Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni • OMC (São Paulo, 13 de setembro de 1927) é uma atriz brasileira. Frequentemente referenciada como uma dama da dramaturgia brasileira, é pioneira na televisão, atuando desde sua inauguração, em 1950. É uma das atrizes que mais participaram de telenovelas, com mais de 100 trabalhos no currículo. Os prêmios de Cardoso incluem três Prêmios Grande Otelo, cinco Prêmios APCA, dois Prêmios Shell e dois Troféus Imprensa. Em 2006, foi condecorada com a Ordem do Mérito Cultural em reconhecimento à sua contribuição artística para o Brasil.
A carreira de Laura teve início no rádio, atuando em radionovelas na década de 1940. Com a inauguração da televisão no Brasil, tornou-se uma das primeiras contratadas da TV Tupi, participando de seus teleteatros e trabalhando com alguns dos principais diretores do país. Na televisão, sua carreira começou em 1954, após um convite da amiga Vida Alves para integrar o programa Tribunal do Coração, produzido por ela. Estreou em telenovelas em 1958 como Cosette de Os Miseráveis, da Tupi. Desde então, trabalhou nas principais emissoras do Brasil, como Band, TV Cultura, Record e Globo — onde permanece desde 1983 —, além das extintas TV Excelsior, TV Rio e Rede Tupi.
Durante as décadas de 1950 e 1960, destacou-se em teleteatros e novelas da TV Tupi, participando também da primeira novela diária da emissora, Quando o Amor É Mais Forte (1964). Entre 1968 e 1973, integrou o elenco da TV Record, atuando em produções como As Pupilas do Senhor Reitor e Os Deuses Estão Mortos. Retornou à Tupi em 1974, onde permaneceu até o encerramento da emissora, em 1980, destacando-se em novelas como Ídolo de Pano e João Brasileiro, o Bom Baiano. Em 1981, estreou na TV Globo na novela Brilhante, a convite de Daniel Filho. Dois anos depois, foi contratada pela emissora por intermédio de Walther Negrão, atuando em Pão Pão, Beijo Beijo. Desde então, consolidou uma longa trajetória na Globo, com mais de 20 novelas e diversas participações especiais.
Ao longo de sua extensa carreira, construiu uma das mais ricas e variadas galerias de personagens da televisão brasileira, marcando presença em produções de grande sucesso e alcançando diferentes gerações de espectadores. Entre os papéis de destaque estão Marta, a amiga leal e confidente de Malu Mader em Fera Radical (1988); Dona Cândida, a mãe dedicada de Tony Ramos em Felicidade (1991–1992); e a carismática Dona Lila no seriado Mundo da Lua (TV Cultura), como vizinha da família Silva e Silva. Nos anos seguintes, brilhou em grandes remakes da década de 1990, como Mulheres de Areia, interpretando Dona Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, e A Viagem, vivendo Dona Guiomar, personagem que sofre forte transformação ao ser influenciada pelo espírito de Alexandre. Já nas últimas décadas, destacou sua versatilidade em papéis muito distintos, como a guerreira Sinhana em Irmãos Coragem, a vigarista Tia Ruth em Salsa e Merengue, a doce Dona Carmem em Chocolate com Pimenta, a rígida Laksmi em Caminho das Índias e a falsa moralista Dorotheia no remake de Gabriela, consolidando sua reputação como uma das atrizes mais completas da dramaturgia brasileira.
Cardoso estreou no teatro aos 32 anos, em 1959, na peça Plantão 21, dirigida por Antunes Filho, após já ter se consolidado no rádio e na televisão. Apesar do início tardio nos palcos, construiu uma carreira teatral de grande reconhecimento, marcada por atuações expressivas e parcerias com importantes nomes do teatro brasileiro. Sua trajetória no teatro foi premiada com dois Prêmios Shell de Melhor Atriz: o primeiro por Vem Buscar-Me que Ainda Sou Teu (1990), de Carlos Alberto Soffredini, e o segundo por Vereda da Salvação (1993), de Jorge Andrade, também sob direção de Antunes Filho.
Nascida em 13 de setembro de 1927, no bairro do Bixiga em São Paulo, Laurinda de Jesus Cardoso é filha de imigrantes portugueses. Desde a infância, entre 6 e 7 anos, brincava de teatro transformando caixotes de madeira em palco e encenado para sua avó, a primeira espectadora de Laurinda. Ela e uma amiga do bairro vestiam fantasias e fingiam que iam pegar o bonde. A encenação esteve presente em suas veias desde a infância. "Toda noite a gente vestia a roupa, botava o chapéu, o anel, o brinco da mãe da menina, sentava na calçada e esperava o bonde. Então, a gente brincava, subia no bonde e descia correndo. Esse era o nosso teatrinho de toda noite", relembra Cardoso em depoimento ao projeto Memória Globo.
O interesse de Laura pelas artes dramáticas nasce da relação com a literatura. Ainda criança, em um colégio de freiras, passa a ler histórias para as colegas de classe, experiência que desperta o prazer pela interpretação graças à receptividade das alunas e ao incentivo das professoras. Já na adolescência, ao iniciar a trajetória nas rádios, desenvolve com mais intensidade a imaginação e a expressividade necessárias para dar vida a textos construídos essencialmente pela voz.
Ainda jovem, enfrentou o pai e, sobretudo, a mãe, para tentar carreira nas rádios atuando nas famosas radionovelas. A profissão era muito mal vista à época. Com apenas quinze anos de idade, em 1942, decidiu trilhar sua carreira artística na Rádio Cosmos. Por exigência da profissão, tornou-se mais conhecida como Laura Cardoso. Nesse período, também atua no teatro infantil e no circo popular, além de passar por outras emissoras de rádio, como a Cultura e a Tupi.
Pioneirismo na televisão (1950—1969)
Após o período como atriz de rádio, logo foi chamada para atuar na televisão em 1950. A recém inaugurada TV Tupi exibia teleteatros ao vivo e Laura Cardoso já estava presente no programa Teatro de Walter Forster, que exibia a peça "A Prostituta e o Santo Homem". Em 1952, atuou no programa Tribunal do Coração, escrito por Vida Alves, adaptando-se assim ao novo veículo de comunicação. Em 1953, participa do elenco de Hamlet, dirigido por Dionísio Azevedo, na primeira experiência com videotape da televisão brasileira. Nesse período, contracena com nomes como Lima Duarte, Lolita Rodrigues, Rolando Boldrin e Vida Alves. Posteriormente, ela apareceu em inúmeros programas da emissora que apresentavam adaptações de textos da literatura brasileira e mundial, como a TV de Vanguarda (1955), TV de Comédia (1957) e o Grande Teatro Tupi (1957). Ela passou a integrar o elenco das telenovelas da emissora, vivenciando o auge da teledramaturgia brasileira, estando em uma adaptação de Os Miseráveis (1958), no papel de Cosette, Um Lugar ao Sol (1959), como Ana Maria, e Há Sempre o Amanhã (1960), onde interpretou Clara.
Em 1959, aos 32 anos, estreia profissionalmente nos palcos do teatro adulto após ter consolidado uma carreira como atriz de rádio e televisão. Laura encenou a peça Plantão 21, dirigida por Antunes Filho, e sua estreia tardia nos palcos do teatro foi recebida com "expressividade e louvor" pela crítica. De volta à televisão, deu continuidade aos seus trabalhos na Tupi como em Prelúdio, a Vida de Chopin (1962), A Noite Eterna (1962) e Sublime Aventura (1963). Em Moulin Rouge - A Vida de Toulouse-Lautrec (1963), destacou-se no papel da Condessa L'amour, sob a direção de Geraldo Vietri, que lhe rendeu o Troféu Imprensa de Melhor Atriz. Neste período, Cardoso fez sua estreia no cinema atuando na cinebiografia O Rei Pelé, com direção de Carlos Hugo Christensen, a qual abordava a vida do jogador de futebol Pelé.
Cardoso estrelou a novela Gutierritos, o Drama dos Humildes (1964) ao lado de Lima Duarte no papel de Rosa. No entanto, por motivos de saúde, precisou sair da produção e foi substituída por Wanda Kosmo. Ela foi escalada no mesmo ano para a novela Quando o Amor é Mais Forte, de Pola Civelli, sendo esta sua primeira novela exibida diariamente na televisão, e sua personagem teve bastante destaque na época. A atriz conseguiu o feito de tornar sua personagem coadjuvante popular em um período onde somente os casais de protagonistas tinham muita importância. Durante as gravações dos capítulos finais, Cardoso mais uma vez esteve mal de saúde chegando a desmaiar no estúdio e ser socorrida por seus colegas. Em razão disso, as gravações da novela foram adiadas até que a atriz retomasse suas condições de saúde.