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José Murilo de Carvalho

Cientista político, historiador, professor e intelectual brasileiro

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José Murilo de Carvalho (Piedade do Rio Grande, 8 de setembro de 1939 — Rio de Janeiro, 13 de agosto de 2023) foi um cientista político, historiador, professor universitário e escritor brasileiro, eleito para a Academia Brasileira de Letras de 2004. Foi definido pela Universidade Federal de Minas Gerais, onde estudou e ensinou, como um dos maiores intelectuais do Brasil e um grande defensor da democracia.

Seus antepassados maternos e paternos vieram para Minas Gerais durante a forte migração dos minhotos para o estado no século XVIII. Envolveram-se no cultivo de cereais e na criação de gado leiteiro, fixados no Campo das Vertentes. Nascido no meio rural, José Murilo não fez o curso primário. Foi alfabetizado pelo pai e viveu na fazenda até os 10anos, quando passou por três internatos franciscanos em sequência: em Santos Dumont, depois perto de Garibaldi, no Rio Grande do Sul, e o último em Divinópolis.

Tentou o vestibular para a Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mas não foi aprovado, então decidiu seguir outra direção. Graduou-se em Sociologia e Política pela UFMG em 1965, ao que se seguiu seu mestrado em Ciência Política pela Stanford University (1969), onde também concluiu seu doutorado em Ciência Política (1975). Em 1977, concluiu seu pós-doutorado também em Stanford e em 1982 na University of London.

Atuou como professor na UFMG (1969-1978), no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ) por quase vinte anos (1978-1997), professor visitante na Universidade de São Paulo (1º semestre de 1992) e no Museu Nacional (2º semestre de 1992). Pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa (1986) e no CPDOC/Fundação Getúlio Vargas (1994-1995). Desde 1997, José Murilo era professor titular de História do Brasil no Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi diretor da Associação de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), entre 1978 e 1980.

Além de inúmeras palestras no exterior, foi membro do Instituto de Estudos Avançados de Princeton (1980-1981); Visiting Latin American Scholar, Universidade de Londres, 1981-82; Senior Associate Fellow, Universidade de Oxford (janeiro-março de 1982); pesquisador visitante na Universidade de Leiden, Holanda, e Maison des Sciences de l’Homme, Paris (abril-maio 1982); pesquisador visitante, Centre d’Etude des Mouvements Sociaux, Paris (1985); Maître de Conférence, École des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Paris (maio de 1989); Distinguished Visiting Professor, Departamento de História, Universidade da Califórnia em Irvine (janeiro-março de 1990); Visiting Professor, Universidade de Leiden, Holanda (dezembro de 1992/março de 1993); Nabuco Visiting Professor, Universidade de Stanford, 1999; Visiting Chair in the Study of Brazilian Culture, Universidade de Notre Dame, 2002.

Além de diversos livros, desde a década de 1980, Carvalho colaborava regularmente com a imprensa com artigos e entrevistas. Dada a abrangência de sua obra e de suas intervenções públicas, ele era considerado por outros pesquisadores como um dos últimos grandes intérpretes do Brasil.

José Murilo estava internado no Hospital Samaritano com Covid-19 e morreu durante a madrugada de 13 de agosto de 2023. Foi velado no dia seguinte, na sede da ABL, e sepultado no Mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista.

Temas de pesquisa e carreira literária

Publicou e organizou 19 livros e mais de cem artigos em revistas. É autor de livros considerados marcos da historiografia brasileira. Sua tese foi publicada em dois livros, considerados marcos da historiografia do Império, A construção da ordem: A elite política imperial e Teatro de sombras: A política imperial, os quais tratam da formação do Brasil como nação, a partir das decisões tomadas pelas elites do país. Foram os primeiros textos a usar dados e documentos para mostrar como se constituiu o Estado brasileiro e como se consolidaram as elites imperiais. Carvalho interpretou a formação da burocracia do período, a continuidade com o sistema português e a manutenção da unidade territorial do país.

Carvalho também analisou aqueles que estavam excluídos do processo decisório, conforme o título de um de seus principais livros, Os bestializados. O Rio de Janeiro e a República que não foi, além de A formação das almas: O imaginário da República no Brasil, sobre a implantação do regime republicano. Os livros Às armas, cidadãos e Guerra literária: Panfletos da Independência também ajudaram à luz a atuação daqueles que não detinham poder no momento decisivo da Independência.

José Murilo dedicou-se ao estudo da construção da cidadania no Brasil, ressaltando suas especificidades. Com Cidadania no Brasil: O longo caminho, investigou como a cidadania foi construída “de cima para baixo”, com grande peso do Estado, mas também destacando as resistências da população desde o século XIX, movimentos que denotavam sua luta política. Pensando também a questão da cidadania na atualidade, em sua opinião, “o cidadão vota racionalmente, mas preso ao mundo da necessidade. É um voto que tem limitações decorrentes da desigualdade social”. E acrescentou: "há uma questão de dependência do Estado”.

Um tema, antes em segundo plano em sua produção, a atuação política dos militares em vários momentos da história republicana brasileira, veio à tona com Forças Armadas e política no Brasil. Em 2015, observando um discurso do então comandante militar do Sul, general Hamilton Mourão, alertou que “As manifestações públicas do general Mourão (…) podem ser sintoma do surgimento do único perigo real para nossas instituições, o envolvimento político das Forças Armadas, um retrocesso de 30 anos”. Diante da radicalização difundida pelas redes sociais, em 2019, ele diagnosticou como a polarização afasta o país do rumo de crescer e compartilhar riqueza. Naquele ano, motivado pela chegada à Presidência do ex-capitão Jair Bolsonaro, o historiador relançou Forças Armadas e política no Brasil com um capítulo suplementar. Ele ainda chamou o presidente de "um bronco, totalmente inculto".

No ano do bicentenário da Independência, quando coordenava a série “200 anos de Brasil na ABL”, o Imortal tanto apontou que era uma data onde havia "pouco a celebrar, muito a questionar", quanto concedeu uma entrevista na sede da ABL, onde afirmou que não havia nada a celebrar nos 200 anos da Independência e refletiu sobre as causas das desigualdades no Brasil. Respondendo se o Brasil ainda é o país do futuro,Não, não é. Não enxergo um futuro bom para o país, os dados não fecham. Creio, e aí já é talvez exagerado, que o Brasil não será um grande país no futuro e também não será capaz de construir um país de renda média, como a Espanha. Estou pessimista.

A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória. Rio de Janeiro: FINEP/Cia Editora Nacional, 1978. 2ª edição, UFMG, 2002.

A construção da ordem: a elite política imperial. Rio de Janeiro: Campus, 1980.

Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. Prêmio melhor livro em ciências sociais de 1987 da ANPOCS.

Teatro de sombras: a política imperial. São Paulo: Edições Vértice, 1988.

A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. Prêmio Banorte de Cultura Brasileira. Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.

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