Henry Purcell (Londres?, 10 de setembro de 1659 – 21 de novembro de 1695) foi um músico inglês que atuou como cantor, instrumentista e construtor de instrumentos, editor e professor, mas é mais lembrado como compositor, um dos mais importantes da Inglaterra.
Foi estimando na corte durante os reinados de três monarcas, e deixou uma obra vasta, influenciada pelo seu denso estudo da tradição britânica anterior e pela música francesa e italiana, com composições nos principais gêneros cultivados em seu tempo, incluindo odes cortesãs, ópera, música cênica, hinos sacros, canções profanas, música de câmara e peças para órgão e teclado. Entre suas composições mais conhecidas estão a ópera Dido and Aeneas (1689), a música cênica para as peças King Arthur (1691), The Fairy Queen (1692), The Indian Queen (1695) e The Tempest (1695), as Lições para cravo, suas sonatas e fantasias para viola da gamba, a Ode a Santa Cecília (1683), o Te Deum and Jubilate para o dia de Santa Cecília (1694), a Ode para o aniversário da Rainha Maria (1694), a Música para o funeral da Rainha Maria (1695), e a coleção de canções Orpheus Britannicus.
Purcell ganhou fama ainda em vida, sendo especialmente apreciadas sua versatilidade no domínio de todos os gêneros e sua capacidade de dar força expressiva à música com texto inglês, tanto sacra quanto profana, emocionando seus ouvintes. Para muitos de sua geração, ele foi o responsável por equiparar a música da Inglaterra à dos principais centros europeus. Após sua morte o interesse pela sua produção sofreu um contínuo declínio, mas nunca saiu completamente do repertório, em particular suas canções profanas, que permaneceram populares até o século XIX. No fim deste século começou um trabalho de recuperação do seu legado e de publicação de suas obras completas em edição crítica, e no século XX a bibliografia sobre ele se multiplicou, voltando a ser muito valorizado tanto pelos especialistas como pelo público, considerado um dos grandes ícones da música britânica e um dos principais mestres da música barroca internacional.
Purcell nasceu em 1659 em local incerto. O único consenso entre os historiadores é que foi na Inglaterra, provavelmente em Londres, talvez na área da Abadia de Westminster. Era filho de Elizabeth e do músico Henry Purcell o Velho, um cavalheiro da Capela Real que cantou na coroação do rei Carlos II da Inglaterra. Edward e Daniel foram seus irmãos. Daniel Purcell também foi um compositor prolífico e escreveu a música para grande parte do ato final de The Indian Queen após a morte de Henry.
Após a morte de Henry o Velho em 1664, Purcell foi colocado sob a tutela de seu tio, o músico Thomas Purcell, que lhe mostrou grande afeto e bondade. Thomas era cavalheiro da Capela Real e ajudante do guarda-roupa de Carlos II, fez uma carreira significativa como cortesão, tinha excelentes contatos e providenciou para que o sobrinho fosse admitido no coro da Capela, estudando primeiro com o Henry Cooke, Mestre dos Meninos, e depois com Pelham Humfrey, sucessor de Cooke. Pode ter estudado cravo e órgão com Christopher Gibbons. Cantou no coro até 1673, quando sua voz mudou, então tornou-se assistente não remunerado de John Hingston, conservador dos instrumentos do rei e construtor de órgãos.
Diz a tradição que Purcell compunha desde os nove anos de idade, e a canção de três partes Sweet tyranness, I now resign pode ter sido escrita por ele quando criança, mas a obra mais antiga identificada com segurança como sua é uma ode ao aniversário do rei escrita em 1670. Após a morte de Humfrey, Purcell continuou seus estudos musicais com John Blow. Frequentou a escola da Abadia de Westminster, foi nomeado afinador do órgão da Abadia em 1674, cargo que manteria até 1678, e em 1676 entrou para a equipe de copistas de partituras.
Em 1677 recebeu sua primeira nomeação importante, sucedendo Matthew Locke como um dos compositores da orquestra de cordas do rei Carlos II, sendo responsável pela produção de obras para o entretenimento da corte. O seu primeiro hino foi composto em 1678, prescrito para o dia de Natal e também para ser lido na oração matinal do quarto dia do mês.
Em 1679 escreveu canções para Choice Ayres, Songs and Dialogues, de John Playford, e um hino para a Capela Real a ser cantado pelo reverendo John Gostling, dono de uma extraordinária voz de baixo profundo. Purcell escreveria ao longo da vida diversos outros hinos para ele, entre eles o notável They that go down to the sea in ships, cujo libreto é do mesmo Gostling, escrito como ação de graças pela salvação de Carlos II de um naufrágio.
Ainda em 1679, Blow, que havia sido nomeado organista da Abadia de Westminster 10 anos antes, renunciou ao cargo em favor de Purcell. Purcell então se dedicou quase inteiramente à composição de música sacra, e por seis anos cortou sua ligação com o teatro. No entanto, durante a primeira parte de 1679, provavelmente antes de assumir seu novo cargo, produziu duas obras importantes para o palco, a música para os dramas Theodosius de Nathaniel Lee, e Virtuous Wife de Thomas d'Urfey.
Casou-se com Frances em 1680 ou 1681, que lhe daria pelo menos seis filhos, e em 1682 foi nomeado um dos três organistas da Capela Real, cargo que exerceu simultaneamente com sua posição na Abadia de Westminster e que exigia que cantasse no coro quando não estivesse ocupado no órgão. Seu filho mais velho nasceu neste mesmo ano, mas teve vida curta. Em 1683 sucedeu Hingston como conservador dos instrumentos e ao mesmo tempo foi nomeado construtor/conservador dos órgãos reais. Sua primeira composição impressa, Doze Sonatas, foi publicada em 1683. Por alguns anos depois disso, dedicou-se à produção de música sacra, odes dirigidas ao rei e família real, e outras semelhantes. Escreveu dois de seus melhores hinos, I was glad e My heart is inditing, para a coroação do rei Jaime II em 23 de abril de 1685, e tocou órgão na cerimônia.
Contudo, Jaime II era católico e pouco interessando em música, e as atividades na Capela Real declinaram durante seu breve reinado, o mesmo ocorrendo com a música de circunstância, que se resumiu a três odes para os aniversários do monarca. Mesmo assim, neste período Purcell compôs outros hinos de alta qualidade, e também começou a voltar seu interesse para outros públicos. Em 1686 já há registros dele recebendo pupilos, no ano seguinte é conhecida sua primeira peça especificamente didática, um cânone a 4 partes incluído num manual teórico de Playford. Em 1687 retomou sua conexão com o teatro, fornecendo a música para a tragédia Tyrannick Love de John Dryden, e antes de janeiro de 1688 compôs o hino Blessed are they that fear the Lord por ordem expressa do rei. Alguns meses depois, escreveu a música para a peça The Fool's Preferment de D'Urfey. Em 1688 editou e publicou o primeiro volume de uma importante coletânea de obras vocais suas e de outros compositores, Harmonia sacra, a culminação de uma atividade editorial que já vinha desempenhando há algum tempo. Em 1689 contribuiu com várias peças didáticas para o manual Musick's Handmaid, tocou órgão na coroação de Guilherme III e teve seus cargos na corte confirmados. A composição de sua ópera de câmara Dido and Aeneas, com libreto de Nahum Tate, foi atribuída a este período, e sua produção mais antiga pode ter sido anterior à récita documentada de 1689. A primeira apresentação teve a colaboração de Josias Priest, mestre de dança e coreógrafo do Dorset Garden Theatre.
Em 1690 já era reconhecido como um grande professor de teclado e sua obra compositiva dava sólidos sinais de maturidade, com um crescente poder expressivo e dramático, um estilo coerente que integrava a irregularidade e as tendências dispersivas dos anos anteriores, estruturas complexas e harmonias mais sofisticadas, ousadas e mesmo experimentais. Compôs uma ode para o aniversário da rainha Maria, Arise, my muse, e a música para Dioclesian, uma adaptação de Prophetess de Fletcher e Massinger, e para Amphitryon de Dryden. Em 1691 escreveu a música para King Arthur, or The British Worthy. Em 1692 foi a vez de The Fairy-Queen, uma adaptação de A Midsummer Night's Dream de Shakespeare. Em 1693 compôs música para as comédias The Old Bachelor e The Double Dealer. O célebre Te Deum and Jubilate foi escrito para o Dia de Santa Cecília de 1694, o primeiro Te Deum inglês com acompanhamento orquestral. Este trabalho foi executado anualmente na Catedral de São Paulo até 1712. Seguiu-se The Indian Queen em 1695, uma adaptação de uma tragédia de Dryden e Sir Robert Howard. No mesmo ano escreveu canções para The Tempest de Dryden e Davenant, e em sequência escreveu uma das suas obras mais elaboradas, importantes e magníficas, uma outra ode de aniversário para a rainha, Come Ye Sons of Art, com libreto de Nahum Tate. Compôs Funeral Sentences and Music for the Funeral of Queen Mary para o sepultamento da rainha Maria, a música para The Comical History of Don Quixote, Bonduca e outras peças de Thomas d'Urfey, e em julho de 1695 compôs uma ode para o aniversário do Duque de Gloucester.