Juan Alberto Schiaffino Villano (Montevidéu, 28 de julho de 1925 — Montevidéu, 13 de novembro de 2002) foi um futebolista uruguaio que jogava como meia-armador. Schiaffino celebrizou-se como o grande gênio da Seleção Uruguaia campeã da Copa do Mundo de 1950 em cima do Brasil em pleno Maracanã. Foi inclusive dele o primeiro gol uruguaio na histórica vitória de virada celeste.
Schiaffino, que também destacou-se na Copa do Mundo de 1954, era um ponta-de-lança de toques rápidos e arremates precisos, sabendo jogar também como centroavante e ponta-direita. Era bom cabeceador e ambidestro, tendo uma técnica refinada e andar elegante mas sem ostentações, possuía visão de jogo e inteligência tática incomuns, ainda que seu estilo rendesse uma minoria de detratores: no início, por driblar demais e depois por aparentar pouca vibração, não sendo de gastar energias em vão.
De origens italianas, ele defenderia também a Itália e poderia ter jogado pela Azzurra a Copa do Mundo de 1958, mas o país não se classificou. Foi também campeão nas três equipes que defendeu: Peñarol, Milan e Roma. É considerado o maior futebolista que o Uruguai já teve, sendo assim eleito para o século XX pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol, que, para o mesmo período, classificou-o também como o 17º maior jogador do mundo e o sexto maior da América do Sul.[carece de fontes?] As revistas Guerin Sportivo (italiana), FourFourTwo (britânica), Placar (brasileira) e World Soccer (britânica) respectivamente elegeram-no, a nível mundial para o mesmo século, na 8º, 46ª, 63ª e 68ª colocações em listas similares.
Um dos maiores ídolos do Peñarol, Schiaffino também é considerado o uruguaio de maior sucesso no futebol italiano, assim como um dos principais ídolos históricos do Milan. Curiosamente, ele jamais jogou a Copa América. Se Obdulio Varela tornou-se emblema da superação uruguaia no Maracanaço e Alcides Ghiggia ficou marcado como o iluminado do gol do título, Schiaffino foi "o imponderável que acabou com todas as pretensões do Brasil", nas palavras do treinador derrotado, Flávio Costa.
Era filho de um uruguaio, Raúl Gilberto Schiaffino, que tinha origens na região italiana da Ligúria, com uma paraguaia, María Eusebia Villano. Uma tia materna foi quem criou seu apelido de Pepe, referindo-se à palavra italiana para pimenta, pois Schiaffino era bastante inquieto. Seus primeiros jogos como juvenil se deram no clube Palermo, alternando as práticas esportivas com o trabalhos temporários como os de padeiro e de operário em uma fábrica de alumínio - "eu não tinha profissão, trabalhava aqui e ali", ele explicaria. Do Palermo rumou ao Olimpia, equipe que deu origem ao River Plate uruguaio em 1933.[carece de fontes?] Chegou a ter uma breve passagem pelo Nacional ainda nos juvenis, rumando em 1943 ao rival Peñarol. Foi levado à equipe aurinegra pelo irmão mais velho, Raúl Schiaffino.
O irmão Raúl também foi um destacado futebolista. Foi promovido ao time adulto do Peñarol em 1944 e já no ano seguinte foi o artilheiro do campeonato uruguaio de 1945,[carece de fontes?] bem como a principal figura da temporada. O Peñarol foi campeão e Raúl, apelidado de El Toto, fez 46 gols no ano, considerando amistosos. Naquele mesmo ano, Raúl estreou pela seleção uruguaia, em julho, defendendo-a até fevereiro do ano seguinte, sendo titular na Copa América de 1946.[carece de fontes?]
Campeão também em 1944, ano em que o Peñarol desfez domínio de cinco anos do rival Nacional no campeonato uruguaio,[carece de fontes?] desempenho de Raúl havia permitido ao Peñarol recuperar-se também social e financeiramente, com o número de sócios saltando de oito mil em 1943 para vinte mil em 1947. Neste ano, porém, Raúl precisou parar de jogar ainda aos 23 anos de idade, em função de reiteradas lesões. Mesmo quando era a grande estrela, dizia-se que o irmão mais jovem era ainda melhor. Ambos puderam jogar juntos escassas vezes. Uma delas foi pela seleção. Pois Juan conseguiu o feito de estrear nela antes mesmo de estrear no time principal do Peñarol.
Schiaffino estreou no time principal do Peñarol na temporada de 1946. Enquanto o irmão Raúl era o centroavante titular, Juan logo tornou-se o meia-esquerda mais utilizado pelo clube em uma temporada de queda de desempenho da equipe, vice-campeã. Fez 13 gols em 23 partidas. No ano seguinte, o título uruguaio novamente não veio. Raúl precisou parar de jogar, enquanto Juan alternou-se na titularidade com Oscar Chirimini. Mas, segundo o próprio jogador, "somente em 1947 me firmei como um jogador de primeira divisão".
Em 1948, ele passou à meia-direita. Foi o ano em que o Peñarol contratou Alcides Ghiggia, Óscar Míguez e Juan Hohberg. Porém, uma longa greve paralisou o campeonato após a primeira rodada do segundo turno. Ela só veio a se encerrar em abril do ano seguinte. O título foi então dado a quem era líder, o rival Nacional.
Em 1949, porém, o Peñarol terminou campeão de modo arrasador ainda que sem nenhum novo jogador relevante, tendo como grande reforço o técnico húngaro Emérico Hirschl. Em maio, escalou-se pela primeira vez o quinteto ofensivo formado por Ghiggia na ponta-direita, Hohberg na meia-direita, Míguez de centroavante, Schiaffino na meia-esquerda e o ítalo-argentino Ernesto Vidal na ponta-esquerda. Deles, somente Hohberg não pôde ir à Copa do Mundo FIFA de 1950, com sua naturalização sendo concedida apenas posteriormente, ao contrário da de Vidal.
A estreia do quinteto ocorreu em goleada por 5-1 sobre o Sud América. Foi o marco inicial de um ataque apelidado de "Esquadrilha da Morte". O time como um tudo foi por sua vez apelidado de La Máquina del 49. O título veio com uma campanha invicta, com 16 vitórias, 2 empates, 62 gols a favor e 17 contra. Considerando amistosos, foram 113 gols em 32 partidas, em média de três gols e meio por jogo. Apenas uma vez o clube foi derrotado naquele ano, em amistoso com o time argentino do Huracán. Foram conquistados 52 dos 54 pontos em disputa. Schiaffino, curiosamente, chegou a jogar até de zagueiro, improvisação que fez-se necessária em partida contra o Rampla Juniors. O zagueiro Washington Ortuño fraturou-se no início contra um adversário e na época não haviam substituições. Com El Pepe na defesa, o Peñarol ganhou do mesmo jeito.
A campanha foi tão avassaladora que três adversários abandonaram o campo: o Liverpool uruguaio, o Rampla Juniors e, na ocasião mais famosa, o rival Nacional, no que ficou conhecido como El Clásico de la Fuga, pois os tricolores, temendo uma goleada, não retornaram à partida após o intervalo. Estavam perdendo por 2-0 e tinham dois jogadores expulsos. O primeiro gol veio já aos 37 minutos do primeiro tempo e foi uma mostra da inteligência de Schiaffino: ele buscou o arremate após rebote do goleiro Aníbal Paz. A bola voltou a rebater no adversário, dessa vez em Rodolfo Pini, voltando a Schiaffino. Ele estava em boa posição para chutar novamente, mas notou Ghiggia livre e preferiu passar-lhe a bola. Ghiggia então acertou um chute forte para abrir o placar. Ainda houve tempo para um segundo gol no primeiro tempo, oriundo de um pênalti cujas reclamações antes e depois da cobrança geraram as expulsões dos adversários Eusebio Tejera e Walter Gómez. Tejera estaria na Copa do Mundo FIFA de 1950, mas Gómez não, punido com longa suspensão em função dessa expulsão.
A respeito daquele ataque, considerado o melhor da história do futebol uruguaio, e daquele elenco como um todo, que Schiaffino defenderia como superior ao internacionalmente vitorioso da década de 1960 ("antes havia poucos torneios internacionais, mas sem desmerecer ao Peñarol dos anos 60, que tinha grandes jogadores, eu creio que se tivéssemos tido as mesmas oportunidades de competição, teria transcendido o Peñarol de 1949 no mundo"), explicaria assim para o Libro de Oro de Peñarol:
O papel de Don Emérico Hirschl era fundamental, pois treinava e dirigia, é dizer: nos preparava fisicamente e nos posicionava em campo. Nem todos os jogadores fazíamos o mesmo trabalho físico e era frequente que eu desse umas voltas no campo e praticasse pouco futebol. (...) Jogávamos em WM e a base do êxito, falando de 1949, estava na grande efetividade. O Peñarol de 1949 era uma equipe que contava com dois pontas muito velozes e atentos à mudança de frente, o que abria brechas para a contundência dos demais - e a deles - de um ataque que tinha tudo: velocidade, tática, habilidade e potência. O líder era o diálogo e o valor individual dos jogadores, dúcteis e possuidores de recursos técnicos e táticos; por exemplo, Míguez ia atrás buscar o jogo (...). O mesmo eu, que também atendia a saída desde o meio-campo e a chegada dos pontas e seus cruzamentos. Minha função pode definir-se como volante ofensivo, mas as características de trinta anos atrás não são as atuais. (...) Para a época, era uma equipe fácil, efetiva e de preparação aceitável. A melhor lembrança do Peñarol de 1949 era a segurança com que arrasamos os campeonatos locais. Na defesa, as coisas não eram muito parelhas, primando também as individualidades para alcançar um rendimento efetivo. Mas a tranquilidade que tínhamos à frente era absoluta: cada fim de semana era uma festa