A Guerra Cristera (também conhecida como Guerra dos Cristeros ou Cristiada) é o nome pelo qual ficou conhecido os conflitos armados resultantes da perseguição e repressão conduzidas pelo Estado no México contra a Igreja Católica e seus fieis. Tratou-se de um levantamento popular contra as leis anticlericais impostas pela Constituição Mexicana de 1917 promulgada em 1.º de dezembro de 1917. A maior parte do conflito armado se desenrolou entre 3 de agosto de 1926 a 21 de junho de 1929, havendo no entanto atos isolados de violência tanto por parte do Estado Mexicano quanto por parte de remanescentes dos cristeros após esse período.
Inicialmente marcado por manifestações de resistência pacífica, a reação popular violenta teve início em janeiro de 1927.
Cinco dos artigos da constituição mexicana de 1917 visavam especialmente eliminar direitos da Igreja Católica na sociedade mexicana. O artigo 3.º exigia uma educação laica nas escolas. O artigo 5.º proibia as ordens monásticas. O artigo 24.º proibia o culto em público fora das igrejas, enquanto que o inciso II do artigo 27.º restringia os direitos de propriedade das organizações religiosas. Finalmente, a letra "e" do artigo 130.º retirava aos membros do clero direitos cívicos básicos: padres e líderes religiosos estavam proibidos de usar os seus hábitos, não tinham direito de voto e estavam proibidos de comentar assuntos da vida pública na imprensa.
O espírito anticlerical do governo estendia-se ainda a alterações superficiais de topónimos no sentido da sua laicização. Como exemplo, o estado de "Vera Cruz" foi rebaptizado de Veracruz.
Quando as medidas foram postas em prática em 1917, o presidente do México era Venustiano Carranza. Carranza foi deposto devido às maquinações do seu antigo aliado Álvaro Obregón em 1919. Obregón seria presidente em finais de 1920. Apesar de partilhar do sentimento anticlerical de Carranza, aplicou as medidas anticlericais de forma selectiva e apenas em áreas em que o sentimento católico era mais fraco.
Esta trégua precária entre o governo e a igreja terminou com a eleição de Plutarco Elías Calles em 1924. Calles era maçônico, e aplicou as leis anticatólicas com todo o rigor e por todo o país acrescentando a sua própria legislação anticatólica. Em Junho de 1926, promulgou a Lei de Reforma do Código Penal, conhecida como Lei Calles. Esta lei previa penas específicas para padres e religiosos que se atrevessem a violar as provisões da constituição de 1917. Como por exemplo, o uso de vestes religiosas em público era penalizado em 500 pesos.
Em resposta a estas medidas, a resistência das organizações católicas começou a intensificar-se. A mais importante destas organizações era a Liga Nacional de Defesa da Liberdade Religiosa, fundada em 1924. A ela juntaram-se a Associação Mexicana da Juventude Católica (fundada em 1913) e a União Popular, um partido político católico fundado em 1925.
Em 11 de Julho de 1926 os bispos mexicanos votaram a favor da suspensão de todas as manifestações públicas de culto como resposta à lei Calles. Esta suspensão deveria entrar em efeito a partir de 1 de Agosto. Em 14 de Julho, deram o seu apoio aos planos para levar a cabo um boicote económico contra o governo, e que seria especialmente bem-sucedido no México centro-ocidental (os estados mexicanos de Jalisco, Guanajuato, Aguascalientes, Zacatecas). Os católicos residentes nestas regiões deixaram de ir aos cinemas e teatros e não utilizavam os transportes públicos; os professores deixaram de leccionar nas escolas seculares.
No entanto, este boicote fracassou em Outubro de 1926, em grande medida devido à falta de apoio no seio dos católicos mais ricos, que estavam a perder dinheiro devido ao boicote. Por esta razão os ricos eram malvistos e a sua reputação piorou quando pagaram ao exército federal por proteção e ao chamarem a polícia para desfazer os piquetes de protesto.
Entretanto os bispos católicos trabalhavam no sentido de conseguirem que os artigos constitucionais antes referidos fossem emendados. O Papa Pio XI aprovou explicitamente esta forma de resistência. No entanto, o governo de Calles considerava este comportamento como sendo uma forma de insubordinação e ordenou o encerramento de numerosas igrejas. Em Setembro o episcopado submeteu uma proposta de emenda da constituição que foi rejeitada pelo congresso mexicano em 22 de Setembro de 1926.
Em Guadalajara, no dia 3 de Agosto de 1926, cerca de 400 católicos armados encerraram-se na igreja de Nossa Senhora de Guadalupe. Envolveram-se num tiroteio com tropas federais, rendendo-se apenas quando ficaram sem munições. Segundo fontes consulares dos Estados Unidos, este confronto teria causado a morte a 18 pessoas e 40 feridos.
No dia seguinte, em Sahuayo, Michoacán, a igreja paroquial local foi invadida por 240 soldados governamentais. O padre da paróquia e o seu vigário foram mortos na violência que se seguiu. Em 14 de Agosto, agentes governamentais levaram a cabo a eliminação da delegação da Associação da Juventude Católica em Chalchihuites, Zacatecas, executando o seu conselheiro espiritual , o padre Luis Bátiz Sainz.
A partir daqui os acontecimentos sucedem-se de forma muito rápida. Um bando de rancheiros sob a liderança de Pedro Quintanar, ao tomar conhecimento da morte do padre Bátiz, ocupou a tesouraria local e declara-se em rebelião. No auge da sua rebelião controlava uma região que incluía toda a parte norte de Jalisco.
Outro levantamento foi liderado pelo presidente da câmara de Pénjamo, Guanajuato, Luis Navarro Origel, com início em 28 de Setembro. Os seus homens foram derrotados pelo exército federal em terreno aberto junto daquela localidade, mas retiraram-se para as montanhas onde continuaram como guerrilheiros. Seguiu-se um outro levantamento em Durango liderado por Trinidad Mora em 29 de Setembro e em 4 de Outubro a rebelião liderada pelo antigo general Rodolfo Gallegos no sul de Guanajuato. Ambos líderes destes levantamentos foram obrigados a recorrer a tácticas de guerrilha, pois não podiam fazer face ao exército federal em campo aberto.
Entretanto, os rebeldes em Jalisco (particularmente na região a norte de Guadalajara) começaram a reunir as suas forças. Esta região tornou-se o foco principal da rebelião liderada por René Capistran Garza, líder da Associação Mexicana da Juventude Católica, que teve início a 1 de Janeiro de 1927.
A rebelião teve formalmente início com a publicação dum manifesto de Garza no dia de Ano Novo intitulado A la nación (À Nação). Nele declarava que é chegada a hora da batalha e a hora da vitória pertence a Deus. Com esta declaração, o estado de Jalisco que parecera calmo desde os acontecimentos da igreja de Guadalajara, inflamou-se. Grupos de rebeldes deslocando-se na região a nordeste de Guadalajara de Los Altos começaram a ocupar aldeias, muitas vezes equipados apenas com antigos mosquetes e paus. O grito de batalha dos Cristeros era ¡Viva Cristo Rey! ¡Viva la Virgen de Guadalupe! (Viva Cristo Rei! Viva a Virgem de Guadalupe!).
No início o governo de Calles não levou esta ameaça muito a sério. Os rebeldes conseguiam bons resultados frente aos agraristas (uma milícia rural recrutada em todo o México) e frente às forças da Defesa Social (uma milícia local), mas eram sempre derrotados pelas tropas federais que guardavam as principais cidades. Por esta altura, o exército federal contava com 79 759 homens. Quando o comandante federal de Jalisco, general Jesús Ferreira, iniciou a campanha contra os rebeldes, afirmou calmamente que se trataria mais de uma caça que de uma campanha.
Porém, estes rebeldes, que na sua grande maioria não tinham experiência militar prévia, planeavam bem os seus combates. Os mais bem-sucedidos líderes rebeldes foram Jesús Degollado (apotecário), Victoriano Ramírez (trabalhador num rancho) e dois padres, Aristeo Pedroza e José Reyes Vega. No total, cinco padres participavam activamente na luta armada.