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Henrique I do Haiti

Figura da Revolução Haitiana, rei do Haiti do Norte (1811-1820)

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Henrique I (São Cristóvão, 6 de outubro de 1767 — Cap-Henri, 8 de outubro de 1820), nascido Henrique Cristóvão (em francês: Henri Christophe) foi um autoproclamado rei do Haiti. Militar de carreira, detinha a patente de general do exército haitiano quando tornou-se presidente, em 17 de fevereiro de 1807. Proclamou-se rei em 26 de março de 1811. Cometeu suicídio em 8 de outubro de 1820.

Participou ativamente do processo de independência do país, unindo-se aos líderes Alexandre Pétion e Jean-Jacques Dessalines contra o então Império Francês. Quando do êxito da Revolução Haitiana, em 1804, os escravos foram libertos.

Nascido Henrique Cristóvão (em francês: Henri Christophe) em São Cristóvão, ele foi levado para São Domingos como escravo. Possivelmente tinha ascendência senegambiana. Trabalhou no restaurante dum hotel, por meio do que é dito que comprou sua liberdade. Acredita-se que em 1779 ele tenha servido às forças francesas na Revolução Americana como percussionista, no Chasseurs-Volontaires de Saint-Domingue, um regimento composto por negros e mestiços livres, durante o cerco a Savannah.

Henrique se destacou na Revolução Haitiana de 1791, ascendendo ao posto de general em 1802. Em 1806, ele estava ciente dum plano para matar Jean-Jacques Dessalines, o primeiro governante haitiano sob o nome de "Jaime I"; percebendo aí uma oportunidade para tomar o poder. O plano foi executado por Alexandre Pétion, movido igualmente pelo desejo de poder.

Após o regicídio, Henrique foi eleito presidente mas sem poderes de facto. Sentindo-se insultado, retirou-se ao norte, onde angariou forças para fundar um estado próprio. Em 1807, Henrique tornou-se presidente do Estado do Haiti (presidente e generalíssimo das forças de terra e mar do Estado do Haiti), ao norte, enquanto Pétion tornava-se presidente da República do Haiti, ao sul.

Em 1811, Henrique elevou a parcela norte do país a condição de reino (Reino do Haiti). Um edital de 1 de abril de 1811 determina seu título completo como Henrique, pela graça de Deus e pela Lei constitucional do Estado Real do Haiti, Soberano das Ilhas de Tortuga, Gônave, e outras ilhas adjacentes, Destruidor da tirania, Regenerador e benfeitor da nação haitiana, Criador das instituições morais, políticas e guerreiras, Primeiro monarca coroado do Novo Mundo, Defensor da fé, Fundador da ordem real e militar de Santo Henrique.

Um de seus primeiros atos como rei foi a instituição da nobreza haitiana, criando quatro títulos de príncipe, sete de duque, vinte e dois de conde, quarenta de barão e catorze de cavaleiro. Fundou também um colégio de armas a fim de prover brasões aos novos nobres. Nove anos depois, no ocaso de seu reinado, haviam sido criados mais quarenta e sete títulos.

Seu único filho varão ainda vivo, Jaime Vítor Henrique, foi intitulado "Príncipe Real do Haiti" (seu filho mais velho, Francisco Fernando, nasceu e morreu antes da ascensão de seu pai ao trono). Do seu casamento com Maria Luísa Coidavid, ainda tinha duas filhas: Francisca Ametista (1798-1831) e Ana Atenas (1800-1839).

Alguns europeus zombaram de sua criação. Os títulos de Duque de Limonade (Julien Prévost, secretário de Estado de Henrique) e Duque de Marmelade (Jean-Pierre Richard, governador de Cap-Heri) foram considerados particularmente cômicos por aqueles que não sabiam que, na verdade, derivavam de nomes de localidades atribuídos anteriormente pelos colonizadores franceses.

Henrique construiu para si seis castelos, oito palácios e a gigantesca Cidadela Laferrière.

Durante seu curto reinado, as duas regiões do Haiti enfrentavam o desafio de reconstruir suas economias devastadas pelas guerras longas e dispendiosas, buscando formas de aumentar a produção agrícola. Os Estados Unidos haviam encerrado recentemente seu embargo de armas e mercadorias contra o Haiti, ao mesmo tempo em que entravam em guerra com o Reino Unido em 1812. Diante desse cenário, o rei Henrique viu-se diante de uma escolha crucial: restaurar uma forma adaptada do sistema de plantações escravistas para impulsionar a produção agrícola ou dividir as terras em pequenas propriedades voltadas à agricultura de subsistência, modelo adotado pelo presidente Pétion no sul do país. Henrique optou por implementar o sistema de corvéia, um regime de trabalho forçado em substituição aos impostos, visando retomar a produtividade agrícola, especialmente nas plantações de cana-de-açúcar. Paralelamente, deu início a ambiciosos projetos de construção, que buscavam reforçar sua autoridade e infraestrutura estatal. Embora o regime no norte fosse despótico, a economia açucareira conseguiu gerar receitas significativas para o governo e para os funcionários da administração real. Henrique firmou um acordo com o Reino Unido no qual o Haiti se comprometia a não ameaçar as colônias britânicas no Caribe; em contrapartida, a Marinha Real Britânica passaria a avisar o Haiti sobre eventuais ataques iminentes das tropas francesas. Em 1807, o Parlamento do Reino Unido aprovou a Lei de Comércio de Escravos, que aboliu a importação de escravos para todo o Império Britânico. Com o aumento do comércio bilateral entre o Haiti e a Grã-Bretanha, o governo de Henrique arrecadou uma significativa quantia em libras esterlinas para os cofres do país. Por outro lado, o Haiti do sul, governado por Pétion, enfrentou uma situação econômica muito mais difícil, pois o sistema de divisão de terras adotado naquela região reduziu a produtividade agrícola, resultando em uma queda nas exportações.

Após a abdicação de Napoleão, em abril de 1814, o rei Luís XVIII tentou retomar o controle do Haiti. O Tratado de Paris, ratificado em 30 de maio, devolveu o vizinho São Domingos à Espanha e concedeu um prazo adicional de cinco anos para o comércio de escravos, visando compensar as perdas causadas pela abolição da escravidão. Em outubro de 1814, ministros do rei Henrique I tornaram públicas evidências de planos franceses para tentar recuperar a antiga colônia, por meio de cartas transportadas por agentes franceses capturados na ilha. Diante da comoção gerada, a nação mobilizou-se para a esperada invasão francesa e iniciou uma campanha internacional de relações públicas. A partir de novembro, panfletos, jornais e cartas abertas haitianas começaram a ser reproduzidos na imprensa de diversas regiões do Atlântico. Esses impressos e intervenções editoriais foram acompanhados por textos teóricos críticos sobre raça e colonialismo, como O Sistema Colonial Desvelado (em francês: Le Système colonial dévoilé), de Pompée Valentin Vastey. Simultaneamente, Henrique iniciou comunicação com os mais destacados abolicionistas ingleses: sua carta a William Wilberforce chegou em 5 de janeiro de 1815 e marcou um novo patamar nas relações entre o Reino Unido e o Reino do Haiti.

Apesar de seus esforços para promover a educação e estabelecer um sistema legal, o Código Henriquiano, o rei se tornou um monarca autocrático e impopular, cujo reino estava em constante beligerância com o sul. A opinião pública tornou-se cada vez mais contrária ao que considerou "políticas feudais". Doente e fraco, apesar de ter apenas cinquenta e três anos de idade, Henrique preferiu atirar em si com uma bala de prata à possibilidade de golpe. Seu filho, o príncipe real, então com dezesseis anos, não teve oportunidade de suceder ao pai, sendo preso e executado a estocadas de baioneta por revolucionários no Palácio de Sans-Souci. Foi enterrado na Cidadela Laferrière.

Henrique foi objeto da La Tragédie du Roi Christophe, uma peça de 1963 escrita pelo autor martinicano Aimé Césaire. Foi representado também na novela El Reino del Este Mundo de Alejo Carpentier.

O grupo escoteiro Boy Scouts Troupe Henri Christophe, associado ao colégio Notre Dame Du Perpetuel Secours, em Cabo Haitiano, foi assim nomeado em sua homenagem.

Seus descendentes continuaram entre os grupos mais influentes do Haiti. Pierre Nord Alexis, presidente do Haiti de 1902 a 1908, era neto de Henrique.

Michèle Bennett, que se casou com Jean-Claude Duvalier e foi primeira-dama do Haiti durante seu governo (de 1980 a 1986), é trineta de Henrique.

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