A Guerra Civil Líbia (ou também Segunda Guerra Civil Líbia) foi um conflito interno multilateral na Líbia travado entre diferentes grupos armados, mas principalmente entre a Câmara dos Representantes da Líbia (CdR) e o Governo do Acordo Nacional (GAN). O Congresso Geral Nacional (CGN), baseado no oeste da Líbia e apoiado por várias milícias com algum apoio do Catar e da Turquia, inicialmente aceitou os resultados das eleições de 2014, mas os rejeitou depois que o Tribunal Constitucional Supremo anulou uma emenda relativa ao roteiro para a transição da Líbia e às eleições da Câmara dos Representantes (ou Conselho de Deputados), que controla o leste e o centro da Líbia e tem a lealdade do Exército Nacional Líbio (ENL, sob o general Khalifa Haftar) e foi apoiado por ataques aéreos do Egito e dos Emirados Árabes Unidos. Devido à controvérsia em torno das emendas constitucionais, a CdR recusou assumir o cargo do CGN em Trípoli, que estava sob o controle de grupos armados islâmicos de Misrata. Em vez disso, a CdR estabeleceu seu parlamento em Tobruque, que está sob o controle das forças do General Haftar. Em dezembro de 2015, o Acordo Político Líbio foi assinado após negociações em Skhirat, como resultado de negociações prolongadas entre facções políticas rivais baseadas em Trípoli, Tobruque e em outros lugares, que concordaram em se unir como o Governo de Acordo Nacional (GAN). Em 30 de março de 2016, Fayez al-Sarraj, o chefe do GAN, chegou a Trípoli e começou a trabalhar lá, apesar da oposição do CGN.
Além dessas três facções, existem: o Conselho da Shura de Revolucionários de Bengazi, liderado pela Ansar al-Sharia, que tinha o apoio do CGN e foi derrotado em Benghazi em 2017; as províncias líbias do Estado Islâmico do Iraque e do Levante; o Conselho da Shura dos Mujahideen em Derna, que expulsou o Estado Islâmico de Derna em julho de 2015 e foi posteriormente derrotado em Derna pelo governo de Tobruque em 2018; bem como outros grupos armados e milícias cujas lealdades frequentemente mudam.
Em maio de 2016, o GAN e o CGN lançaram uma ofensiva conjunta para capturar áreas em torno de Sirte do EIIL. Essa ofensiva resultou na perda de controle do EIIL sobre todos os territórios significativos anteriormente mantidos na Líbia. Mais tarde, em 2016, as forças leais a Khalifa al-Ghawil tentaram um golpe de estado contra Fayez al-Sarraj e o Conselho Presidencial do GAN.
Em 4 de abril de 2019, Khalifa Haftar, o comandante do Exército Nacional Líbio, chamou suas forças militares para avançar sobre Trípoli, a capital do governo internacionalmente reconhecido da Líbia, na campanha do oeste da Líbia em 2019–2020. Isso foi recebido com repreensão do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, e do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Em 23 de outubro de 2020, a Comissão Militar Conjunta Líbia 5+5, representando o ENL e o GAN, alcançou um "acordo de cessar-fogo permanente em todas as áreas da Líbia". O acordo, eficaz imediatamente, exigia que todos os combatentes estrangeiros deixassem a Líbia dentro de três meses, enquanto uma força policial conjunta patrulharia áreas disputadas. O primeiro voo comercial entre Trípoli e Bengasi aconteceu no mesmo dia. Em 10 de março de 2021, foi formado um governo de unidade provisório, que deveria permanecer no cargo até a próxima eleição presidencial líbia marcada para 24 de dezembro daquele ano. No entanto, a eleição foi adiada várias vezes desde então, efetivamente mantendo o governo de unidade no poder indefinidamente, causando tensões que ameaçam reacender a guerra.
Na Líbia, o governo de Ali Zeidan foi incapaz de enfrentar o problema das milícias que combateram contra Gadafi na guerra civil de 2011. Cada uma delas tinha sua própria ideologia e cada grupo armado usava seu poder para conseguir impor as suas demandas. Estavam monitorando a segurança das cidades, no controle das fronteiras, na gestão dos centros de detenção e na proteção de instalações estratégicas do país.
Em algumas ocasiões, o governo ainda teve de pagar para as milícias para que desbloqueassem cidades e enclaves petrolíferos, inclusive houve rumores da criação de uma força de elite para proteger o primeiro-ministro. Todas estas medidas falharam e 10 de outubro de 2013 uma milícia semi-oficial, a Sala de Operações dos Revolucionários Líbios, tentou tomar o poder no país sequestrando brevemente Zeidan.
No início de 2014, a Líbia era governada pelo Congresso Geral Nacional (CGN), o primeiro órgão legislativo eleito em 7 de julho de 2012, substituindo o Conselho Nacional de Transição e presidido por um islamista moderado, Mohammed Magariaf, até sua renúncia em 28 de maio de 2013. Embora os candidatos islâmicos não tinham obtido uma maioria, os islamitas controlariam a assembleia após Nouri Abusahmain ser eleito presidente do CGN (chefe de Estado) em 25 de junho de 2013. Em seguida, este abusaria de seus poderes suprimindo debates e consultas indesejáveis. O CGN votou para implementar a sharia em dezembro de 2013 e não se retirou no final de seu mandato eleitoral, em janeiro de 2014, prorrogando unilateralmente seu poder. Em 14 de fevereiro de 2014, o general Khalifa Haftar, um ex-alto oficial do regime Gadafi, ordenou a dissolução do CGN e apelou para a formação de um comitê de governo interino para supervisionar novas eleições. O CGN ignorou suas demandas e denunciou isso como uma tentativa de "golpe de Estado".
O Congresso Geral era incapaz de impor a ordem e estava bloqueado pela Irmandade Muçulmana, que se opunha frontalmente ao mandato do primeiro-ministro Ali Zeidan e se demitiram de todos os seus cargos, organizando várias ações e moções de censura para tentar destitui-lo, até que finalmente uma delas prosperou em 11 de março, quando, Zeidan - incapaz de garantir a segurança na Líbia e recuperar o controle de instalações petrolíferas que caíram nas mãos de grupos armados desde julho de 2013 - foi destituído e sucedido de forma interina por Abdullah al-Thani.
Legalização das milícias islâmicas
Embora formalmente o presidente do Congresso, Nouri Abusahmain não pertencia a nenhum grupo político, era próximo a ideologia da Irmandade Muçulmana. Usando sua capacidade para emitir decretos e o cargo de comandante-em-chefe que detinha, favoreceu a criação e desenvolvimento de numerosas brigadas islâmicas: em julho de 2013, ordenou a criação da Sala de Operações dos Revolucionários Líbios e em agosto de 2013 ordenou a Brigada Escudo da Líbia que assumisse o controle da segurança em Trípoli.
Protestos contra a extensão do Congresso
O problema do fracasso político, assim como a violência armada exercida pelas milícias, provocou a rejeição por parte da sociedade ao Congresso. No entanto, os seus membros pretendiam estender seu mandato até dezembro de 2014, apesar deste mandato ter expirado em 7 de fevereiro, o que levou a uma nova onda de manifestações, muitas delas de carácter liberal, que queriam resultados imediatos e o fim do Congresso, para dar lugar a um novo governo que fosse capaz de por fim as milícias.
Os moradores da cidade oriental de Xaate, juntamente com manifestantes de Baida e Sousse, fizeram uma grande manifestação, rejeitando plano de prorrogação do GNC e exigindo a renúncia do congresso seguida por uma transição de poder pacífica para um órgão legítimo. Também protestaram contra a falta de segurança, culpando o GNC por não terem reconstruído o exército e a polícia. Outros líbios, rejeitando a proposta de mandato, se reuniram na Praça dos Mártires de Trípoli e fora do Hotel Tibesti em Bengazi, pedindo o congelamento de partidos políticos e a reativação do sistema de segurança do país.
Em 14 de fevereiro de 2014, o general líbio Khalifa Haftar emitiu um comunicado em que ordenava a suspensão do Congresso Geral depois da crise que havia tomado o país e propôs a formação de uma comissão presidencial até que fossem realizadas novas eleições.
Depois de várias semanas do ultimato, em maio, Haftar anunciou uma operação militar, oficialmente chamada de Operação Dignidade, para depor o Congresso e derrotar as milícias islâmicas que este apoiava. Dentro do Congresso, o parlamento líbio, a maioria islamita da Irmandade Muçulmana, incluindo o presidente do Congresso, Nouri Abusahmain, condenaram a operação como uma "tentativa de golpe de Estado" e consideraram legítimas as brigadas islâmicas. Por outro lado, os parlamentares da secular Aliança das Forças Nacionais apoiaram a operação para acabar com a violência das milícias e evitar o "afogamento em um pântano de terrorismo, escuridão, morte e destruição."