Hugo Orlando Gatti (Carlos Tejedor, 19 de agosto de 1944 – Buenos Aires, 20 de abril de 2025) foi um futebolista argentino que competiu na Copa do Mundo FIFA de 1966. Celebrizou-se como um dos mais irreverentes goleiros da história, não por acaso recebendo o apelido de El Loco; espalhafatoso nas vestes e no jeito de jogar, costumava ir para cima dos atacantes, quase como um zagueiro; a revista El Gráfico o classificou como "um líbero com permissão para usar as mãos". Era considerado um verdadeiro showman para a torcida e demais espectadores.
Provocador, sendo amado e odiado, também era desbocado, já tendo declarado que se considera o melhor goleiro entre seus pares. Descrito como intuitivo, prático, ágil, atento, concentrado e seguro de si, também ficou famoso como um grande defensor de pênaltis – apenas nos tempos regulamentares (desconsiderando as decisões por penalidades), pegou 26 durante a longeva carreira. Foi o segundo goleiro eleito como melhor jogador de seu país, em 1982. É também o jogador com mais partidas na história do futebol argentino, tendo jogado 765 partidas.
Gatti foi lenda do Boca Juniors, sendo o segundo jogador com mais partidas pela equipe (381, em jogos oficiais, e 417, no total; uma delas, curiosamente, como meio-de-campo e outra como atacante), atrás apenas do ex-colega Roberto Mouzo. Foi o goleiro presente nos dois primeiros títulos do clube na Taça Libertadores da América e da primeira Copa Intercontinental boquense, além de ter vencido também três campeonatos argentinos no clube. Jogou por doze anos no Boca, onde, aos 44 anos de idade e após vinte e seis de carreira, se aposentou. Antes, havia jogado justamente no River Plate, sendo um dos doze futebolistas que a Seleção Argentina convocou de ambos os rivais, e o único goleiro.
Para o IFFHS, só está atrás de seus contemporâneos – e concorrentes– Amadeo Carrizo e Ubaldo Fillol como maior goleiro argentino do século XX, sendo considerado também o sétimo entre os sul-americanos. Com este último, viveu uma certa rivalidade: além de jogar pelo Boca enquanto Fillol era do River e concorrerem pela titularidade na Seleção, representavam estilos diferentes - enquanto Gatti chegava a sair de sua área para parar jogadas adversárias, o outro só costumava mexer-se entre as traves. Ambos também dividem o recorde de pênaltis defendidos no campeonato argentino, guardando uma relação cordial mesmo que Gatti perdesse para Fillol a vaga na Copa do Mundo FIFA de 1978..
Gatti foi considerado um jogador adiantado para a sua época. Diferenciava-se da maiora dos outros goleiros, no estilo de jogo e até no visual. Não concordava em ficar entre as traves: acredita que "goleiros defensores" apenas solucionam problemas criados por eles próprios, por não lerem as jogadas adversárias e assim saírem de suas áreas para interceptá-las mais cedo. "Hoje, todos os goleiros me dão pena, porque todos estão abaixo do travessão, salvo dois ou três. Ninguém se diverte.
Sequer gostava que lhe chamassem de goleiro: dizia ser "um jogador de futebol que pode usar as mãos". Por vezes, nem as mãos usava, segurando-as atrás das costas enquanto usava os pés para se impor aos adversários. Sua característica jogada adiantada era conhecida como la de Dios. Sobre Ubaldo Fillol, seu grande concorrente na seleção e de pensamento oposto, afirmou justamente que "foi o goleiro mais importante que conheci... embaixo das balizas!".
Visualmente, chamava a atenção também pelas vestes espalhafatosas, por vezes coloridas, que incluíam também uma bandana na cabeça e bermuda ao invés de calções curtos da época. "Isso era parte da minha vida. Me olhava no espelho e, se me enxergava bonito, agarrava bem. Se não, agarrava mal". A vaidade lhe fazia ser um dos últimos a deixar os vestiários antes das partidas: seu ritual pré-jogo continha um longo banho de imersão e cuidar dos cabelos; chegava a atender repórteres enquanto usava secador nas mexas. Na década de 1980, chegava a utilizar como camisa de goleiro no Boca vestes de clubes estrangeiros, como a do Santos.
Outro hábito que tinha antes de entrar em campo era tomar vinho para aliviar o nervosismo. Chegou a dizer que recomendaria isso aos jogadores se fosse técnico. "Para mim, seria muito mais fácil jogar neste circo de hoje. Tudo o que agora está permitido fazia eu quando estava proibido. Os grandes jogadores de antes poderiam jogar hoje. E os grandes jogadores de hoje não teriam podido jogar antes", assegurou em 2005.
Gatti iniciou em 1962 a carreira no Atlanta, pequena equipe portenha de Villa Crespo, apesar do desastroso teste que realizara ali: sofreu 14 gols. Ainda assim, foi bancado por Bernardo Gandulla, antigo jogador do clube. Contudo, ainda passou por dificuldades no início, precisando vender chapéus e geladeiras com o irmão para se sustentar na capital federal.
Inspirado por Néstor Errea, a quem considerou em 2005 o melhor goleiro que já viu, teve bons momentos nos bohemios, que na época conseguiam intrometer-se entre os primeiros clubes no campeonato argentino, obtendo duas vezes seguidas a quinta colocação, em 1963 e 1964.
Chamou a atenção do River Plate, que o levou juntamente com o colega Mario Bonczuk. Mais de quarenta anos depois de sua saída, ainda guardava carinho por seu primeiro clube: declarou em 2005 que voltaria a jogar por ele, se recebesse uma proposta para atuar quinzenalmente.
Ficaria no Riveraté 1968. Apesar de não ter se saído mal (ele até teve por quase 50 anos o recorde de invencibilidade de um goleiro recém-chegado no clube, sendo superado em 2011), sua estadia nos millonarios encontrou dois obstáculos para que se consagrasse entre eles: um foi a titularidade do lendário Amadeo Carrizo, por sinal, uma das maiores inspirações do jovem, que se espelhou bastante também no veterano para desenvolver seu próprio estilo. Por outro lado, não se furtava de se impor diante do ídolo, inclusive declarando tê-lo superado, tese que chegou a encontrar defensores na imprensa na época.
Outro obstáculo foi o jejum vivido no clube no período: o River não conseguiu nenhum título oficial entre 1958 e 1975, e, durante a passagem de Gatti, o time teria dois dolorosos vice-campeonatos: o nacional de 1965, que escapou por um ponto para o arquirrival Boca Juniors; e a Taça Libertadores da América de 1966, em que a inédita conquista ficou com o Peñarol após os argentinos terem uma vantagem de 2 x 0 revertida para 2 x 4 pelos uruguaios.
Apesar da sombra de Carrizo - que, a semanas de seus 40 anos, foi o titular nas finais daquela Libertadores -, Gatti, e não o titular, foi convocado naquele 1966 para a Copa do Mundo daquele ano. Embora Carrizo tenha deixado o clube após 1968, Gatti também sairia do River: ao fim daquele mesmo ano, foi vendido ao Gimnasia y Esgrima La Plata.
Embora não tenha feito exatamente sucesso como riverplatense e de ser assumido torcedor do rival Boca, chegou a negociar uma volta aos millonarios no fim da carreira e lamentou o inédito rebaixamento do clube em 2011; declarou que "Sou do Boca, defendi essa camiseta durante anos. Mas também tive a sorte de jogar no River. De saber o que significa essa camiseta, de sentir o peso de sua história".
No Gimnasia, passaria seis anos como titular absoluto. Fez parte de um dos elencos mais recordados da equipe platense, conhecido como La Barredora; a equipe chegou a dar a impressão de que iniciaria uma resposta ao domínio continental do arquirrival Estudiantes (recém-tricampeão seguido da Libertadores), mas o sonho acabou nas semifinais do campeonato nacional de 1970, ante o Rosario Central; uma inoportuna greve da categoria de jogadores teria esfriado a ascensão gimnasista naquele momento.
Os anos seguintes, porém, seriam de campanhas ruins ou medianas do Lobo, longe das primeiras colocações tanto no torneio nacional quanto no metropolitano (como dividia-se o campeonato argentino na época);
Em 1974, Gatti foi transferido para uma equipe de porte ainda menor, o Unión, a pedido do técnico deste, Juan Carlos Lorenzo, o mesmo que o convocara para a Copa do Mundo de 1966. No clube de Santa Fe, deu uma volta por cima, superando as expectativas geradas e relançando a carreira. Participou ativamente da boa campanha do time no metropolitano - torneio mais valorizado que o próprio nacional - de 1975, em que o Unión terminou em quarto. Naquela temporada, Gatti chegou a defender quatro pênaltis.