As Invasões Britânicas foram duas tentativas britânicas malsucedidas de tomar o controle da colônia espanhola do Vice-Reino do Rio da Prata, localizada ao redor do Rio da Prata na América do Sul – nos atuais Argentina e Uruguai. As invasões ocorreram entre 1806 e 1807, como parte das Guerras Napoleônicas, Guerra da Terceira Coalizão, numa época em que a Espanha era aliada da França napoleônica. Na historiografia argentina, as duas derrotas sucessivas das forças expedicionárias britânicas são conhecidas coletivamente como a "Reconquista" e a "Defensa", respectivamente.
Houve duas invasões inglesas no Rio da Prata, embora tecnicamente fizessem parte de uma mesma expedição:
A Primeira invasão inglesa de 1806, na qual as tropas britânicas ocuparam a cidade de Buenos Aires, capital do Vice-Reino do Rio da Prata, e que foram vencidas 46 dias depois pelas tropas veteranas de Buenos Aires que haviam sido enviadas a Montevidéu, comandadas por Santiago de Liniers, mais uma divisão de cavalaria composta por voluntários portenhos e dos povoados próximos, dirigidos por Juan Martín de Pueyrredón, além de centenas de civis voluntários da cidade organizados pelo alcaide Martín de Álzaga, no processo conhecido como A Reconquista.
A Segunda invasão inglesa de 1807, na qual as tropas britânicas, após tomarem Montevidéu, tentaram ocupar Buenos Aires e foram rechaçadas pelas forças defensoras, que se compunham de tropas regulares e de milícias urbanas, integradas por parte da população que se havia armado e organizado militarmente durante o curso das invasões, no processo conhecido como A Defesa.
Ficou em evidência a eficácia das milícias do Império Espanhol para defender os seus territórios no contexto dos conflitos internacionais da época. Porém, a participação das milícias, primeiro na Reconquista e, no ano seguinte, na Defesa, aumentou o poder e a popularidade dos líderes militares crioulos e incrementou a influência e o fervor dos grupos independentistas. Paralelamente, esses motivos converteram as invasões inglesas em um dos catalisadores da causa emancipadora no Vice-Reino do Rio da Prata.
Esses fatos se desenvolveram no contexto das disputas territoriais na América, entre o Reino Unido, o Império Espanhol, Portugal, a França e, mais tarde, os Estados Unidos, em um período que se estendeu desde a fundação da Colônia do Sacramento em 1680, até o reconhecimento por parte do Reino Unido da independência argentina com a assinatura de um tratado de paz e comércio em 1825, após a declaração da Doutrina Monroe. Esses tratados não evitariam novas tentativas de expansão do colonialismo britânico sobre o Cone Sul da América, que ocorreu com a ocupação britânica das Ilhas Malvinas em 1833.
As operações no Rio da Prata foram parte de um ataque maior às colônias espanholas na América do Sul. Esperava-se enviar uma expedição a cargo de Robert Craufurd para tomar Valparaíso, na Capitania-Geral do Chile, e havia sido prometido a Francisco de Miranda o apoio de tropas britânicas na Venezuela. O plano proposto por Miranda em 1783 consistia em que 4 000 ingleses ocupariam Buenos Aires, enquanto outras unidades atacariam as costas chilenas e depois avançariam sobre o Peru. Ele voltou a propor esse plano em 1790 e 1796, sendo adotado pelo governo inglês em 1804.
Os territórios espanhóis da Bacia do Prata sofreram, desde sua conquista e colonização, o assédio constante dos indígenas e a ameaça permanente do processo de expansão dos portugueses a partir do Brasil, que tentaram em vão alcançar as imensas riquezas de prata e ouro do Alto Peru por via fluvial a partir do oceano Atlântico Sul, em um período dominado pela política econômica mercantilista, no qual a importância da terra residia, majoritariamente, na existência de minerais preciosos e em sua possibilidade de exploração econômica.
Não foi até a fundação da Colônia do Sacramento, em 1680, que o Rio da Prata cobraria real importância estratégica para a economia e a política internacionais.
O Tratado de Utrecht, de 11 de abril de 1713, pôs fim à Guerra da Sucessão Espanhola que havia sido desencadeada em 1702 após a morte do rei Carlos II, último representante da dinastia dos Habsburgo ou da Áustria. A Casa de Bourbon, de origem francesa, foi a sucessora da Coroa espanhola, empreendendo as denominadas Reformas borbônicas.
A série de acordos assinados entre as potências europeias havia outorgado à Inglaterra a concessão do envio de um barco anual ao domínio espanhol das Índias, chamado de navio de permissão e o asiento de negros, monopólio de trinta anos para o tráfico de escravos negros com esses territórios. A rainha Ana transferiu essas concessões à Companhia dos Mares do Sul (em inglês, The South Sea Company) por 7 500 000 libras para financiar a dívida deixada pela guerra. A especulação econômica que se gerou ao redor do comércio com as colônias espanholas na América do Sul fez com que os títulos da empresa se multiplicassem por nove no primeiro semestre de 1720. Essa bolha econômica, conhecida como a bolha dos mares do Sul, foi uma das crises bursáteis mais devastadoras da história do capitalismo.
Essa instituição estabeleceu um de seus mercados mais importantes na barranca do Retiro, em Buenos Aires. Os navios que transportavam escravos para o Prata permitiam o intercâmbio ilegal de manufaturas pelos produtos primários da região: couro, charque e sebo.
A primeira expedição militar britânica que chegou à região o fez no contexto da Guerra dos Sete Anos. Em janeiro de 1762, a Espanha se envolveu definitivamente nesse conflito entrando em guerra contra a Inglaterra e Portugal. Em outubro do mesmo ano, Pedro de Cevallos voltou a ocupar a Colônia do Sacramento para a Espanha. No ano seguinte, em 1763, ocorreu a fracassada Invasão anglo-portuguesa no Rio da Prata, cuja frota composta por dez navios e mais de mil homens da Grã-Bretanha e de Portugal foi vencida pelas tropas da Espanha ao tentar retomar a Colônia.
A fundação do Vice-Reino do Rio da Prata, em 1776, foi uma medida de caráter estratégico-militar com fortes implicações econômicas. Carlos III se viu pressionado pelo avanço português sobre o Rio da Prata, pelas sucessivas expedições britânicas e francesas sobre as costas da Patagônia e pela necessidade de legalizar as operações irregulares no Porto de Buenos Aires, fomentadas pelo monopólio comercial que o Vice-Reino do Peru, centro do poder espanhol na América do Sul, outorgava à sua capital, Lima.
Enquanto em toda a América e Europa se espalhavam as influentes ideias relacionadas com a Independência dos Estados Unidos, a Revolução Francesa e as políticas liberais do governo do Reino Unido, a Espanha continuava com a sua política tradicional nas suas terras. Dado que praticamente carecia de feitorias, era incapaz de absorver os produtos provenientes do Novo Mundo, desfavorecendo assim o desenvolvimento econômico dos vice-reinos americanos. O principal interesse estava focado na extração de metais preciosos, com os quais a metrópole financiava suas guerras e alianças. Em contrapartida, a Inglaterra trilhava o caminho rumo à industrialização e, portanto, crescia ali a demanda por produtos primários. Dadas as numerosas restrições alfandegárias que se impunham nos portos sul-americanos e a inexistência de atividade mineradora na região do Prata, o contrabando converteu-se rapidamente na base do comércio de uma região cuja atividade econômica principal era a pecuária.
A supressão do monopólio do tráfico das Índias em 1778, que havia privilegiado até então a Casa de Contratação das Índias de Sevilha e, posteriormente, de Cádis, tentou, por um lado, destruir por completo a praça comercial portuguesa da Colônia do Sacramento, após o resultado incerto da ocupação espanhola no mesmo ano de sua fundação. Por outro lado, embora essa medida não tenha conseguido conter o contrabando, foi um antecedente para o crescimento econômico da capital vice-reinal: apenas entre 1800 e 1807, as receitas do Cabildo se multiplicaram por quatorze.
Em 1797, por ordem de Carlos IV, o vice-rei Antonio Olaguer Feliú autorizou o comércio com países neutros devido às dificuldades no intercâmbio com a Espanha, por conta das hostilidades crescentes na Europa e do expressivo domínio inglês dos mares. Isso colocou o Rio da Prata nas rotas do comércio internacional, atraindo inúmeros navios estadunidenses e impulsionando o aumento da presença britânica na economia portenha. De maneira intermitente, o comércio com a Grã-Bretanha passava da legalidade para a clandestinidade, de acordo com as relações inconstantes entre a península e aquela nação. As autoridades vice-reinais em ocasiões fomentaram esse tipo de atividade, em vez de preveni-la, por meio de funcionários corruptos. Esse comércio contribuiu para o surgimento da elite de comerciantes portenhos que, logo depois, enviariam seus filhos para estudar na Europa, de onde trariam as ideias revolucionárias.