João Machado Guedes, mais conhecido como João da Baiana (Rio de Janeiro, 17 de maio de 1887 — Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 1974), foi um compositor popular, cantor, passista e instrumentista brasileiro, reconhecido historiograficamente como um dos pioneiros da formatação estrutural e rítmica do samba urbano.
Filho de Félix José Guedes e Perciliana Maria Constança, era o mais novo e único carioca de uma família baiana de 12 irmãos. A alcunha de "João da Baiana" derivou do fato de sua mãe ser uma das históricas "tias baianas", matriarcas que trabalhavam como quituteiras e comandavam os terreiros de candomblé no território central do Rio de Janeiro, conhecido sociologicamente como "Pequena África". Enquanto sua mãe, Tia Perciliana, fornecia a infraestrutura comunitária e religiosa para a consolidação do gênero, João destacou-se por introduzir inovações percussivas na roda, popularizando o uso do pandeiro e do prato e faca no samba em formação.
Cresceu na Rua Senador Pompeu, no bairro da Cidade Nova, sendo amigo de infância de Donga e Heitor dos Prazeres. Quando criança, frequentou as rodas de samba e os ritos de matriz africana que aconteciam nos terreiros cariocas. Em 1908, época em que o samba ainda era criminalizado e associado à vadiagem pelas autoridades policiais, João teve seu pandeiro apreendido ao se apresentar na tradicional Festa da Penha, festejo cuja popularidade entre a população negra e suburbana do Rio era crescente.
Após o incidente, foi presenteado pelo senador Pinheiro Machado, um dos políticos mais poderosos da República e admirador do músico, com um novo pandeiro, em cujo couro estavam gravadas as palavras: "Com a minha admiração, ao João da Baiana - Pinheiro Machado". A dedicatória serviu, na prática, como uma espécie de salvo-conduto contra futuras abordagens policiais. O episódio é frequentemente citado na historiografia como um exemplo das tensões e pontos de contato entre as elites políticas da Capital Federal e as manifestações culturais afro-brasileiras.
Ao longo das primeiras décadas do século XX, João da Baiana participou de uma série de ranchos e blocos carnavalescos. Manteve por muito tempo um emprego formal no serviço público, chegando a recusar, em 1922, uma viagem internacional a Paris com Pixinguinha e os Oito Batutas — orquestra negra pioneira da qual fazia parte — para não perder o posto de fiscal da Marinha.
A partir de 1923, passou a gravar em programas de rádio, sendo contratado formalmente como ritmista em 1928. Integrou grupos seminais profissionais de samba, como o Conjunto dos Moles, Grupo do Louro, Grupo da Guarda Velha e Diabos do Céu. Como compositor, destacou-se com obras como "Pelo Amor da Mulata", "Mulher Cruel", "Pedindo Vingança" e "O Futuro É uma Caveira". Em 1940, participou das históricas gravações organizadas por Heitor Villa-Lobos a bordo do navio "Uruguai", registrando a faixa "Ke-ke-re-ké" para o disco Native Brazilian Music, do maestro estadunidense Leopold Stokowski.
Na década de 1950, retomou as apresentações nos shows do Grupo da Velha Guarda, organizados por Almirante, resultando em dois LPs lançados pela gravadora Sinter em 1955. Em 1956, a convite do jornalista Ricardo Cravo Albin, gravou o primeiro depoimento para o acervo sonoro do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS RJ).
Em 1968, participou do antológico LP Gente da Antiga, produzido por Hermínio Bello de Carvalho, ao lado de Pixinguinha e Clementina de Jesus. Neste álbum, registrou as composições clássicas "Cabide de Molambo" e "Batuque na Cozinha" (esta última amplamente regravada posteriormente, notabilizando-se na voz de Martinho da Vila). João da Baiana também foi documentado em 1966 pelo cineasta francês Pierre Barouh no filme Saravah (lançado em 1972), no qual aparece tocando com Pixinguinha e Baden Powell, além de executar passos de dança na modalidade do "miudinho".
Faleceu em 12 de janeiro de 1974, aos 86 anos de idade, no Rio de Janeiro. Deixou um filho, Neoci — fruto de um relacionamento com a costureira Araci Andrade de Almeida —, que perpetuou a linhagem musical da família ao se tornar compositor do Cacique de Ramos e membro fundador do influente grupo de pagode Fundo de Quintal.
Atualmente, instrumentos históricos que o consagraram, como seu prato e faca (pertencentes originalmente à Coleção Almirante), integram o acervo permanente do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.