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José Agrippino de Paula

Escritor brasileiro

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José Agrippino de Paula e Silva (São Paulo, 13 de julho de 1937 — Embu das Artes, 4 de julho de 2007) foi um escritor, dramaturgo, cineasta e arquiteto brasileiro. Autor dos romances Lugar Público (1965) e PanAmérica (1967) e da peça As Nações Unidas, dirigiu o longa-metragem Hitler III.º Mundo e espetáculos de teatro e dança como Rito do Amor Selvagem (1969), em parceria com a bailarina e coreógrafa Maria Esther Stockler. Um artista de vanguarda associado à contracultura, à pop art e ao Tropicalismo — de que alguns críticos o consideram precursor —, é reverenciado nos meios intelectuais e artísticos, mas permaneceu pouco conhecido do grande público.

Filho do advogado e professor Oscavo de Paula e Silva e da professora Claudemira Vasconcellos, Agrippino nasceu em São Paulo e passou os primeiros anos em Itu, onde os pais trabalhavam; a família retornou à capital em 1942, e em 1944 nasceu seu irmão, Guilherme. Estudou no Ginásio do Estado, no bairro da Lapa, e em 1955 ingressou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, na mesma turma do cenógrafo Flávio Império. Com a morte do pai, em 1957, a família passou por um período difícil; em 1959 Agrippino transferiu-se para a Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, onde se formou em 1962.

No Rio, aproximou-se do teatro — estudou com o diretor italiano Gianni Ratto e encenou no teatro universitário uma adaptação de Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, em que também atuou, como Raskólnikov. Sem interesse pela arquitetura, trabalhou por pouco tempo adaptando clássicos da literatura para a televisão e escrevia o que viria a ser seu primeiro romance.

Anos de produção intensa (1965–1970)

Sem condições de se manter no Rio, voltou a São Paulo em 1965, ano em que publicou Lugar Público pela editora Civilização Brasileira, com orelha de Carlos Heitor Cony. Na capital paulista conheceu, por intermédio do artista plástico José Roberto Aguilar, a bailarina Maria Esther Stockler, companheira com quem passou a viver e que seria sua principal parceira artística. Segundo o pesquisador Vinicius Galera de Arruda, Agrippino produziu em escala "meteórica" entre 1965 e 1969.

Em 1966 escreveu a peça As Nações Unidas e, em 1967, publicou PanAmérica, que ele próprio definia como uma "epopeia" e que teve apresentação do físico e crítico Mario Schenberg. Com Stockler e outros artistas, fundou o grupo Sonda, misto de dança e teatro que, em 1968, montou Tarzan III Mundo — O Mustang Hibernado, considerado a primeira experiência no Brasil a misturar dança e dramaturgia, apresentada no Primeiro Festival de Dança de São Paulo. Ainda em 1968, o casal fez no Rio O Planeta dos Mutantes, musical em parceria com a banda Os Mutantes, com roteiro de Agrippino e dos integrantes do grupo e direção de Stockler.

No mesmo ano iniciou as filmagens de Hitler III.º Mundo, seu único longa-metragem, rodado em plena intensificação da repressão da ditadura militar, após o Ato Institucional Número Cinco. Em novembro de 1969 estreou, no Teatro São Pedro, em São Paulo, Rito do Amor Selvagem, direção de Stockler e roteiro de Agrippino inspirado em As Nações Unidas: um "teatro rock", de grande sucesso de público e crítica, que depois foi apresentado também no Rio.

No início dos anos 1970, uma violenta batida policial na casa do casal, em São Paulo, abalou profundamente o escritor. Segundo seu próprio relato, a casa era vigiada, ele chegou a ser preso por cerca de dez dias e passou a receber ameaças de morte. Por "sugestão" dos militares, deixou o país em 1971 com Stockler, um irmão dela e o ator José Ramalho, do Sonda, rumo à costa atlântica da África, onde realizou diversos curtas em Super-8, entre eles Candomblé no Togo. Ao longo de quase três anos de exílio viveram na África e viajaram pela Europa; Agrippino passou ainda uma temporada nos Estados Unidos e no Canadá.

O casal voltou ao Brasil em 1973 e fixou-se na Bahia, onde Agrippino realizou, na praia de Arembepe, Céu sobre Água, seu último filme, e produziu um espetáculo com crianças de comunidades de candomblé em Salvador. Nesse período publicou contos em revistas e tentou, sem sucesso, voltar a filmar. Teve duas filhas, e o relacionamento com Stockler terminou na década de 1970.

No final de 1979, com problemas de saúde, voltou a morar com a mãe em São Paulo. A partir de 1980, depois de surtos e de uma internação que resultou em diagnóstico de esquizofrenia, os dois passaram a viver em Embu das Artes, na Grande São Paulo, onde Agrippino viveu isolado do convívio social, mas continuou escrevendo — deixou centenas de cadernos de anotações. A mãe morreu em 1988, pouco depois do relançamento de PanAmérica e de uma mostra de seus filmes em São Paulo, a que ele não compareceu. Em 2006, a psicanalista e cineasta Miriam Chnaiderman tentou fazê-lo voltar a filmar; o projeto não avançou, mas resultou no documentário Passeios no Recanto Silvestre.

Agrippino morreu em 4 de julho de 2007, em Embu das Artes, vítima de infarto, poucos dias antes de completar 70 anos. Foi encontrado em casa pelo irmão e enterrado ao lado dos pais, no Cemitério da Lapa.

Caetano Veloso considerava PanAmérica um precursor literário do tropicalismo, e dela extraiu inspiração para versos de "Sampa" (1978); Caetano e Gilberto Gil também musicaram um trecho do livro em Doces Bárbaros ao Vivo (1976). Schenberg chegou a afirmar que o romance era mais importante do que Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, pela fusão que promove entre realidade e realismo fantástico. Caetano é também autor do prefácio da edição de 2001 e tratou de Agrippino em Verdade Tropical (1997).

A obra foi estudada em chave tropicalista, marginal e contracultural. Evelina Hoisel a analisou em Supercaos (dissertação de 1979, depois publicada em livro), que lê PanAmérica e As Nações Unidas em conjunto. Arruda observa que, apesar da associação a manifestações centrais de 1967 — como Terra em Transe e a montagem de O Rei da Vela —, o romance de Agrippino segue sendo a obra menos conhecida dessa safra, e o autor permanece à margem da história literária brasileira.

O interesse pela obra foi retomado em 1988, quando a videoartista Lucila Meirelles, guardiã e curadora do acervo audiovisual do autor, organizou a Mostra JAP no Museu da Imagem e do Som de São Paulo e na Galeria Fotóptica, em coincidência com a segunda edição de PanAmérica; a mostra incluiu um ciclo de palestras com Caetano, Stockler e José Celso Martinez Corrêa, entre outros. Em 2019, a edição de As Nações Unidas tornou o texto comercialmente disponível pela primeira vez.

Lugar Público (1965): primeiro romance, de estilo fragmentário, sobre o cotidiano caótico de uma grande cidade, com personagens que têm nomes de figuras históricas — Napoleão, Júlio César, Pio XII — e um narrador sem nome, marcado apenas pela primeira pessoa. Cony viu na obra afinidades com o nouveau roman francês, pelo objetivismo da narração e pelo antipsicologismo na construção dos personagens.

PanAmérica (1967): sua obra mais importante. Formado por blocos de texto de um único e extenso parágrafo, sem continuidade entre si, o romance tem um narrador-protagonista que assume papéis diversos — de diretor de Hollywood que filma A Bíblia a guerrilheiro ao lado de Che Guevara — e convive com ícones da cultura de massa como Marilyn Monroe, Charles de Gaulle e Joe DiMaggio. Teve segunda edição em 1988 (Max Limonad) e terceira em 2001 (Papagaio).

As Nações Unidas (escrita em 1966): peça teatral que reúne, numa assembleia da Organização das Nações Unidas, figuras como Napoleão, Guevara, Adolf Hitler, o Pato Donald e o papa. Circulou durante décadas em cópias mimeografadas, a partir de uma versão em inglês de 1968, e só teve a primeira edição em português em 2019, pela Papagaio.

Contos publicados em revistas nos anos 1970: "Tribo do ar e do mar sagrado" (Planeta, 1974), "Roteiro de viagem do Diário Oficial das Drogas do Ocidente" (Ânima, 1976), "A cigana prateada da lua" (Ficção, 1977) e "Na alameda dos baobás" (Caspa, 1977). Deixou ainda o romance Terracéu e o inacabado Os Favorecidos de Madame Estereofônica.

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