José Antonio Lutzenberger (Porto Alegre, 17 de dezembro de 1926 – Porto Alegre, 14 de maio de 2002) foi um agrônomo, escritor, filósofo, paisagista e ambientalista brasileiro que participou ativamente na luta pela preservação ambiental.
Filho de imigrantes alemães, formou-se como agrônomo especializado em adubos, e por muitos anos trabalhou para companhias do setor, a maior parte do tempo para a Basf, viajando a serviço para vários países como um técnico e executivo da empresa. No fim dos anos 1960 começou a se desiludir com as políticas agrícolas danosas para o meio ambiente, e em 1970 deixou seu emprego para dedicar-se à causa do ambientalismo.
Em 1971, junto com um grupo de simpatizantes de Porto Alegre, fundou a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), uma das primeiras associações ecológicas do Brasil, e à sua testa ganharia projeção local, nacional e internacional em inúmeras campanhas, conseguindo importantes conquistas em uma época em que o ambientalismo ainda era coisa desconhecida pela maioria. De fato, conseguiu chamar grande atenção para o tema com sua personalidade enérgica e combativa e seu sólido preparo intelectual e científico. Sua liderança do movimento no Brasil se consolidou em 1976, quando lançou o livro Manifesto Ecológico Brasileiro: O Fim do Futuro?, sua obra mais conhecida. Publicou muitos outros textos e palestrou pelos quatro cantos do mundo, sensibilizando grandes e influentes audiências, e ao mesmo tempo despertando a fúria de outros setores da sociedade, sendo chamado, ao mesmo tempo, de gênio pioneiro e de louco fanático.
Em 1987 se desligou da Agapan e criou a Fundação Gaia, dedicada à promoção de um modelo de vida sustentável, presidindo-a até sua morte. Continuava envolvido em inúmeros outros projetos locais e em outras regiões, conduzindo também uma empresa de reciclagem de resíduos industriais. Em 1990 foi convidado pelo presidente Fernando Collor de Melo para assumir a pasta do Meio Ambiente. Sua atuação foi breve e muito controversa, mas deixou realizadas obras importantes como a demarcação das terras ianomâmis. Seu estilo contundente de crítica, não poupando ninguém, muito menos o governo, não cessou de lhe trazer problemas, e após denunciar a corrupção no Ibama, em 1992, foi demitido.
Afastado da cena política, deu continuidade ao seu trabalho independente, sendo constantemente solicitado a dar entrevistas, palestras e assessorias de várias espécies até o fim da vida, procurando manter-se atento aos novos problemas ambientais que o progresso vem trazendo, e sugerindo soluções que o mesmo progresso pode oferecer se conduzido com sabedoria. O valor de sua contribuição foi reconhecido mundialmente, recebendo inúmeras distinções importantes, como o Prêmio Nobel Alternativo, a Ordem do Ponche Verde, a Ordem de Rio Branco, a Ordem do Mérito da República Italiana e doutorados honoris causa, além de ser celebrado como um dos pioneiros e um dos maiores ícones do movimento ecológico brasileiro.
Era filho do distinguido artista plástico, arquiteto e professor teuto-brasileiro Joseph Franz Seraph Lutzenberger, que se mudou para o Brasil a convite da empresa de engenharia Weiss, Mennig & Cia., e de Emma Kroeff, cujo pai era um pecuarista bem sucedido. Teve como irmãs Maria Magdalena e Rose Maria, ambas artistas e professoras. A família o chamava de Jolch. Teve uma infância em contato com a natureza, que foi documentada em desenhos e crônicas de seu pai, que certa vez registrou: "Jolch passava horas caminhando pelas ruas e campos do Bonfim e do Caminho do Meio, área ainda pouco habitada que se estendia em direção à parte alta de Porto Alegre. Um dos seus destinos favoritos era o Parque da Redenção, uma enorme área verde no coração do Bonfim... A Redenção era para Jolch a própria encarnação da maravilha".
Em 1940 ingressou no Colégio Farroupilha, onde desenvolveu interesse pela química e a física. Transferido para o internato dos irmãos maristas, não se adaptou á disciplina da escola, terminando seus estudos iniciais no Colégio do Rosário. Também estudava francês e inglês em outras escolas, além de já dominar o alemão, falado em casa. Prestou serviço militar e em 1947 ingressou na Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Nesta época seu temperamento combativo já era notado, e era também visto como excêntrico pelos colegas.
Formou-se em 1950, com dois semestres de estudos complementares em agroquímica e edafologia na Universidade do Estado da Luisiana, nos Estados Unidos. De volta ao Rio Grande do Sul, com o seu preparo, conseguiu facilmente uma boa colocação na Companhia Riograndense de Adubos. Nesta época, contra a vontade de sua mãe, casou-se com Annimarie Wilms. Permaneceu no emprego por quatro anos, sendo contratado a seguir pela Sulpampa para atuar como intérprete de línguas do diretor da Basf, da Alemanha, associada da Sulpampa.
Em 1957 viajou para a Alemanha a convite da empresa Ciba-Geigy, para atuar na área dos agrotóxicos. Não tinha, naquela altura, intenção de voltar ao Brasil. Permaneceu na Alemanha por dois anos, depois mudando para a Venezuela, já trabalhando para a Basf, como técnico e executivo na área de adubos. Ali nasceu sua primeira filha, Lilly Charlotte. Em 1966, sempre a serviço da Basf, foi transferido para o Marrocos, onde nasceu Lara, sua segunda filha.
Com um padrão de vida confortável, seu trabalho como executivo lhe propiciava viagens pelas regiões vizinhas, e também tempo livre para estudar, podendo continuar sua carreira de cientista. De fato, ele tinha interesse por várias áreas do saber, como a matemática, a biologia, a história e a história das religiões. Também passou a se interessar pelo naturismo europeu. Na Venezuela se encontrou com o cientista Leon Croizat, com quem se aprofundou em biogeografia. Embora sendo basicamente um técnico em adubos, desde os anos 1960 já se interessava pelo problema dos agrotóxicos, especialmente depois de ler trabalhos de Rachel Carson sobre o assunto, incluindo seu clássico Silent Spring. A pesquisadora passou a ser alvo dos ataques da indústria química, mas Lutzenberger discordava da forma como a campanha contra ela estava sendo conduzida. Mesmo assim, nesta época ele ainda não se sentia particularmente compromissado com a causa ecológica.
Sua posição começou a mudar quando foi viver no Marrocos, a serviço da Basf. A empresa ampliara suas atividades para incluir a produção de agrotóxicos, e Lutzenberger achava cada vez mais difícil acomodar suas novas ideias pessoais com a nova política empresarial. Na verdade, uma crise de valores entre ambos fora quase profetizada desde que a Basf o contratara. Um de seus superiores, assim que ele chegou, o advertiu para deixar de lado seus muitos interesses científicos e se concentrar no tema do adubo: "Você precisa ter consciência de que é homem de adubo. Tem que se interessar por adubo!" O dilema acabou por se tornar para ele insustentável, pedindo demissão em 1970.
Partindo para Porto Alegre com a família, instalaram-se na casa de seu pai. Na cidade entrou em contato com um grupo que estava preocupado com o desmatamento, a poluição e outros assuntos relacionados. Já conhecia alguns ativistas através de correspondência, como Augusto César Cunha Carneiro, e de suas conversas resultou a ideia de criar uma sociedade de defesa da natureza, seguindo o modelo do naturismo europeu e das associações ecológicas National Audubon Society e Sierra Club, que conhecera nos Estados Unidos. Também teve importância o exemplo de gaúchos precursores como o padre Balduíno Rambo e Henrique Luís Roessler. Sem ter um emprego e sem perspectivas concretas para ganhar a vida, ainda não sabia exatamente o que iria fazer, nem se ficaria no Brasil. Cogitava em algo ligado à terra, como administrar um viveiro de plantas exóticas. Acabou ficando. Primeiro experimentou o comércio de gado. Não teve sucesso, mas o negócio lhe permitiu conhecer o interior do Rio Grande do Sul, ficando impressionado com a devastação das florestas. Isso o convenceu da necessidade de colocar o grupo de Augusto Carneiro em plena atividade.