Elise "Lise" Meitner (/ˈmaɪtnər/; em alemão: ˈliːzə ˈmaɪtnɐ; (Viena, 7 de novembro de 1878 — Cambridge, 27 de outubro de 1968) foi uma física nuclear austríaca e sueca que desempenhou papel fundamental na descoberta da fissão nuclear.
Após concluir seu doutorado em 1906, Meitner tornou-se a segunda mulher a obter um doutorado em física pela Universidade de Viena. Passou grande parte de sua carreira científica em Berlim, onde atuou como professora de física e chefe de departamento no Instituto Kaiser Wilhelm de Química. Foi a primeira mulher a se tornar professora titular de física na Alemanha. Em 1935, perdeu seus cargos em decorrência das Leis de Nuremberg, de caráter antissemita, promulgadas pela Alemanha Nazista. A anexação da Áustria pela Alemanha, em 1938, também resultou na perda de sua cidadania austríaca. Nos dias 13 e 14 de julho de 1938, ela fugiu para os Países Baixos com a ajuda de Dirk Coster. Viveu por muitos anos em Estocolmo, tornando-se cidadã sueca em 1949, mas mudou-se para o Reino Unido na década de 1950 para ficar próxima de familiares.
Em meados de 1938, os químicos Otto Hahn e Fritz Strassmann, do Instituto Kaiser Wilhelm de Química, demonstraram que isótopos de bário podiam ser produzidos pelo bombardeamento de urânio com nêutrons. Hahn informou Meitner sobre os resultados, e, no final daquele ano, ela e seu sobrinho, o também físico Otto Robert Frisch, explicaram corretamente a física por trás do processo ao interpretar os dados experimentais obtidos por Hahn e Strassmann. Em 13 de janeiro de 1939, Frisch reproduziu experimentalmente o fenômeno observado pelos dois químicos. No artigo publicado por Meitner e Frisch na edição de fevereiro de 1939 da revista Nature, eles deram ao processo o nome de fissão. A descoberta da fissão nuclear abriu caminho para o desenvolvimento de reatores nucleares e bombas atômicas durante a Segunda Guerra Mundial.
Meitner não compartilhou o Prêmio Nobel de Química de 1944 pela descoberta da fissão nuclear, que foi concedido ao seu colaborador de longa data, Otto Hahn. Diversos cientistas e jornalistas consideraram sua exclusão do prêmio uma injustiça. De acordo com os arquivos da Fundação Nobel, ela foi indicada 19 vezes ao Prêmio Nobel de Química entre 1924 e 1948 e 30 vezes ao Prêmio Nobel de Física entre 1937 e 1967. Apesar de nunca ter recebido um Nobel, Meitner foi convidada a participar do Encontro de Laureados do Nobel de Lindau em 1962.
Ao longo de sua vida, recebeu numerosas homenagens. Entre elas está a nomeação póstuma do elemento químico de número atômico 109, o meitnério, em 1997. Meitner também foi elogiada por Albert Einstein, que a descreveu como a "Marie Curie alemã".
Nascida em Viena em 1878, em uma época em que mulheres eram fortemente desencorajadas a seguir carreiras acadêmicas, Lise Meitner destacou-se desde cedo pela curiosidade e disciplina intelectual. Ela foi a segunda mulher a obter o doutorado em Física na Universidade de Viena, concluído em 1906 sob orientação de Ludwing Boltzmann. A entrada de mulheres no ensino superior austríaco era recente, e o feito de Meitner abriu caminho para outras jovens interessadas em ciência em um ambiente ainda marcado por exclusões de gênero.
Foi a terceira de oito filhos de uma família judaica. Entrou na Universidade de Viena em 1901, onde foi aluna de Ludwig Boltzmann. Após o doutoramento partiu para Berlim, em 1907, para estudar com Max Planck e o químico Otto Hahn. Trabalhou com Hahn durante trinta anos, cada um dirigindo um departamento do Instituto Kaiser Wilhelm de Berlim. Hahn e Meitner colaboraram entre si no estudo da radioatividade, ela com seu conhecimento de física e ele com seu conhecimento de química.
Em 1918 descobriram o elemento protactínio. Em 1923 Lise descobriu a transição não radioativa que passou a ser conhecida por efeito Auger, em honra a Pierre Auger, um cientista francês que descobrira independentemente o efeito, dois anos mais tarde.
Quando a Áustria foi anexada pela Alemanha em 1938, Meitner se viu forçada a fugir da Alemanha para a Suécia (via Países Baixos e Dinamarca), onde continuou seu trabalho no Instituto Manne Siegbahn em Estocolmo, porém com poucos recursos em parte devido ao preconceito de Siegbahn contra mulheres na ciência. Hahn e Fritz Straßmann deram continuidade ao trabalho iniciado anteriormente com Meitner. Hahn escrevia para Meitner descrevendo os resultados, e mais tarde encontraram-se clandestinamente em Copenhague, em novembro, para planejar uma nova rodada de experiências. As experiências químicas da evidência da fissão nuclear foram desenvolvidas no laboratório de Hahn em Berlim e publicadas em janeiro de 1939.
Em fevereiro do mesmo ano, Meitner publicou através de uma carta à Revista Nature, junto com seu sobrinho Otto Frisch, quando esteve visitando-o na Dinamarca, a explicação física sobre o processo que denominou de fissão nuclear. Meitner provou que a divisão do átomo de Urânio (em átomos de Bário e Criptônio) libera energia e nêutrons, que por sua vez causam fissão em mais átomos liberando neutrões e assim sucessivamente, dando origem a uma série de fissões nucleares com liberação contínua de energia, num processo denominado reação em cadeia. Meitner reconheceu o potencial explosivo desse processo. Imediatamente esses resultados foram confirmados no mundo inteiro. Tal descoberta fez com que outros cientistas se juntassem para convencer Albert Einstein a escrever uma carta ao Presidente Franklin D. Roosevelt, alertando-o quanto aos riscos da Alemanha Nazista desenvolver a bomba nuclear, o que resultou no Projeto Manhattan.
Durante seus primeiros anos no Instituto Manne Siegbahn, em Estolcomo, enfrentou condições que não condiziam com sua reputação científica: recebeu apenas um cargo temporário e salário reduzido, com acesso limitado a recursos de pesquisa. Apesar dessas restrições, manteve sua produtividade científica, orientou estudantes e publicou artigos de importância internacional, mostrando resiliência em meio ao exílio.
Quando cientistas aliados iniciaram o Projeto Manhattan, Meitner foi convidada a colaborar, mas recusou. Defendia firmemente que a ciência deveria ter fins pacíficos e se negou a participar de qualquer esforço militar. Após destruição de Hiroshima e Nagasaki, declarou-se profundamente desolada, lamentando que a Fìsica nuclear tivesse sido usada como arma de destruição em massa.
Em 1944 Hahn recebeu o Prêmio Nobel de Química por sua pesquisa em fissão nuclear. Meitner foi ignorada pelo comitê (Siegmann fazia parte do comitê), principalmente porque Hahn não mencionou sua participação na pesquisa desde que ela deixou a Alemanha; muito pelo contrário, ele afirmou que seus experimentos químicos foram unicamente responsáveis por tal descoberta. Ajudantes de Meitner exigiram que fosse reconhecido que ela foi a primeira a provar através de seus cálculos a fissão nuclear, contudo não foi possível fornecer tal evidência para ajudá-la.
Apesar de sua contribuição decisiva para a compreensão da fissão nuclear, Meitner foi indicada mais de quarenta vezes ao Prêmio Nobel, tanto em Física quanto em Química, mas nunca chegou a ganhar. Historiadores da ciência apontam que sua condição de mulher, exilada e de origem judaica pesaram contra o devido reconhecimento. Esse episodio tornou-se um dos casos mais emblemáticos de injustiça na história do Nobel.
O erro cometido pelo instituto Nobel nunca foi reconhecido. Em setembro de 1966, a Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos concedeu o Prêmio Enrico Fermi a Hahn, Strassmann e Meitner por sua descoberta da fissão.
Em visita aos Estados Unidos em 1946, Meitner foi tratada como celebridade pela imprensa estado-unidense, como uma pessoa que "deixou a Alemanha com a bomba na bolsa". Ela foi eleita a "Mulher do Ano" pelo National Women’s Press Club (EUA) em 1946, e em 1949 recebeu a medalha Max Planck da Sociedade Alemã de Físicos.
O elemento 109 da tabela periódica foi nomeado "meitnério" (Mt) em sua homenagem pela IUPAC. Muitas pessoas consideram Lise Meitner a "mulher mais importante na ciência do século XX".