A intervenção federal no Rio de Janeiro em 1923 foi decretada pelo presidente do Brasil Artur Bernardes em 10 de janeiro, instalando o interventor Aurelino Leal na chefia do Poder Executivo estadual. O presidente do Estado (governador) Raul Fernandes, empossado em 31 de dezembro no Palácio do Ingá, em Niterói, era contestado por um governo paralelo de Feliciano Sodré. Aurelino Leal convocou novas eleições, nas quais o único concorrente foi Feliciano Sodré, que assumiu o governo em 23 de dezembro. O governo Aurelino desmontou a máquina política da facção "nilista" de Nilo Peçanha, principal força na política do estado do Rio de Janeiro nas duas décadas anteriores.
Nilo era inimigo de Bernardes desde quando concorreu contra ele na conturbada eleição presidencial de 1922. Na eleição estadual, em junho, Sodré perdeu para o nilista Raul Fernandes. Os deputados da oposição, impedidos de entrar na Assembleia Legislativa pela Força Policial do estado, denunciaram as eleições como irregulares e organizaram uma Assembleia paralela. A oposição não controlava a máquina pública ou o orçamento, mas contava com o braço forte do governo federal — o mesmo que Nilo usara contra seus opositores fluminenses em 1910 e 1914. A possível intervenção pairou sobre o nilismo por meses, atraindo atenção na imprensa, sobre o pano de fundo do estado de sítio em vigor desde a Revolta dos 18 do Forte.
Raul Fernandes tomou posse garantido por um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal (STF), com segurança fornecida pelo Exército federal. No poder, foi boicotado pelo governo federal. A violência alastrou-se pelo interior, no qual oposicionistas e agentes da polícia do Distrito Federal destituíram prefeitos, Câmaras Municipais e outras autoridades, instalando governos municipais leais a Feliciano Sodré. O Exército nada fez pelas autoridades municipais. Segundo o ministro Hermenegildo de Barros, Bernardes convenceu o presidente do STF de que o habeas corpus já estava cumprido e só se aplicava aos funcionários estaduais. Em 9 de janeiro a Força Policial rejeitou a autoridade de Raul Fernandes. A dualidade de governos e as desordens no interior serviram de justificativa à intervenção federal.
Os decretos de intervenção divergiam da prática jurídica consolidada por terem sido promulgados sob recesso parlamentar, sem requisitar o governo estadual e investindo o interventor dos mesmos poderes de um presidente de Estado — inclusive na nomeação de funcionários públicos sem conexão à máquina nilista. A medida transformou o estado do Rio num aliado do governo federal, assim como os outros oponentes na eleição de 1922, o Rio Grande do Sul e a Bahia, que também enfrentaram crises resolvidas favoravelmente a Bernardes. Políticos e juristas apoiaram a medida, apesar das críticas de que ela desrespeitou o habeas corpus do STF. A indignação de setores militares com a intervenção e o papel do Exército foi uma das causas da Revolta Paulista de 1924. A longo prazo, prevaleceu a crítica de que as crises no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Bahia teriam sido arquitetadas por Bernardes para se vingar de seus adversários.
O estado do Rio de Janeiro em 1922 tinha capital em Niterói e 48 municípios. A cidade do Rio de Janeiro não fazia parte e era administrada como o Distrito Federal, mas sua proximidade significava um envolvimento federal constante nos assuntos fluminenses. No Segundo Reinado, a "Velha Província" do Rio chegou a ser a principal força política do país, mas sua prosperidade baseada na cafeicultura entrou em declínio na década de 1880. Sua economia e bancada no Congresso ainda eram suficientes para figurar como potência de segunda grandeza na Primeira República, inferior a São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Esses estados tinham partidos dominantes coesos, ao contrário das sucessivas lutas políticas internas do Rio de Janeiro.
A corrente dominante na política fluminense, desde o início do século XX, era o "nilismo" de Nilo Peçanha, já referido como "a mais importante força política surgida no Estado do Rio durante a primeira República". Nilo, que chegou a ser presidente da República entre 1909 e 1910, ambicionava aumentar a projeção nacional de seu estado. A máquina política nilista usava típicos instrumentos do coronelismo, como as perseguições políticas e fraudes eleitorais, ao mesmo tempo que Nilo expressava na política nacional um discurso inovador, apelando às camadas urbanas. O partido nilista era o Partido Republicano do Rio de Janeiro (PRRJ), antigo Partido Republicano Fluminense, que não chegava a ser uma agremiação disciplinada e coesa.
Enquanto presidente da República, em 1910, houve dualidade de Assembleias Legislativas no Rio de Janeiro, uma situacionista e outra oposicionista. Nilo solicitou intervenção federal e ocupou militarmente o estado para derrubar a dissidência de Alfredo Backer e empossar seu candidato a presidente do Estado (governador), Oliveira Botelho. Em 1914, concorreu pessoalmente contra Feliciano Sodré e recorreu a um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal (STF) para tomar posse. Houve nova dualidade de Assembleias e também dualidade de governos estaduais. A oposição solicitou intervenção federal, mas Nilo triunfou com uma ocupação militar ordenada pelo presidente Venceslau Brás. Policiais cariocas invadiram casas de opositores de Nilo em Niterói e empastelaram jornais em Campos. Os anos seguintes foram de estabilidade interna e boas relações com o governo federal. O presidente estadual em 1922, Raul Veiga, era um de seus aliados mais fiéis.
Representantes dos estados reuniram-se em junho de 1921 para definir o candidato situacionista a presidente da República na eleição do ano seguinte. Quase todos os estados, especialmente São Paulo e Minas Gerais, ratificaram o nome de Artur Bernardes para suceder a Epitácio Pessoa. Só o Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia e Pernambuco não enviaram representantes à convenção, preferindo lançar as candidaturas de Nilo Peçanha para presidente e J. J. Seabra, da Bahia, para vice-presidente, formando a Reação Republicana.
Os opositores de Nilo no Rio, Backer e Sodré, formaram a Comissão Oposicionista Fluminense para apoiar Bernardes, beneficiando-se do apoio do governo Epitácio. O juiz federal Leon Roussolières, importante aliado bernardista no Rio, promoveu o alistamento de eleitores e a nomeação de novos juízes suplentes sem ligação ao nilismo. Cedendo a uma reivindicação das oposições, a Assembleia Legislativa dominada pelos nilistas tornou eletivo o cargo de prefeito. Ao mesmo tempo, aprovou uma nova lei eleitoral para apertar o controle sobre a composição das mesas eleitorais e juntas apuradoras. A vitória nilista nas eleições para a Assembleia Legislativa e as Câmaras Municipais, em 18 de dezembro, não foi uma surpresa, mas a oposição contestou a legitimidade da junta apuradora.
O resultado da disputa estava atrelado à eleição nacional, que foi vencida por Bernardes em março de 1922, após uma campanha dura e hostil. A Reação Republicana não aceitou os resultados e tentou mobilizar a pressão das massas e dos militares para uma arbitração do processo eleitoral. Os ânimos militares estalaram em 5 de julho, na Revolta dos 18 do Forte. O levante armado foi breve e o governo federal prontamente declarou estado de sítio no Distrito Federal e estado do Rio de Janeiro, com votos favoráveis dos deputados da Reação Republicana. A revolta não era intenção de Nilo, mas em solidariedade ele contribuiu à defesa legal dos rebelados. Bernardes não o perdoaria.
A campanha para o Executivo estadual limitou-se aos tradicionais banquete e leitura da plataforma, sem mobilização popular. Os programas de governo fugiam da norma ao tratar de preocupações específicas: a plataforma nilista de Raul Fernandes tinha algumas críticas ao modelo oligárquico-clientelístico, prometendo separar o exercício do governo da chefia do partido (ou seja, separando-se do papel de Nilo), e defendia o federalismo (posição implícita contra a ameaça de intervenção federal) e pautas agrárias. A plataforma oposicionista de Feliciano Sodré, menos detalhada, focava em questões urbanas. A base política da oposição estava nos principais centros urbanos, especialmente na capital, mas isto não significa que a eleição fosse uma disputa entre modelos econômicos. A luta política era entre grupos clientelísticos.