João Guimarães Rosa OMC (Cordisburgo, 27 de junho de 1908 – Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967) foi um médico, diplomata, escritor e poeta brasileiro, identificado com a terceira geração do modernismo no Brasil e reconhecido por muitos como o maior escritor brasileiro do século XX. Seu estilo é marcado por neologismos, coloquialidade e fluxo de consciência e sua ficção ambienta-se no sertão mineiro. Seu romance Grande Sertão: Veredas, sua magnum opus, é reconhecido internacionalmente entre os maiores romances do século XX.
Guimarães Rosa nasceu na cidade de Cordisburgo, no estado de Minas Gerais, e ao longo da vida exerceu as profissões de médico e diplomata. Enquanto servia como cônsul-adjunto em Hamburgo, entre 1938 e 1942, ele e sua segunda esposa Aracy de Carvalho ajudaram muitos judeus que fugiam do nazismo a entrarem ilegalmente no Brasil. Em 1963, foi eleito para a Cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras (ABL) mas adiou sua posse até 1967, crendo que morreria assim que assumisse, o que realmente aconteceu, três dias depois.
Foi o primeiro dos seis filhos de Francisca Guimarães Rosa ("Chiquitita") e de Florduardo Pinto Rosa ("Flor"), juiz de Paz, vereador e comerciante em Cordisburgo.
Começou ainda criança a estudar diversos idiomas, iniciando pelo francês quando ainda não tinha 6 anos. Em entrevista concedida a uma prima, anos mais tarde, afirmou:
Ainda pequeno, mudou-se para a casa dos avós, em Belo Horizonte, onde concluiu o curso primário. Iniciou o curso secundário no Colégio Santo Antônio, em São João del-Rei, mas logo retornou a Belo Horizonte, onde se formou. O tio Adonias, fazendeiro muito rico, dono da fazenda Sarandi, patrocinou os estudos de Guimarães Rosa no Colégio Arnaldo. Em 1925 matriculou-se na então Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, com apenas 16 anos, tendo sido o orador da Turma, em 1930.
Em 27 de junho de 1930, casou-se com Lígia Cabral Pena, com quem teve duas filhas: Vilma e Agnes. Ainda neste ano se formou e passou a exercer a profissão em Itaguara, cidade do interior mineiro, então distrito de Itaúna, onde permaneceu cerca de dois anos. Foi nessa localidade que passou a ter maior contato com os elementos do sertão, que forneceram também de inspiração à sua obra.
Saindo de Itaguara, durante a Revolução Constitucionalista de 1932, voltou para Belo Horizonte a fim de servir como médico voluntário da Força Pública de Minas Gerais (atual Polícia Militar de Minas Gerais), estado cujo governo estava alinhado politicamente com o presidente Getúlio Vargas. Indo para o setor do Túnel em Passa Quatro, em Minas Gerais, tomou contato com o futuro presidente Juscelino Kubitschek, formado na mesma Faculdade de Medicina de Minas Gerais, trabalhando, naquela ocasião, também como médico da Força Pública de Minas Gerais. Posteriormente, por concurso, entrou para o quadro da Força Pública. Em 1933, foi para Barbacena na qualidade de oficial médico do 9º Batalhão de Infantaria. Após a Revolução, dirigiu-se à cidade do Rio de Janeiro, para prestar o concurso público de diplomata, no Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores). Aprovado em 1934, exerceu sua função na Europa e na América Latina.
No início da carreira diplomática, assumiu, como primeiro posto no exterior, o cargo de cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo, na Alemanha, de 1938 a 1942. Lá conheceu e veio a casar-se com Aracy Moebius de Carvalho, funcionária do Itamaraty que, durante a Segunda Guerra Mundial, para auxiliar judeus a fugir para o Brasil, emitiu mais vistos do que as cotas legalmente estipuladas. Por esta razão, a sua ação humanitária e de extrema coragem, Aracy de Carvalho Guimarães Rosa (nome de casada) foi agraciada, no pós-guerra, pelo Estado de Israel. É a única mulher brasileira homenageada no Jardim dos Justos entre as Nações, no Yad Vashem, que é o Memorial Oficial de Israel, situado em Jerusalém, para relembrar a todas as pessoas que sofreram no Holocausto.
Depois de servir em Hamburgo, Guimarães Rosa atuou, ainda, como diplomata, nas Embaixadas do Brasil em Bogotá e em Paris.
No Brasil, Guimarães Rosa, na segunda vez em que se candidatou para a Academia Brasileira de Letras (ABL), foi eleito por unanimidade, em 1963. Temendo ser tomado por uma forte emoção, adiou a cerimônia de posse por quatro anos. Em seu notável discurso de posse, quando enfim decidiu assumir a Cadeira da ABL, em 16 de novembro de 1967, chegou a afirmar, em tom de despedida, como se soubesse o que se passaria ao entardecer do domingo seguinte: "…a gente morre é para provar que viveu." Morreu, na cidade do Rio de Janeiro, em 19 de novembro. Seu laudo médico atestou um infarto.
Realismo mágico, regionalismo, liberdade de invenções linguísticas e neologismos são algumas das características fundamentais da literatura de Guimarães Rosa, mas não as suficientes para explicar seu sucesso. Guimarães Rosa prova o quão importante é ter a linguagem a serviço da temática e vice-versa, uma potencializando a outra. Nesse sentido, o escritor mineiro inaugura uma metamorfose no regionalismo brasileiro que o traria de novo ao centro da ficção brasileira.[carece de fontes?]
Sua obra mais marcante foi Grande Sertão: Veredas, romance qualificado por Rosa como uma "autobiografia irracional", marcada por elementos regionalistas, existencialistas e religiosos. Talvez a explicação esteja na própria travessia simbólica do rio e do sertão de Riobaldo, ou no amor inexplicável por Diadorim, maravilhoso demais e terrível demais, beleza e medo ao mesmo tempo, ser e não-ser, verdade e mentira, estar e não estar. Diadorim-Mediador, a alma que se perde na consumação do pacto com a linguagem e a poesia. Riobaldo (Rosa-IO-bardo), o poeta-guerreiro que, em estado de transe, dá à luz obras-primas da literatura universal. Biografia e ficção fundem-se e confundem-se nas páginas enigmáticas de João Guimarães Rosa, morto prematuramente aos 59 anos de idade, no ápice de sua carreira literária e diplomática. Imortal, foi sepultado no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras no Cemitério de São João Batista na cidade do Rio de Janeiro.
As questões existenciais e religiosas impactaram a obra de Rosa. De acordo com a poetisa Dora Ferreira da Silva, interlocutora de Rosa, junto com seu marido, o filósofo Vicente Ferreira da Silva, Rosa afirmara que “[era] só religião, [mas] alheio a qualquer associação ou organização religiosa”.
Guimarães Rosa também seria incluído no cânone internacional a partir do boom da literatura latino-americana pós-1950. O romance entrara em decadência nos Estados Unidos (onde à época era vitrine da própria arte literária, concorrendo apenas com o cinema),[carece de fontes?] especialmente após a morte de Louis-Ferdinand Céline (1951), Thomas Mann (1955), Albert Camus (1960), Ernest Hemingway (1961), William Faulkner (1962). E, a partir de Cem anos de solidão (1967), do colombiano Gabriel García Márquez, a ficção latino-americana torna-se a representação de uma vitalidade artística e de uma capacidade de invenção ficcional que pareciam, naquele momento, perdidas para sempre. São desse período escritores como Mario Vargas Llosa (Peru), Carlos Fuentes (México), Julio Cortázar (Argentina), Juan Rulfo (México), Alejo Carpentier (Cuba) e, mais recentemente Ángel Rama (Uruguai).
1956: Corpo de Baile ("No Urubuquaquá, no Pinhém", "Manuelzão e Miguilim" e "Noites do Sertão")
1967: Tutaméia – Terceiras Estórias
1969: Estas Estórias (póstumo)
2011: Antes das Primeiras Estórias (póstumo)