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José Anastácio da Cunha

Matemático e poeta setecentista

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José Anastácio da Cunha (Lisboa, 11 de maio de 1744 – Lisboa, 1 de janeiro de 1787) foi um militar, cientista, matemático, poeta, tradutor e professor de matemática e geometria. Nomeado Tenente do Regimento de Artilharia do Porto e aquartelado na Praça de Valença do Minho. As suas obras científicas e poéticas ficaram caracterizadas pela presença de ideais como a tolerância, o deísmo e o racionalismo, devido ao contacto com oficiais protestantes ingleses.

O matemático foi nomeado pelo Marquês de Pombal, lente de Faculdade de Mathematica na Universidade de Coimbra quando ocorreu a Reforma Pombalina nesta mesma Universidade.

Condenado pela Inquisição à pena de reclusão pelo crime de heresia, a importância deste cientista português do século XVIII só viria a ser reconhecida em fins do século XX, pela sua contribuição para a reforma do cálculo infinitesimal, assim como pelo seu valor literário.

A 11 de maio de 1744, em Lisboa, nasceu José Anastácio da Cunha, provavelmente na Rua dos Ferreiros, sendo batizado com 11 dias, a 22 do mesmo mês. Proveniente de uma família humilde, filho de Lourenço da Cunha, pintor e cenarista (passou algum tempo em Roma a melhorar a sua técnica) e de Jacinta Inês que foi criada e recebeu educação elementar. Foi um jovem tímido, emocionalmente arrebatado e considerado um autodidacta.

Estudou em Lisboa no Convento de Nossa Senhora das Necessidades que pertencia à Congregação do Oratório onde aprendeu Gramática, Retórica e Lógica até aos 19 anos. O gosto pela Física e pela Matemática surgiu por influência do seu pai «Lourenço Cunha foi mestre de Matemática do seu filho» segundo Cyrillo Volkmar Machado.

Em 1764, ainda com 20 anos, foi designado Tenente do Regimento de Artilharia do Porto e aquartelado na Praça de Valença do Minho. Dedicou-se às suas obrigações militares, aos estudos matemáticos, à história, às línguas e às belas-artes.

Devido ao contacto com oficiais protestantes ingleses, Anastácio da Cunha identificou-se com ideais como a tolerância, o deísmo e o racionalismo que viriam a ser os princípios base das suas obras científicas e poéticas. Além disso, passou a contactar com a língua inglesa, tendo sido importante para a tradução para português de obras de autores como Voltaire, Pope, Horácio, Rousseau, Holbach e Helvétius (literatura proibida nesta época pela Inquisição) a pedido do Brigadeiro James Ferrier. O poeta era já fluente em línguas como o francês, o latim, o grego e o italiano, que o auxiliou nestas traduções. Julga-se que foi neste período que aderiu à maçonaria. Em 1768, Marquês de Pombal criou a Real Mesa Censória que ficou encarregue de catalogar os livros proibidos.

Aos 25 anos (1769), realizou a Carta Fisico-Mathematica sobre a Theoria da Polvora requisitada pelo Major Simon Frazer que consistia na indicação do melhor comprimento das peças em particular, onde detectava erros e pequenas falhas presentes em trabalhos sobre artilharia.

Já em 1773, com 29 anos, foi escolhido para o cargo de lente de Faculdade de Mathematica pelo Marquês de Pombal por Provisão de 5 de Outubro de 1773 na sequência da Reforma da Universidade de Coimbra. O tempo ligado ao ensino foi bastante atribulado, uma vez que sempre existiu um sentimento de superioridade perante os seus outros colegas como Ciera, Franzini e Monteiro da Rocha em relação ao seu método de ensino; às teorias livres e ao anticatolicismo.

Após a morte do rei D. José I, em 1777, sobe ao trono D. Maria I de Portugal, dando origem ao período - a Viradeira - que resultou na denúncia à Inquisição de José Anastácio da Cunha a 1 de julho de 1778. Este foi acusado de se relacionar com protestantes ingleses em Valença do Minho, de ler autores considerados perigosos tais como: Rousseau, Voltaire, Hobbes que defendiam ideais iluministas e de influenciar as gerações mais novas através da sua eloquência.

Em 1722, José Anastácio apaixonou-se por Margarida Lopes, uma mulher com poucas letras e pouco conhecimento de Vila da Barca, quando este era militar. Possivelmente, Anastácio terá ensinado a sua amada a escrever. O relacionamento causou alvoroço na época, já que foram viver juntos sem estarem casados. Esta relação foi interrompida quando o militar foi nomeado lente da Faculdade de Mathematica.

Um estudante do 1º ano do curso jurídico, Joaquim Vicente Pereira de Araújo (natural de Valença do Minho) descobriu que Luís José Pereira Freire de Andrade, aluno do 4º ano de Cânones, iria denunciar à Inquisição Pereira de Araújo e seus amigos, que inclui Anastácio da Cunha.

A 29 de abril de 1777 a denúncia é apresentada e vista na Inquisição de Coimbra a 7 de maio do mesmo ano.

José Anastácio da Cunha fez uma confissão de modo a não comprometer ninguém que pudesse ser preso de forma a demonstrar que estava arrependido. Apesar da confissão, o poeta acabou por sofrer uma pena pesada. Portanto, o professor foi condenado à reclusão durante três anos na Casa das Necessidades da Congregação do Oratório, ao degredo por quatro anos na cidade de Évora, afastado dos seus cargos na Universidade, confiscaram os seus títulos e bens e foi proibido de regressar a Coimbra e a Valença.

Independentemente de ter a companhia dos seus amigos, de usufruir da biblioteca na qual aprofundou e desenvolveu os seus conhecimentos matemáticos e ter aproveitado para rever e editar os textos que iriam fazer parte da obra - os Principios Mathematicos, os três anos na Congregação do Oratório foram muito duros.

No final do ano de 1780, após um ano de reclusão, solicitou o perdão à Inquisição tendo sido aceite. Embora estivesse em liberdade passou por dificuldades financeiras, perdeu prestígio na sociedade lisboeta, incluindo nos salões frequentados pelas damas da corte. O que lhe valeu foi o auxílio de Diogo Inácio de Pina Manique (1733 - 1805) que, em 1781, decidiu por em funcionamento no Castelo de S. Jorge a Casa Pia, talhada a abrigar mendigos e órfãos. O professor foi aí nomeado Regente de Estudos e Substítuto do curso de matemática (professor de matemática).

Principios mathematicos para instrucção dos alunos do Colégio de S. Lucas da Real Casa Pia do Castello de S. Jorge(1790)

A obra ficou conhecida como um livro didático especializado para o ensino os alunos do Colégio de S. Lucas da Real Casa Pia do Castelo S. Jorge. Esta foi terminada em 1786 e apenas publicada, em Lisboa, em 1790.

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