Neste Dia

Jornadas de Junho

Manifestações populares ocorridas em 2013 no Brasil

Anúncio

As Jornadas de Junho foram uma série de mobilizações de massa ocorridas simultaneamente em mais de quinhentas cidades do Brasil no ano de 2013. Pode ser considerada como a primeira insurreição ou levante popular de proporções realmente nacionais no país, tendo acontecido em todas as cinco regiões. Chegaram a contar com até 89% de apoio da população brasileira. Ainda que os maiores atos de rua deste período tenham ocorrido no mês de junho, com a participação de milhões de pessoas, massivas mobilizações ocorreram também por todo ano, em diversas cidades, tendo um novo ápice no mês de outubro.

Teve como críticas principais o aumento das tarifas de transporte públicos, a violência policial, a falta de investimentos em serviços públicos (como saúde e educação), os gastos com os megaeventos esportivos, o poder dos oligopólios de comunicação, a hegemonia e dominação de partidos políticos sobre os movimentos populares e as falhas da democracia representativa.

Reivindicou principalmente a tarifa zero nos transportes públicos, o fim da violência policial, maior investimentos em serviços públicos, assim como reivindicações trabalhistas e classistas. Categorias em greve também reivindicaram suas próprias pautas. Sendo uma mobilização de abrangência nacional, cada localidade também adicionou elementos locais, como o fim das Unidades de Policias Pacificadoras (UPP) na capital fluminense após o assassinato de Amarildo Dias de Souza, pedreiro morador da favela da Rocinha.

Em momentos pontuais, algumas pautas difusas também estiveram presentes, em geral levadas por pessoas sem conexão com os movimentos sociais e influenciadas pelos oligopólios de comunicação, como a contrariedade a Pec 37, porém eram minoritárias.

Os métodos e táticas utilizados foram protestos de massa, assembleias populares, mídia alternativa e ciberativismo, autodefesa de massas e Black Bloc, ocupações, greves, barricadas, destruição e incêndio de ônibus, pichações, cartazes e faixas. Houve também depredação e ataque a símbolos do capitalismo e do poder como agências bancárias, grandes lojas, viaturas policiais, assembleias legislativas, centros militares. Portanto, destacou-se a prática de violência não letal por parte dos manifestantes, rompendo com o monopólio estatal da violência, apesar da caracterização como vandalismo pelos oligopólios de comunicação. Além disso, em 2013 houve o maior número de greves já registrados no Brasil até então, o que somado ao perfil do proletariado marginal a frente das mobilizações, faz com que se caracterize este como um levante proletário. O levante pode ser entendido como "uma tentativa popular de auto-instituição através da ação direta".

Essas mobilizações foram vitoriosas em sua crítica principal, cancelando o aumento das tarifas de transportes públicos em diversas cidades naquele ano, e também em outra política econômica, a aprovação de uma lei que garantia royalties do petróleo para a saúde e educação públicas. Entretanto, os participantes sofreram uma violenta repressão por parte dos governos estaduais e federal (Partido dos Trabalhadores à época), com tiros de bala letal e armas menos letais (tiros de bala de borracha, bombas de efeito "moral" e lacrimogênio, agressão com cassetete), prisões e detenções arbitrárias, falsos flagrantes, prisões políticas, prisões em massa, infiltração policial e militar, vigilância presencial e pela internet, difamação midiática, inquéritos e processos judiciais. Os anarquistas, autonomistas e marxistas não-institucionais foram considerados os mais perigosos pelo Estado.

A crítica a democracia representativa, que pela esquerda à época vinha ganhando força no mundo, desde o levante de Chiapas (1994), passando pelas revoltas em Seattle (1999) e depois em Gênova (2001), Argentina (2001), Bolívia (2003), Equador (2003), França (2005), Grécia (2010-2012), Espanha (2011) e Turquia (2013), assim como os movimentos de ocupação no formato do de Wall Street (2011); demonstraram uma limitação da social-democracia progressista e neoliberais no poder tanto em avançar com políticas e mudanças mais radicais em prol da população, assim como um limite em sua capacidade de controle sobre os movimentos populares mais autônomos. Os métodos, a forma e as reivindicações dos protestos se assemelharam especialmente ao Caracaço na Venezula (1989).

Influenciou mobilizações após 2013, como o Não vai ter Copa em 2014, e o movimento estudantil, com a Mobilização estudantil em São Paulo em 2015, e a Mobilização estudantil no Brasil em 2016.

Em 19 de junho um vídeo intitulado "Anonymous Brasil — As 5 causas!" de autoria do coletivo Anonymous, é lançado na internet em resposta a mídia que frequentemente anunciava a falta de reivindicações claras durante os protestos, e sugere 5 motivos consensuais pelos quais as pessoas estariam se manifestando, pedindo a colaboração e adesão a estas causas como foco nos próximos protestos. Sendo elas a rejeição ao PEC 37; a renúncia de Renan Calheiros da presidência do Senado; investigações e punição de irregularidades nas obras da Copa do Mundo a ser realizada no país; lei que torne corrupção crime hediondo e o fim do foro privilegiado. O vídeo "As 5 causas" foi bem aceito chegando a receber em menos de 24 horas mais de 1 milhão de visualizações e milhares de republicações em outras redes sociais, potencializando o efeito viral na internet, mas dificultando a estimativa do número global de visualizações. Ganhando destaque nos protestos, as "5 causas" geraram inúmeras matérias em sites e chegou a atribuir aos Anonymous a nova liderança nos protestos, ganhando espaço em matérias de rádio, revistas, jornais e televisão, incluindo repercussão internacional. Manifestantes não só no Brasil, mas brasileiros em outros países apoiaram as chamadas "5 causas" e exibiam cartazes com a lista durante protestos. Em algumas cidades do país, protestos foram organizados pautados exclusivamente nas 5 causas.

Dentre as causas listadas duas rapidamente geraram resultados, a rejeição a PEC 37, que era uma causa já popular e a aprovação, na Câmara de lei que classifique corrupção como crime hediondo, essa segunda, ainda não figurava até então de forma explícita e direta durante as manifestações, vindo a ser posteriormente citada durante o Pronunciamento Presidencial e divulgada como meta nos "Cinco Pactos", título que parecia conversar com a sintetização de pontos proposta pelo Anonymous.

Parte da imprensa foi criticada pela falta de cobertura ao vivo dos protestos. Os canais a cabo GloboNews, BandNews TV e Record News foram acusados pela revista Carta Capital de ignorar as manifestações em São Paulo, enquanto exibiam matérias sobre os protestos na Turquia em 2013. O Observatório da Imprensa notou que só após as agressões direcionadas à imprensa que certos grupos midiáticos começaram a "enxergar os excessos da polícia" e divulgar que há vândalos e violência em ambos os lados do conflito. O repórter da Globo, Caco Barcellos, da equipe do programa Profissão Repórter, foi expulso com as pessoas gritando "a Globo é mentirosa" por um grupo de manifestantes que se concentravam no largo da Batata, zona oeste de São Paulo no dia 17 de junho. Depois do ocorrido, outros jornalistas da emissora não usaram o logotipo nos microfones (a canopla). A revista Veja também foi alvo dos manifestantes durante os protestos.

Alguns meios de comunicação internacionais criticaram a cobertura dos grandes grupos de comunicação no Brasil, tida como parcial em favor da "versão oficial". Segundo o portal francês Rue89, a mídia brasileira não hesitou ao "caracterizar os manifestantes como vândalos" logo no início.

Como as convocações são feitas pela internet e os manifestantes são essencialmente jovens da "era da internet", muitas vezes há mais confiança destes nestes meios do quê em televisão ou jornais. Incomodam aos participantes, segundo entrevista com alguns deles, a manipulação que a Globo sempre faz onde foca-se mais na violência e vandalismo, bem como a redução do número de manifestantes anunciados por ela. Participantes vêem os meios tradicionais, mainstream, como obsoletos, face ao surgimento de meios que não podem os calar mais. Funcionários da Globo são os mais hostilizados, e isso obrigou a emissora e mudar as diretrizes das matérias que iam ao ar, orientando os repórteres a retirarem o selo da TV Globo dos microfones. Na cidade de Juiz de Fora, os manifestantes que se reuniram em frente ao Parque Halfeld, no centro da cidade, e vaiaram o repórter da TV Integração (afiliada da Rede Globo) junto à xingamentos e palavras de ordem, impedindo-o de gravar a matéria sobre as manifestações na cidade. A emissora se manifestou a esse respeito divulgando uma nota oficial que foi ao ar no Jornal Nacional, horário nobre, lida por Patrícia Poeta:

Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium
Jornadas de Junho | World in Stories