Hedy Lamarr, nome artístico de Hedwig Eva Maria Kiesler (Vienna, 9 de novembro de 1914 — Altamonte Springs, 19 de janeiro de 2000), foi uma atriz e inventora austríaca radicada no Estados Unidos.
Em 28 anos de carreira, participou de mais de 30 filmes e fez uma importante contribuição tecnológica durante a Segunda Guerra Mundial, uma co-invenção, com o compositor George Antheil, um sistema de comunicações para as Forças Armadas dos Estados Unidos que serviu de base para a atual telefonia celular. Em reconhecimento do valor de seu trabalho e da importância da tecnologia por ela inventada, seu nome foi postumamente inserido no National Inventors Hall of Fame em 2014.
Nascida na capital da Áustria-Hungria, Viena, Hedy começou sua carreira de atriz em vários filmes alemães, austríacos e tchecos, inclusive o controverso filme Ecstasy (1933). Em 1937, ela fugiu de seu marido, o fabricante de armas austríaco, Friedrich Mandl, mudando-se para Paris e depois se refugiando em Londres. Lá ela conheceu Louis B. Mayer, diretor dos estúdios da Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) e lhe ofereceu um contrato em Hollywood, onde ela logo foi promovida como sendo a "mulher mais bonita do mundo".
Hedy se tornou uma estrela por sua atuação em Algiers (1938), seu primeiro filme rodado nos Estados Unidos. Trabalhou com grandes atores da época como Clark Gable, em Boom Town e Comrade X (ambos de 1940), e com James Stewart, em Come Live with Me (1941). Outros de seus filmes para a MGM foram Lady of the Tropics (1939), H.M. Pulham, Esq. (1941), Crossroads e White Cargo (ambos de 1942).
Emprestada aos estúdios da Warner Bros., ela estrelou em The Conspirators e para a RKO em Experiment Perilous (ambos de 1944). Cansada de sempre trabalhar nos mesmos papéis, Lamarr co-fundou um novo estúdio e estrelou nos filmes The Strange Woman (1946) e Dishonored Lady (1947). Seu grande sucesso foi no papel de Dalila no longa de Cecil B. DeMille, Sansão e Dalila (1949).
Seu último filme foi The Female Animal (1958). Hedy foi homenageada com uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, em 1960.
Hedy nasceu como Hedwig Eva Maria Kiesler, em Viena, na Áustria-Hungria, em 9 de novembro de 1914. Era a filha única de Gertrud Lichtwitz Kiesler (1894–1977), uma pianista de família judaica de Budapeste, vinda de uma família de classe média, e de Emil Kiesler (1880–1935), gerente financeiro de um grande banco de Viena. Seu pai nasceu em uma família de judeus da Galícia em Lemberg, hoje a cidade de Lviv, na Ucrânia. Ainda que sua mãe tivesse origem judaica, Gertrud se converteu ao catolicismo por influência de seu primeiro marido e acabou criando Hedy como católica, ainda que ela não tivesse sido formalmente batizada.
O interesse na atuação veio desde cedo, quando Hedy, ainda criança, assistia a peças de teatro e a filmes. Estudou balé e piano até os 10 anos e aos 12 anos, ganhou um concurso de beleza em Viena. Hedy era muito ligada ao pai, com quem tinha conversas sobre política, ciência, tecnologia e ele foi uma grande inspiração para sua invenção futura.
Seu pai faleceu em 1935 devido a problemas cardíacos. Depois da Anschluss, Hedy, que já morava nos Estados Unidos, ajudou a mãe a sair da Áustria e se mudar para o Canadá e depois para os Estados Unidos, onde se tornou cidadã norte-americana.
Usando o nome de Hedy Kiesler, ela começou a ter aulas de atuação em Viena. Um dia, ela falsificou uma permissão assinada pela mãe e foi bater na porta da Sascha-Film, uma produtora austríaca que a contratou aos 16 anos como secretária do diretor. Um dia, ela ganhou um papel de figurante no filme Money on the Street (1930) e depois teve um papel pequeno em Storm in a Water Glass (1931). O produtor Max Reinhardt a escalou para uma peça chamada The Weaker Sex, apresentada no Theater in der Josefstadt, um teatro em Viena. Ele se impressionou com o trabalho de Hedy e a chamou para voltar com ele a Berlim, onde ele morava.
Hedy nunca trabalhou em nenhum de seus filmes rodados em Berlim. Depois de conhecer o produtor russo de teatro Alexis Granowsky, ela foi escalada para fazer sua estreia como protagonista em The Trunks of Mr. O.F. (1931), junto de Walter Abel e Peter Lorre. Granowsky mudou-se para Paris, mas Hedy permaneceu em Berlim trabalhando. No filme No Money Needed (1932), uma comédia, Hedy estrelou como a atriz principal, digerida por Carl Boese.
No começo de 1933, aos 18 anos, Hedy recebeu o papel principal no filme de Gustav Machatý, o longa Ecstasy, onde ela interpreta uma mulher negligenciada pelo marido mais velho e pouco afetuoso. O filme se tornou lendário e polêmico por mostrar o rosto da atriz encenando um orgasmo, além de algumas cenas de nudes e closes de partes de seu corpo. Quando se interessou pelo papel, Hedy entendia pouco sobre filmagens e, ansiosa pelo trabalho, assinou o contrato sem ler o roteiro.
Em uma cena externa, quando o diretor pediu que ela ficasse nua, Hedy reclamou e ameaçou se demitir do filme, mas ele disse que se ela saísse teria que pagar pelo custo de todas as cenas já rodadas. Para acalmá-la, disse que usaria cenas filmadas de longe, onde qualquer outro detalhe de seu corpo não pudesse aparecer. Na estreia do filme, em Praga, ao notar que os closes foram feitos e que o diretor não cumprira com sua palavra, Hedy saiu do cinema em prantos, pensando em seus pais e que sua carreira de atriz tinha acabado.
Ainda que estivesse inconformada com a forma como foi tratada na produção, Ecstasy ficou famoso e até foi premiado em um festival em Roma. Pela Europa inteira, ele foi considerado como um grande trabalho artístico. Nos Estados Unidos, porém, o filme foi banido por ser considerado imoral e por ser "degradante para mulheres". Também foi banido na Alemanha por conta da ascendência judaica de Hedy. Seu futuro marido, Fritz Mandl, teria gastado cerca de 300 mil dólares comprando cópias do filme para depois destrui-las.
Hedy estrelou em várias peças de teatro, incluindo Sissy, uma peça sobre Isabel da Baviera, Imperatriz da Áustria, produzida em Viena em 1933, quase ao mesmo tempo da estreia de Ecstasy. A atriz foi bastante elogiada por público e crítica na época. Admiradores mandava rosas para seu camarim e tentavam acessar os fundos do teatro apenas para vê-la. O mais insistente deles era Friedrich Mandl, que se tornou obcecado por Hedy e para conhecê-la.
Friedrich Mandl era um fabricante de munições e armas, conhecido como o terceiro homem mais rico da Áustria. Hedy se apaixonou por Mandl, ainda que seus pais discordassem da união, mas temendo as conexões de Mandl com homens poderosos como Benito Mussolini e Adolf Hitler, optaram por não interferir no relacionamento.
Em 10 de agosto de 1933, aos 18 anos, Hedy se casou com Mandl, que na época tinha 33 anos e já era divorciado. Era filho de um judeu e de uma católica, mas ele insistiu que Hedy se convertesse ao catolicismo antes do casamento deles na catedral de Karlskirche, em Viena. Mandl é descrito como sendo um marido controlador, possessivo e impediu que Hedy continuasse sua carreira de atriz depois do casamento. Hedy relatou que foi tratada como prisioneira do próprio marido em uma das residências do casal, o castelo de Schwarzenau, perto da fronteira com a Chéquia.
Mandl tinha amizades e fazia negócios com o governo italiano, vendendo munições e armas e, apesar de ter um pai judeu, também tinha conexões com o governo nazista na Alemanha. Hedy acompanhava Mandl em festas e reuniões, onde ele trabalhava com cientistas e outros envolvidos na tecnologia armamentista. Nestas reuniões Hedy começou a se interessar pela ciência aplicada e começou a ler livros e compêndios que existiam na biblioteca da mansão de Mandl.