Judit Polgár (Budapeste, 23 de julho de 1976) é uma Grande Mestre de Xadrez húngara, considerada a mais forte jogadora de xadrez da história.
Em 1991, tornou-se a pessoa mais jovem a conquistar o título de Grande Mestre Internacional, aos 15 anos e quatro meses, batendo o recorde do ex-campeão mundial Bobby Fischer. Também foi a enxadrista mais jovem a entrar na lista dos 100 melhores jogadores da FIDE, ocupando a 55ª posição em janeiro de 1989, aos 12 anos de idade. Ela é a única mulher a ter sido uma candidata ao título do Campeonato Mundial de Xadrez absoluto, o que ocorreu no Campeonato Mundial de Xadrez de 2005. Judit foi a primeira e única mulher a ultrapassar os 2 700 pontos no sistema de Rating Elo, atingindo seu auge com 2735 pontos, oitava na lista, em julho de 2005. Ela foi a mulher nº 1 no mundo de janeiro de 1989 até sua aposentadoria, em 13 de agosto de 2014. Seu currículo contém vitórias notáveis contra grandes nomes da história do xadrez mundial como Garry Kasparov, Vasily Smyslov, Boris Spassky, Anatoly Karpov, Veselin Topalov e Viswanathan Anand. Sua vitória contra Kasparov, em 2002, marcou a primeira vitória de uma mulher contra um então campeão mundial.
Judit nasceu em 23 de julho de 1976, em Budapeste, cidade húngara, que então fazia parte do bloco socialista. Ela e suas duas irmãs mais velhas, Susan e Sofia (que também se tornaram mestras de xadrez), fizeram parte de um experimento educacional conduzido por seu pai, László Polgár, na tentativa de provar que as crianças poderiam fazer realizações excepcionais se treinadas em um assunto especializado desde muito cedo. “Gênios são feitos, não nascem”, era a tese de László. Ele e sua esposa, Klára, educaram as três filhas tendo o xadrez como disciplina especializada. László também ensinou as meninas a língua internacional Esperanto.
Tradicionalmente, o xadrez era uma atividade dominada por homens, e as mulheres eram frequentemente vistas como jogadoras inferiores, por isso afirmava-se que teriam chances apenas em competições femininas. Porém, desde o início, László foi contra a ideia de que suas filhas tivessem que participar apenas de eventos exclusivamente femininos. “As mulheres são capazes de alcançar resultados semelhantes aos dos homens nas atividades intelectuais”, escreveu ele, "O xadrez é uma forma de atividade intelectual, então isso se aplica ao jogo. Consequentemente, rejeitamos qualquer tipo de discriminação a esse respeito". Isso colocou a intenção de Pólgar em conflito com a Federação Húngara de Xadrez da época, cuja política defendia que as enxadristas deveriam jogar em torneios exclusivos para mulheres. A irmã mais velha de Judit, Susan, foi a primeira a desafiar a burocracia da Federação, jogando em torneios masculinos e recusando-se a jogar torneios femininos. Em 1985, quando Susan era uma Mestra Internacional de 15 anos de idade, ela afirmou que foi devido a esse conflito com a Federação que lhe foi negado o título de Grande Mestre, apesar de já ter conquistado as normas para tal.
Judit Pólgar poucas vezes competiu em eventos exclusivos para mulheres, e nunca participou da disputa pelo Campeonato Mundial Feminino de Xadrez. "Eu sempre digo que as mulheres devem ter a autoconfiança que são tão boas jogadoras quanto os homens. Para isso, porém, devem estar dispostas ao estudo árduo e levar o jogo tão a sério quanto os jogadores masculinos". Além do próprio László Polgár ter sido um excelente treinador de xadrez, ele contratou jogadores profissionais para treinar suas filhas, incluindo o campeão húngaro Tibor Florian, e os Grandes Mestres Pal Benko e Alexander Chernin. Susan Polgár, a mais velha das irmãs, cinco anos a mais que Sophia e sete a mais que Judit, foi a primeira a se destacar, conquistando vários torneios; em 1986, ela era a mulher número um do mundo. No início, Judit tinha um treinamento separado das irmãs mais velhas, o que acabava despertando ainda mais sua curiosidade pelo jogo. Depois de algum tempo, Judit já conseguia encontrar as soluções para os exercícios que as outras irmãs estavam estudando e logo ela passou a estudar em grupo com elas. Em uma manhã, Susan estava estudando um problema de final de jogo com seu treinador, um forte mestre internacional, como não conseguiam encontrar a solução, resolveram acordar Judit, que ainda dormia. Ainda sonolenta, Judit rapidamente mostrou a eles como resolver o problema e então foi levada de volta para cama para terminar seu sono. O experimento educacional de László Polgár produziu uma família com uma Mestra International e duas Grandes Mestres, fortalecendo o argumento do adquirido sobre o inato, além de provar que mulheres podem se tornar grandes mestres no xadrez.
Treinada nos primeiros anos por sua irmã Susan (que se tornou campeã mundial feminina e também Grande Mestre) Judit Polgár era um prodígio no xadrez desde muito cedo. Aos 5 anos de idade, ela derrotou um amigo da família sem olhar o tabuleiro, apenas imaginando e dizendo as jogadas. Depois da partida, o amigo brincou: "Você é boa no xadrez, mas eu sou um bom cozinheiro." e Judit retrucou: "Você cozinha sem olhar o fogão?". Contudo, de acordo com Susan, Judit talvez nem fosse a mais talentosa das irmãs: "Judit começou lentamente, mas era muito dedicada ao trabalho". Polgár se descrevia naquela época como uma "obcecada" pelo xadrez. Ela derrotou pela primeira vez um Mestre Internacional aos 10 anos. e um grande mestre aos 11.
Judit começou a jogar torneios aos 6 anos, e aos 9, seu rating na Federação Húngara já era de 2 080. Em abril de 1986, aos 9 anos, Judit jogou sua primeira competição nos EUA, terminando em primeiro lugar na seção para jogadores sem rating (da Federação dos EUA) do Aberto de Nova York, o que lhe valeu um prêmio de mil dólares. As três irmãs Pólgar competiram. Susan, com 16 anos na época, participou da seção para grandes mestres e venceu uma partida contra o GM Walter Browne. Sofia, com 11 anos, terminou em segundo lugar na sua seção. Judit venceu suas primeiras sete partidas, empatando o jogo final. A seção sem rating tinha forte jogadores de outros países, que ainda não haviam jogado nos EUA. Milorad Boskovic descreveu uma conversa que teve com um dos adversário de Judit, um jogador iugoslavo de força avançada: "Ele achava que teria chances na partida, uma vez que ele não acrditava que ela atacava tão bem".
Em abril de 1988, Polgár conquistou sua primeira norma de mestre internacional, em outra edição do Aberto de Nova York. Em agosto de 1988, ela venceu o campeonato mundial sub-12, jogando na categoria "masculina", em Timișoara, Romênia. Em outubro de 1988, ela venceu um torneio com mestres e grandes mestres em Londres, meio ponto a frente do GM Yair Kraidman. E também terminou em primeiro lugar no Aberto de Hastings. Com esses resultados, ela completou as normas para obter o título de Mestre Internacional, a mais nova pessoa a conseguir tal feito. Tanto Bobby Fischer como Garry Kasparov tinham 14 anos quando receberam o mesmo título; Polgár o conquistou aos 12. Foi nessa época que o ex-campeão mundial Mikhail Tal afirmou que Judit tinha potencial para vencer o campeonato mundial absoluto.
Em novembro de 1988, Judit e suas irmãs fizeram parte da equipe feminina da Hungria na Olimpíada de xadrez de 1988 em Tessalónica. Naquela época, a FIDE não permitiu que elas fizessem parte da equipe masculina. A equipe feminina da Hungria ganhou a medalha de ouro com a União Soviética sendo derrotada pela primeira vez. Judit jogou no 2º tabuleiro, conseguindo 12 vitórias em 13 partidas e conquistando a medalha de ouro individual. Ela também obteve o prêmio de melhor partida contra Pavlina Angelova.
Em janeiro de 1989, aos 12 anos de idade, Judit tinha um rating de 2 555, o que a colocava como número 55 do mundo.
A revista British Chess Magazine afirmou que "Os recentes resultados de Judit Polgár fazem das performances de Bobby Fischer e Kasparov em uma idade simular algo pálido e sem graça". o GM Nigel Short chamou Judit de "um dos maiores prodígios do xadrez da história". Kasparov, de forma rude, entretanto, expressou sua visão preconceituosa sobre as capacidades das mulheres: "Ela tem um talento fantástico para o xadrez, mas no fim das contas ela é uma mulher. Tudo se resume às imperfeições da psique feminina. Nenhuma mulher consegue sustentar uma batalha prolongada." Anos mais tarde, entretanto, depois de perder uma partida para Judit, Kasparov demonstrou outra opinião: "Ela mostrou que não há limites inatos para sua aptidão, algo que muitos jogadores homens se recusaram a aceitar, até que foram esmagados sem cerimônia por uma garotinha de 12 anos com rabo de cavalo".