A Guerra Civil Russa foi um conflito armado múltiplo que eclodiu no território do já dissolvido Império Russo, envolvendo o novo governo bolchevique, alçado ao poder desde a Revolução de Outubro de 1917, e seus opositores, incluindo militares do antigo exército tsarista, conservadores e liberais favoráveis à monarquia, além de grupos ligados à Igreja Ortodoxa Russa e a correntes socialistas minoritárias (mencheviques). A data exata do início do conflito é controversa entre os historiadores: alguns defendem que teria ocorrido logo após a Revolução de Outubro (em 7 de novembro de 1917, segundo o calendário gregoriano), enquanto que, para outros, teria sido na primavera de 1918. A guerra civil perdurou até 1923, embora a maior parte dos combates já tivesse cessado em 1921, com a vitória dos bolcheviques.
Durante este período, exércitos e militares de diversos matizes políticos se enfrentaram com o objetivo de implantar o seu próprio sistema. As partes em conflito incluíam: o Movimento Branco, formado por ex-generais czaristas; republicanos liberais (os "cadetes" ); o Exército Vermelho (bolchevique); milícias anarquistas (o Exército Insurgente Makhnovista, conhecido como "Exército Negro"; durante a Revolução Ucraniana), o nacionalista Exército Verde; exércitos separatistas, como o Exército Azul; e tropas de ocupação estrangeiras. Excetuando as perdas territoriais devidas a movimentos separatistas, o Exército Vermelho foi o único vencedor do conflito, após o qual foi criado o Estado Soviético, sob liderança dos bolcheviques.
Aproveitando-se do verdadeiro caos em que o país se encontrava, as nações aliadas da Primeira Guerra Mundial resolveram intervir a favor do Exército Branco (czaristas e liberais). Tropas britânicas, neerlandesas, norte-americanas e japonesas desembarcaram tanto nas regiões ocidentais (Crimeia e Geórgia) como nas orientais (ocupação de Vladivostok e da Sibéria Oriental). Seus objetivos declarados eram: derrubar o governo bolchevique (que era favorável à paz com o Império Alemão) e instaurar um regime favorável à permanência da Rússia na guerra. Todavia, o objetivo não declarado era evitar a propagação dos ideais comunistas pela Europa Ocidental mediante barreiras físicas — daí a expressão Cordon Sanitaire, utilizada em 1919 por Georges Clemenceau, primeiro-ministro da França -, além de promover o isolamento diplomático e comercial da Rússia, política adotada já nos primeiros anos da década de 1920, pelos países da Entente.
No terreno econômico, devido à situação de emergência e pelo próprio ímpeto revolucionário, o partido bolchevique instituiu o "comunismo de guerra". O dinheiro e as leis do mercado foram abolidas, sendo substituídos por uma economia dirigida baseada na tributação em gênero sobre cereais produzidos pelos camponeses. Uma das consequências negativas destas medidas foi desencorajarem o plantio, por levarem os camponeses a sentir que bastaria produzir para sustento de suas famílias, o que resultou em os centros urbanos ficarem sem alimentos, provocando um êxodo das cidades para o campo — Petrogrado (atual São Petersburgo) e Moscou viram sua população reduzir-se pela metade. Estes fatores iriam contribuído, na conjuntura da guerra civil e das intervenções estrangeiras, para a fome russa de 1921 — uma das maiores mortalidades na Rússia moderna, em que pereceram cerca de seis milhões de pessoas.
A Guerra Civil Russa foi precedida por um período de intensas turbulências políticas e sociais no Império Russo. A Primeira Guerra Mundial havia devastado o país, levando a enormes perdas humanas e uma economia em colapso. Em meio ao crescente descontentamento, a Revolução de Fevereiro de 1917 derrubou o czar Nicolau II, encerrando séculos de governo imperial. No entanto, o Governo Provisório Russo que assumiu o poder, liderado por Alexander Kerensky, falhou em retirar a Rússia da guerra e não conseguiu resolver as crises internas, como a fome e a distribuição desigual de terras. Esse cenário de instabilidade criou um ambiente propício para a Revolução de Outubro, ainda de 1917, quando os Bolcheviques, liderados por Vladimir Lenin, tomaram o poder em Petrogrado, prometendo "paz, terra e pão" ao povo.
A tomada do poder pelos Bolcheviques foi imediatamente contestada por várias forças políticas, sociais e regionais. O antigo regime czarista, oficiais militares leais ao Império (conhecidos como Movimento Branco), socialistas moderados, anarquistas, monarquistas e outras facções se uniram em uma resistência heterogênea contra os Bolcheviques. Além disso, potências estrangeiras, temendo a propagação do comunismo, começaram a intervir em apoio aos adversários dos Bolcheviques. Esse conflito de interesses e a oposição armada ao novo governo soviético rapidamente mergulharam o país em uma guerra civil brutal e prolongada.
No início da guerra, os Bolcheviques controlavam as áreas centrais da Rússia, incluindo as grandes cidades de Petrogrado e Moscou, que se tornou a nova capital soviética em 1918. O Exército Branco, no entanto, dominava periferias e áreas vastas, como o sul da Rússia, a Sibéria e o norte, além de contar com o apoio de potências estrangeiras como o Reino Unido, França, Estados Unidos e Japão, que temiam a propagação do comunismo.
Entre 1918 e 1919, o Exército Branco lançou várias ofensivas para tentar reconquistar o poder. No sul, o general Anton Denikin liderou uma campanha em direção a Moscou, chegando perto de capturá-la. No leste, o almirante Alexander Kolchak controlava vastas áreas da Sibéria e se proclamou "Governante Supremo" da Rússia. E no noroeste, as forças de Nikolai Yudenich ameaçaram Petrogrado. No entanto, os Bolcheviques, liderados por Leon Trotsky e seu eficiente Exército Vermelho, conseguiram resistir a essas ofensivas.
A partir de 1919, a maré começou a virar a favor dos Bolcheviques. Eles lançaram contra-ofensivas bem-sucedidas, aproveitando-se da desunião e falta de coordenação entre as diferentes facções Brancas. As forças de Denikin foram derrotadas e forçadas a recuar para a Crimeia, onde eventualmente foram evacuadas. Kolchak foi capturado e executado em 1920 e Yudenich também foi derrotado e depois aprisionado.
Em 1920, os Bolcheviques já controlavam a maior parte da Rússia europeia e da Sibéria. Os últimos focos de resistência dos Brancos foram eliminados na Crimeia, onde as forças lideradas por Pyotr Wrangel foram derrotadas e evacuadas. Ao mesmo tempo, as tropas estrangeiras começaram a se retirar, sinalizando o fim do apoio externo aos Brancos. O fim da guerra não veio com uma vitória numa batalha isolada, mas foi na verdade uma combinação de fatores. Em várias regiões e nações que compunham o antigo Império Russo viu a derrota dos comunistas, embora estes conseguissem se consolidar no poder em Moscou e Petrogrado. Desta maneira, a guerra terminou como começou, caótica.
O desfecho da Guerra Civil Russa teve consequências profundas e duradouras. A devastação da guerra deixou o país economicamente arrasado, com milhões de mortos, fome generalizada e infraestrutura em ruínas. A vitória dos bolcheviques levou à fundação da União Soviética em 1922, um novo estado socialista que buscava reconstruir a nação sob princípios comunistas. A guerra também consolidou o caráter autoritário do regime soviético, com o Partido Comunista mantendo controle rigoroso sobre todos os aspectos da vida, justificado pela necessidade de reconstruir e proteger o estado nascente de inimigos internos e externos.
A guerra terminou com uma vitória Bolchevique no atual território da Rússia. Os governos da República Russa e do Estado Russo haviam colapsado e a criação União Soviética viria um ano depois, em 1924. A Família Imperial Russa havia sido executada e movimento pró-Monarquia se enfraqueceu consideravelmente, com muitos monarquistas fugindo (perto de dois milhões de pessoas) e alguns se envolveram com movimentos partisans anti-comunistas. Estados bolcheviques foram estabelecidos na Mongólia e em Tuva. Muitos dos proeminentes intelectuais e ativistas russos foram expulsos do país. Contudo, vários territórios do antigo Império Russo ou se tornaram completamente independentes ou foram anexados por outras nações. Entre os países que conseguiram firmar sua independência estavam Finlândia, Estônia, Letônia, Lituânia e Polônia. Outros Estados, como Ucrânia, Bielorrússia, Geórgia, Armênia, Azerbaijão e Moldávia conquistaram independência parcial, tiveram partes dos seus territórios tomados por outros países ou acabaram voltando sob o controle bolchevique. Os ucranianos, por exemplo, mantiveram sua independência até o final de 1921, quando foram incorporados no que viria a ser a União Soviética.