Julio Zanotta Vieira (Pelotas, 18 de agosto de 1950 – Porto Alegre, 19 de novembro de 2024) foi um dramaturgo, contista e romancista brasileiro.
Reconhecido como um dos dramaturgos mais representativos do Rio Grande do Sul, foi autor de peças notáveis pela sua contundência, marcadas pela paródia e iconoclastia. Foi um dos fundadores do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, referência no teatro porto-alegrense. Entre suas obras mais reconhecidas, está a premiada Milkshakespeare.
Ao longo de sua carreira, publicou mais de uma dezena de livros, entre romances e novelas ficcionais.
Devido ao caráter controverso e contestador de sua obra, foi perseguido pela ditadura militar e pela censura.
Julio Zanotta cresceu na cidade de Pelotas, em meio às antigas obras das bibliotecas pessoais de sua avó e de seu pai, o que contribuiu para seu apreço pela literatura desde a infância. Durante esse período, abdicou das brincadeiras de rua com outras crianças para ler uma série de obras clássicas, tendo, aos nove anos, lido O Amante de Lady Chatterley, obra que impactou diretamente sua formação pessoal.
Seus distúrbios de conduta resultaram em consultas psiquiátricas desde a infância, e, aos onze anos, ele foi internado em uma clínica por seus pais.
Iniciou sua carreira de escritor ainda na adolescência, e, já residindo em Porto Alegre, aos 19 anos, obteve sua primeira conquista profissional quando seu conto "Pequeno" foi vencedor da primeira edição do Prêmio Vivita Cartier, realizado em Caxias do Sul, em 1969.
Aos 20 anos, já era jornalista do Diário de Notícias e cursava Filosofia. Nesse período, envolveu-se com movimentos estudantis e deixou o país em 1973 por problemas políticos.
Zanotta envolveu-se com o teatro na segunda metade da década de 1970, fundando em Porto Alegre o grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, do qual fez parte até 1978. Escreveu e dirigiu peças até 2019, apresentando-as no Brasil e em países da América Latina. Devido ao caráter anárquico e contestador de suas peças, foi censurado e perseguido durante a ditadura militar.
Durante a década de 1990, em meio à sua carreira no teatro, abriu sua própria livraria, Ao Pé da Letra. Tornou-se reconhecido como um dos livreiros mais respeitados da capital gaúcha e publicou suas primeiras obras de ficção. Nesse período, também coordenou a Feira do Livro de Porto Alegre e foi presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro. Em 2023, retornou ao segmento ao inaugurar a Livraria Absurda, em Porto Alegre.
Faleceu no dia 19 de novembro de 2024, por conta de um câncer de fígado.
Julio Zanotta teve quatro filhos, com quatro mulheres diferentes. É pai do cineasta Bernardo Zanotta.
1978-1979: As primeiras peças teatrais
Na segunda metade da década de 1970, Julio Zanotta fundou o grupo teatral Ói Nóis Aqui Traveiz e alugou o espaço que foi palco para as apresentações do grupo. Durante esse período, ele escreveu as primeiras peças encenadas pelo grupo em 1978: A Divina Proporção e A Felicidade Não Esperneia Patati-Patatá.
O caráter anárquico e caótico dessas obras, em pleno contexto de repressão militar, rapidamente atraiu a atenção tanto da crítica especializada quanto das autoridades locais, que acabaram interditando o espaço de apresentações do grupo.
No ano seguinte, após deixar o grupo, Zanotta buscou uma nova proposta teatral, apostando em recursos técnicos e a contratação de atores profissionais. Em agosto de 1979, estreou no Teatro Renascença, em Porto Alegre, com a peça A Libertação do Diretor Presidente, uma obra que abordava temas como fome e marginalização social, ambientada em um cenário ilustrado pela artista Maria Lídia Magliani.
O espetáculo foi bem recebido pela crítica, e Catulo Parra, que integrava o elenco, recebeu o Prêmio Açorianos de Melhor Ator em 1979.
1980-1982: As Cinzas do General e a apresentação de Marília no exterior