José Francisco Correia da Serra, FRS (Serpa, 6 de junho de 1751 – Caldas da Rainha, 11 de setembro de 1823), em 1775 ordenado presbítero, foi um cientista, diplomata, filósofo e polímata português. Investigou designadamente nas áreas da botânica e geologia. O género botânico Correa recebeu o seu nome. Tem uma biblioteca com o seu nome em Serpa.
Foi, com o Duque de Lafões, fundador da Academia Real das Ciências de Lisboa, efectivada com o aval de D.ª Maria I a 24 de dezembro de 1779 e inaugurada já em 1780.
De grande prestígio intelectual, conviveu com os grandes cientistas da sua época. Publicou valiosos trabalhos nas mais conceituadas revistas. Tinha também uma grande convivência com o presidente americano da altura Thomas Jefferson, que lhe terá chamado «o homem mais erudito que jamais conheci» (segundo Kenneth Maxwell na sua obra Naked Tropics – Essays On Empire And Other Rogues).
Foi eleito membro da Royal Society em 1796.
Filho do Dr. Luís Dias Correia, médico formado na Universidade de Coimbra, e de D. Francisca Paula Luísa de Leon, José Francisco Correia da Serra, com apenas 6 anos, muda-se com a família para Nápoles, a fim de escapar do acosso da Inquisição.
Uma vez em Itália, terá estudado sob a orientação do mestre português Luís António Verney, dentro dos mesmos trâmites iluministas plasmados na sua obra, «O Verdadeiro Método de Estudar», assim como da do filósofo italiano Abade Antonio Genovesi.
Na década de 70 do séc. XVIII, José Francisco Correia da Serra translada-se de Nápoles para Roma, a fim de completar a sua educação. É em Roma que se licencia em direito canónico e em que abraça a vida religiosa, tornando-se presbítero.
É ainda em Roma que trava amizade com D. João de Bragança, Duque de Lafões, o qual conhecera o pai de José Francisco Correia da Serra, na sua juventude, quando ambos frequentaram a Universidade de Coimbra.
Em 1778, José Francisco Correia da Serra, ora abade Correia da Serra, regressa a Portugal, sob o patrocínio do Duque de Lafões. Um ano mais tarde, juntamente com o Duque, viriam a fundar a Academia das Ciências de Lisboa.
Mercê de intrigas, fomentadas pela Inquisição e pelo intendente-geral da polícia, Pina Manique, o Abade Correia da Serra ver-se-á obrigado a abandonar o país em 1786, só regressando à corte lisboeta em 1790. Vai depois permanecer durante 6 anos à cabeça da secretaria da Academia das Ciências de Lisboa. Em 1790, Correia da Serra organiza e custea um itinerário europeu de estudos para três jovens membros da Academia, dentre os quais se contavam os brasileiros Manuel Ferreira da Câmara e José Bonifácio de Andrade e Silva, os quais, anos mais tarde, inspirados pelas ideias iluministas com que contactaram pela Europa, viriam a desempenhar um relevante papel na independência do Brasil.
José Bonifácio, muitos anos mais tarde, viria a substituir o Abade Correia da Serra como secretário da Academia das Ciências de Lisboa.
Em março de 1795, à custa da sua apologia pela causa jacobinista em França, Correia da Serra vê-se confrontado com o sentimento reacionário, que se fazia sentir em Portugal, o que o impele, mais uma vez, a abandonar o país. Parte então para o Reino Unido, onde permanece durante alguns anos, tendo ingressado na Royal Society e na Sociedade Linneana de Londres.
É também importante salientar que, nesta viagem para Inglaterra, Correia da Serra foi acompanhado pelo girondino e cientista francês, Pierre Marie Auguste Broussonet. O qual estivera homiziado nos aposentos da Academia de Ciências de Lisboa, por ser procurado em França. À custa desta façanha, Correia da Serra esteve durante alguns anos desavindo, com o antigo patrono e amigo, o Duque de Lafões.
Uma vez em Inglaterra, vai participar numa expedição botânica, com o presidente da Royal Society, Sir Joseph Banks, à costa de Licolnshire.
Em 1801, dá-se um ponto de viragem na política portuguesa e Rodrigo de Sousa Coutinho torna-se secretário de estado dos negócios estrangeiros da coroa portuguesa, nomeando Correia da Serra como secretário da embaixada portuguesa em Londres. Devido a divergências de opiniões políticas, Correia da Serra desentende-se com o embaixador português em Londres e vê-se obrigado a mudar-se para Paris. Permanecerá em Paris até 1811, sendo que durante esses dez anos terá feito amizade e colaborado com os enciclopedistas franceses, com destaque para Antoine Laurent de Jussieu, Alexander von Humboldt e Georges Cuvier. Com efeito, o próprio Diderot terá encomendado a Correia da Serra a redacção do artigo a respeito do terramoto de Lisboa, embora o mesmo não tenha sido concluído a tempo de constar da primeira edição da enciclopédia.
Durante este período, apaixonou-se pela francesa Esther Delavigne, de quem teve um filho, Eduardo José, em 1803.
Na pendência da terceira invasão napoleónica a Portugal, em 1811, Correia da Serra, conhecido pelas suas inclinações jacobinas, terá sido instado por Napoleão para redigir um documento em que justificava e apoiava a invasão. Ao recusar, Correia da Serra, mais uma vez, viu-se obrigado a exilar-se por motivos políticos, desta vez, partindo rumo a Norfolk, no estado americano da Virgínia. Em 1812, apresenta-se em Washington, com inúmeras cartas de recomendação, escritas por luminares franceses, com ascendentes sobre a política americana, dentre os quais se conta André Thouin e o Marquês de Lafaiete. Porém, é em Filadélfia que se vai fixar, tornando-se ádito da American Philosophical Society.
Graças à forte amizade e à mútua admiração mantida entre o Abade Correia da Serra e Thomas Jefferson, tornou-se uma visita habitual em Monticello, a residência palaciana da família Jefferson.