Jorge III (Londres, 4 de junho de 1738 – Windsor, 29 de janeiro de 1820) foi o Rei da Grã-Bretanha e da Irlanda de 25 de outubro de 1760 até a união dos dois países em 1 de janeiro de 1801, tornando-se o primeiro Rei do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda até sua morte. Também foi duque e príncipe-eleitor do Eleitorado de Brunsvique-Luneburgo no Sacro Império Romano-Germânico até sua promoção a Rei de Hanôver em 12 de outubro de 1814. Além de Rei da Córsega por um curto período entre 1794 e 1796. Jorge foi o terceiro monarca britânico da Casa de Hanôver.
Sua vida e reinado foram marcados por disputas políticas no parlamento e uma série de conflitos militares principalmente contra a França, que a Grã-Bretanha acabou derrotando na Guerra dos Sete Anos. Porém, logo muitas das suas colônias na América do Norte foram perdidas na Guerra de Independência dos Estados Unidos. Outras guerras começando em 1793 contra a França revolucionária e napoleônica concluíram-se com a derrota de Napoleão Bonaparte na Batalha de Waterloo em 1815.
No restante de sua vida, Jorge sofreu de um transtorno mental recorrente e enfim permanente. Os médicos ficaram perplexos com sua condição, apesar de desde então se acreditar que o rei sofria de porfiria. Depois de uma última recaída em 1810, uma regência foi estabelecida e Jorge, Príncipe de Gales, filho mais velho e herdeiro de Jorge III, reinou como príncipe regente. Quando Jorge III morreu em 1820, o príncipe regente sucedeu o pai como Jorge IV.
Análises históricas da vida de Jorge III foram um "caleidoscópio da mudança de opinião" que dependiam muito dos preconceitos de seus biógrafos e das fontes disponíveis. Sua reputação nos Estados Unidos era de um tirano e no Reino Unido ele se tornou "o bode expiatório para o fracasso do imperialismo", isso até uma grande reavaliação durante a segunda metade do século XX.
Jorge Guilherme Frederico (George William Frederick) nasceu na Casa Norfolk, Londres, em 4 de junho de 1738, filho mais velho de Frederico, Príncipe de Gales, e Augusta de Saxe-Gota e também neto do rei Jorge II da Grã-Bretanha. Como nasceu dois meses prematuro, e acreditava-se que não iria sobreviver, foi batizado no mesmo dia por Thomas Secker, o Bispo de Oxford.
Secker o batizou novamente um mês depois em uma cerimônia pública. Seus padrinhos foram o rei Frederico I da Suécia (representado por lorde Charles Calvert, 5º Barão Baltimore), seu tio Frederico III, Duque de Saxe-Gota-Altemburgo (representado por lorde Henry Brydges, Marquês de Carnarvon) e sua tia-avó a rainha consorte Sofia Doroteia de Hanôver (representada por Charlotte Edwin).
Jorge cresceu como uma criança saudável, porém reservada e tímida. A família se mudou para a Praça Leicester, onde ele e o irmão Eduardo foram educados por professores particulares. Cartas mostram que ele podia ler e escrever em inglês e alemão, além de comentar eventos políticos já aos oito anos de idade. Foi o primeiro monarca inglês a estudar ciências sistematicamente. Além de química e física, seus estudos incluíam astronomia, matemática, francês, latim, história, música, geografia, comércio, agricultura e direito constitucional, também incluindo dança, esgrima e equitação. Sua educação religiosa foi totalmente anglicana. Aos dez anos, Jorge participou de uma encenação familiar da peça Cato, de Joseph Addison, e disse no prólogo "O que, tu menino! Pode-se dizer com verdade, um menino nascido na Inglaterra, na Inglaterra criado". O historiador Romney Sedgwick diz que essa fala parece "ser a fonte da única frase histórica com a qual ele está associado".
Seu avô, o rei Jorge II, não gostava do Príncipe de Gales e pouco se interessou em seus netos. Porém, Frederico morreu em 1751 de um ferimento no pulmão e Jorge se tornou herdeiro aparente do trono. Ele herdou um dos títulos do pai e se transformou no Duque de Edimburgo. Agora mais interessado no neto, o rei três semanas depois o transformou no novo Príncipe de Gales.
Na primavera de 1756, Jorge II lhe ofereceu grandes aposentos no Palácio de St. James, porém ele recusou, guiado pela mãe e seu confidente, lorde John Stuart, 3.º Conde de Bute, seu futuro primeiro-ministro. Augusta, agora a Viúva Princesa de Gales, preferia mantê-lo em casa onde poderia imbuir-lo com seus firmes valores morais.
Em 1759, Jorge se apaixonou por Sarah Lennox, irmã de lorde Charles Lennox, 3.º Duque de Richmond, porém lorde Bute aconselhou contra a união e Jorge acabou abandonando seus pensamentos de casamento. "Eu nasci pela felicidade ou miséria de uma grande nação", escreveu, "e consequentemente devo frequentemente agir de encontro às minhas paixões". Mesmo assim, existiram tentativas do avô para casá-lo com a duquesa Sofia Carolina de Brunsvique-Volfembutel, que acabaram encontrando resistência em Augusta.
Jorge II morreu em 25 de outubro de 1760 e Jorge ascendeu ao trono aos 22 anos de idade. A procura por uma esposa adequada se intensificou. O novo rei acabou se casando com a princesa Carlota de Mecklemburgo-Strelitz em 8 de setembro de 1761 no Palácio de St. James; os dois se encontraram pela primeira vez no dia do casamento. Duas semanas depois, ambos foram coroados na Abadia de Westminster. Extraordinariamente, Jorge nunca teve uma amante (ao contrário de seu avô e seus próprios filhos), e o casal teve um casamento genuinamente feliz. Eles tiveram 15 filhos, nove meninos e seis meninas. Jorge comprou a Casa Buckingham em 1762 para ser usada como retiro familiar. Suas outras residências eram o Palácio de Kew e o Castelo de Windsor. St. James foi mantido para uso oficial. Ele não viajou muito, passando toda sua vida no sul da Inglaterra. Na década de 1790, o rei e a família real passavam férias em Weymouth, Dorset, assim popularizando uma das primeiras estâncias marítimas na Inglaterra.
Em seu discurso de ascensão ao parlamento, Jorge proclamou: "Nascido e educado neste país, glorifico-me em nome da Bretanha". Ele inseriu a frase no discurso, escrito por lorde Philip Yorke, 1.º Conde de Hardwicke, para demonstrar seu desejo de distanciar-se de seus antecessores germânicos, que eram vistos como se importando mais com Hanôver do que com a Grã-Bretanha.
Apesar de sua ascensão ter sido inicialmente bem recebida por políticos de todos os partidos, os primeiros anos de seu reinado foram marcados por instabilidade política, em grande parte gerada pelo resultado de desacordos sobre a Guerra dos Sete Anos. Jorge era visto como favorecendo ministros tories, que o levou a ser denunciado por whigs como um autocrata. Na época de sua ascensão, as terras da coroa produziam relativamente poucas rendas; a maior parte das rendas eram geradas através de impostos e impostos especiais de consumo. Jorge entregou o controle das propriedades da coroa ao parlamento em troca de uma lista civil de anuidade para sustentar sua criadagem e os gastos do governo civil. Afirmações que ele usou esse dinheiro para recompensar apoiadores com subornos e presentes são contestadas por historiadores que dizem que tais alegações "residem em nada além de falsidades postas para fora pela oposição descontente". Dívidas acumuladas em até três milhões de libras esterlinas durante o reinado de Jorge foram pagas pelo parlamento, e a lista civil de anuidade foi sendo aumentada de tempos em tempos. Ela ajudou a Academia Real Inglesa com grandes doações vindas de suas reservas particulares, e pode ter doado mais da metade de sua renda pessoal para a caridade. De sua coleção de artes, as duas compras mais notáveis são A Aula de Música, de Johannes Vermeer, e um conjunto de Canalettos, porém ele é mais lembrado como um colecionador de livros. A Biblioteca do Rei foi aberta e disponibilizada a acadêmicos, sendo a fundação de uma nova biblioteca nacional.
Em maio de 1762, o incumbente governo whig comandado por lorde Thomas Pelham-Holles, 1.º Duque de Newcastle, foi substituído por um escocês liderado pelo tory lorde Bute. Os oponentes de Bute espalharam calúnias que ele estava tendo um caso com a mãe do rei, também explorando preconceitos anti-escoceses entre os ingleses. O parlamentar John Wilkes publicou The North Briton, que era tanto inflamatório quanto difamatório em sua condenação do governo de Bute. Wilkes foi eventualmente preso por difamação sediciosa, porém fugiu para a França a fim de escapar punição; ele foi expulso da Câmara dos Comuns e julgado culpado in absentia por blasfêmia e difamação. Em 1763, após concluir o Tratado de Paris que encerrou a guerra, lorde Bute renunciou, sendo sucedido pelo whig George Grenville.