Isabel Carlota do Palatinado (em alemão: Elisabeth Charlotte von der Pfalz; Heidelberg, 27 de maio de 1652 – Saint-Cloud, 8 de dezembro de 1722), também conhecida como "Liselotte, "A Palatina", "Madame Palatina" ou "Princesa Palatina", foi a segunda esposa de Filipe I, Duque de Orleães, irmão mais novo do rei Luís XIV da França, e, portanto, Duquesa de Orleães.
Nascida princesa do ramo palatino da Casa de Wittelsbach, filha de Carlos I Luís, Eleitor Palatino, e de Carlota de Hesse-Cassel, após seu casamento tornou-se uma das figuras mais conhecidas da corte francesa do século XVII. Ela é lembrada pelas descrições ácidas que fazia da corte do Rei Sol em suas cartas. Por meio de seus dois filhos sobreviventes, ela se tornou não apenas a matriarca da Casa de Orleães, que ascendeu ao trono francês com Luís Filipe I, o chamado "Rei Cidadão", de 1830 a 1848, mas também a ancestral de numerosas casas reais europeias, ganhando o apelido de "o ventre da Europa".
Isabel Carlota foi descrita como impassível e masculina. Ela possuía o vigor para caçar o dia todo, recusando-se a usar a máscara que as francesas estavam acostumadas a usar para proteger sua pele enquanto assistiam seus homens caçarem. Seu rosto desenvolveu um olhar avermelhado e castigado pelo tempo. Ela caminhava rápido demais para a maioria dos cortesões acompanhar, salvo o rei. Ela tinha uma atitude "sem sentido". Seu apetite saudável a fez ganhar peso com o passar dos anos e, ao se descrever, ela comentou uma vez que seria tão boa para comer quanto um leitão assado. Criada como Protestante, ela não gostava de longas missas latinas. Ela permaneceu virtuosa e às vezes indignada com a infidelidade abertamente praticada pela aristocracia. Seus pontos de vista eram frequentemente o oposto dos prevalecentes na corte francesa.
Isabel Carlota do Palatinado nasceu em 27 de maio de 1652, em Heidelberg. Era filha de Carlos I Luís, Eleitor Palatino, e de Carlota de Hesse-Cassel. Recebeu os nomes de sua avó, Isabel Stuart, ex-rainha da Boêmia, e de sua mãe, mas ficou conhecida ao longo da vida pelo apelido de Liselotte. Ela foi inicialmente criada na fé protestante, a denominação mais difundida no Palatinado naquela época.
O casamento de seus pais foi marcado por constantes conflitos e desentendimentos. Em 1658, o eleitor separou-se oficialmente de sua esposa para se casar com sua antiga dama de companhia, a baronesa Marie Luise von Degenfeld, que se tornou madrasta de Liselotte. Embora provavelmente a visse como uma intrusa e não mantivesse uma boa relação com ela, Isabel Carlota demonstrava afeição por alguns de seus meio-irmãos.
A figura mais importante de sua infância foi sua tia Sofia do Palatinado, irmã mais nova de seu pai. Até seu casamento, em 1658, Sofia viveu no Castelo de Heidelberg e exerceu grande influência sobre a sobrinha, tornando-se uma espécie de mãe substituta: a relação entre as duas permaneceu próxima durante toda a vida, e Sofia foi uma de suas principais confidentes e correspondentes. Nesse período, Liselotte realizou três viagens a Haia, onde teve contato com os refinados costumes da corte de Orange. Foi também nessa cidade que conheceu sua avó, Isabel Stuart, ex-rainha da Boêmia, que lá vivia exilada. Apesar de normalmente não apreciar a convivência com crianças, Isabel Stuart afeiçoou-se profundamente à neta, chegando a declarar-se "completamente apaixonada" por ela; a ex-rainha acreditava que Liselotte se parecia mais com os seus parentes ingleses do que com os alemães, afirmando: "Ela não se parece com os Hesse; ela é como nós". Nesse ínterim, Isabel Carlota e seus familiares alimentaram a expectativa de que ela se casasse com Guilherme III de Orange, futuro rei da Inglaterra. No entanto, esse projeto matrimonial jamais se concretizou.
Em 1671, por razões políticas, Isabel Carlota casou-se com Filipe, Duque de Orleães, irmão mais novo do rei Luís XIV da França e recentemente viúvo de Henriqueta Ana da Inglaterra. Como o marido detinha o título de "Monsieur", designação tradicional atribuída ao irmão mais velho do rei durante o Antigo Regime francês, ela passou a ser conhecida na corte como "Madame".
O casamento foi negociado por Ana Gonzaga, viúva do irmão do eleitor palatino e antiga amiga de Filipe, que acompanhou a princesa de Heidelberg até Paris. O casamento por procuração foi realizada em 16 de novembro de 1671, na Catedral de Metz, perante o bispo Georges d'Aubusson de La Feuillade. Na ocasião, o noivo foi representado pelo Duque de Plessis-Praslin. No dia anterior ao casamento, Isabel Carlota havia renunciado formalmente ao protestantismo e se convertido ao catolicismo romano.
Ela encontrou o marido pela primeira vez em 20 de novembro de 1671, em Châlons-en-Champagne. Décadas mais tarde, em uma carta datada de 9 de janeiro de 1716 dirigida a Princesa de Gales, Isabel Carlota recordou sua impressão sobre o esposo: "Monsieur não tinha uma aparência desagradável, mas era muito baixo; tinha cabelos, sobrancelhas e pálpebras negros como azeviche, grandes olhos castanhos, um rosto muito comprido e algo estreito, um nariz grande, uma boca muito pequena e dentes feios. Tinha maneiras mais femininas do que masculinas; não gostava de cavalos nem de caça, mas apenas de jogos de azar, de receber visitas, de comer bem, de dançar e de se vestir com elegância — em suma, de tudo aquilo que as damas apreciam. (...) O rei adorava galantear as mulheres; não creio que Monsieur tenha se apaixonado alguma vez na vida."
A relação entre Isabel Carlota e seu marido revelou-se difícil desde o início. Monsieur era abertamente homossexual e levava uma vida em grande parte independente, junto com e influenciado por seu principal e antigo amante, o Cavaleiro de Lorena. Além dele, mantinha relações com outros homens mais jovens, frequentemente introduzidos em seu círculo pelo próprio cavaleiro e por seu aliado Antoine Morel de Volonne, que serviu como mordomo de Isabel Carlota entre 1673 e 1683. Isabel Carlota não alimentava ilusões sobre a situação nem sobre a personalidade de Morel, a quem descreveu de forma extremamente negativa: "Ele roubava, mentia, praguejava, era ateu e sodomita; praticava isso e vendia meninos como cavalos."
Monsieur, todavia e com evidente relutância, cumpriu suas obrigações conjugais; o casal teve três filhos: Alexandre Luís (morto na infância), Filipe e Isabel Carlota. Segundo os relatos de Isabel Carlota, o duque evitava demonstrações de afeto e chegava a repreendê-la quando ela o tocava acidentalmente durante o sono. Após o nascimento dos filhos, o casal encerrou definitivamente sua vida sexual. Isabel Carlota não teve outra escolha senão aceitar essas circunstâncias e, por fim, tornou-se uma mulher excepcionalmente esclarecida para sua época, ainda que de uma forma um tanto resignada:
"Onde você e Louisse estiveram presas, para saberem tão pouco do mundo? [...] Quem quisesse odiar todos aqueles que amam rapazes não seria capaz de amar seis pessoas aqui [...] Há de todos os tipos [...] Aí você vê, querida Amelisse, que o mundo é ainda pior do que você jamais imaginou."
Isabel Carlota inicialmente manteve uma relação muito cordial com seu cunhado, Luís XIV. Exímio dançarino que se apresentava nos balés de Lully, o rei ficou "encantado com o fato de ela ser uma mulher extremamente espirituosa e encantadora, que dançava bem". A convivência próxima entre ambos deu origem a uma amizade, e eles frequentemente participavam juntos de caçadas, uma atividade considerada incomum para mulheres da época. Seu gosto por longas caminhadas também chamou a atenção na corte francesa. Embora esse hábito tenha sido inicialmente recebido com certo desdém, especialmente por ela caminhar nos jardins até mesmo à noite. Luís XIV apreciava essa característica. Segundo Isabel Carlota, o rei costumava dizer: "Você é a única que desfruta das belezas de Versalhes". Além disso, ela compartilhava com o Rei Sol o apreço pelo teatro em suas mais diversas formas. Isabel Carlota tinha consciência de estar testemunhando um período de grande florescimento cultural na França, marcado pelo desenvolvimento das artes sob o patrocínio real: