à sucessão dinástica. Temendo que uma eventual morte prematura do rei sem herdeiros favorecesse as pretensões ao trono francês de Filipe V da Espanha, neto de Luís XIV, o Duque de Bourbon decidiu romper o noivado de Luís XV com a infanta Mariana Vitória de Bourbon, filha do monarca espanhol. Em seu lugar, promoveu o casamento do rei com Maria Leszczyńska, filha de Estanislau Leszczyński, ex-rei da Polônia, que já possuía idade adequada para gerar descendentes. A união, celebrada em 1725, contribuiu para garantir a continuidade da dinastia Bourbon na França.
Governo do Cardeal Fleury e guerras de sucessão
Em 1726, Luís XV anunciou que passaria a governar pessoalmente o reino. Na prática, porém, a condução dos assuntos de Estado ficou sob a responsabilidade do Cardeal Fleury, seu antigo preceptor, que permaneceu como principal ministro até sua morte, em 1743. Durante esse período, Fleury exerceu grande influência sobre o governo e procurou manter o rei afastado das decisões políticas mais importantes. Sua administração foi marcada pela forte influência do clero e por uma política de estabilidade e conservação. No âmbito interno, poucas reformas significativas foram realizadas: o clero continuou a desfrutar de privilégios fiscais, enquanto os protestantes permaneceram sujeitos a restrições e perseguições; na área financeira, Fleury adotou uma política de austeridade, buscando equilibrar as contas do Estado e supervisionando rigorosamente as atividades do Ministério das Finanças.
Na política externa, procurou evitar conflitos de grande escala, embora a França tenha participado de importantes disputas europeias. Durante a Guerra de Sucessão da Polônia (1733–1738), a intervenção francesa contribuiu para que Estanislau Leszczyński, sogro de Luís XV, recebesse o Ducado da Lorena, território que seria posteriormente incorporado à França. Já na Guerra de Sucessão Austríaca (1740–1748), os exércitos franceses obtiveram vitórias iniciais contra a Áustria, mas o curso do conflito acabou se tornando menos favorável; o imperador Carlos VII, apoiado por Luís XV, foi derrotado e a arquiduquesa Maria Teresa da Áustria foi confirmada como imperatriz. Luís XV participou pessoalmente de algumas campanhas militares durante a Guerra de Sucessão Austríaca. O Cardeal de Fleury não viveu para ver o fim do conflito; ele morreu em 29 de janeiro de 1743, e depois disso Luís governou sozinho. Em 1744, durante uma visita ao exército em Metz, adoeceu gravemente, provocando grande comoção em toda a França. Sua recuperação foi celebrada com entusiasmo pela população, que passou a chamá-lo de "o Bem Amado" (em francês: le Bien-Aimé). O conflito foi encerrado pelo Tratado de Aquisgrão, em 1748. Pelo acordo, a França reconheceu os direitos dinásticos de Maria Teresa e devolveu as conquistas obtidas nos Países Baixos Austríacos, bem como os ducados de Parma e Placência, que foram atribuídos ao infante espanhol Filipe de Bourbon, genro de Luís XV por seu casamento com Luísa Isabel da França, a filha primogênita do monarca.