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Grande Otelo

Ator brasileiro

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Sebastião Bernardes de Souza Prata, OMC (Uberlândia, 18 de outubro de 1915 – Roissy-en-France, 26 de novembro de 1993), mais conhecido como Grande Otelo, foi um proeminente e multifacetado ator, comediante, cantor, produtor e compositor brasileiro. Considerado um dos maiores ícones da cultura popular brasileira do século XX, Otelo transcendeu os palcos dos cassinos cariocas e do efervescente teatro de revista para se consagrar no cinema e na televisão, marcando sua presença indelével na história do entretenimento nacional. Sua trajetória artística é indissociável das chanchadas, gênero cinematográfico do qual foi um dos expoentes máximos, notadamente em sua memorável parceria com Oscarito nas décadas de 1940 e 1950. Posteriormente, demonstrou sua versatilidade e profundidade dramática em filmes aclamados como a versão cinematográfica de Macunaíma (1969), consolidando sua posição como um dos mais importantes e reverenciados atores da história do Brasil.

Sua influência estende-se para além de suas performances, representando também um marco na inserção e visibilidade de artistas afro-brasileiros no cenário cultural do país, enfrentando e superando barreiras e preconceitos com seu talento singular e carisma contagiante.

Década de 1920: infância, descobertas e os primeiros palcos

Sebastião Bernardes de Souza Prata nasceu em Uberlândia, Minas Gerais, em 18 de outubro de 1915, filho de Antenor Prata, um boiadeiro, e Maria das Dores de Souza, uma cozinheira. Sua infância foi marcada por adversidades: o pai faleceu vítima de um esfaqueamento quando Sebastião tinha apenas dois anos, e sua mãe lutava contra o alcoolismo. A instabilidade familiar e as dificuldades financeiras moldaram precocemente sua resiliência.

O talento para as artes manifestou-se cedo. Segundo o próprio ator, sua vida artística começou em sua cidade natal, Uberlândia, por volta de 1923 ou 1924, em um picadeiro de circo. Ele recordava com carinho essa estreia improvisada:

"Pra mim, a primeira entrada que eu fiz foi uma beleza porque eu já era assim um palhaço da cidade, com a pouca idade que eu tinha. Então naquele dia o circo encheu mais pra ver o Bastiãozinho (...). Eu tinha uns sete anos...Bastiãozinho vestido com um vestido comprido e um travesseiro no bumbum e rebolando, de braço com o palhaço. Aí todo mundo riu, todo mundo achou graça...."

Com aproximadamente oito anos, diante das dificuldades maternas, Sebastião teria sido entregue por sua mãe a Abigail Parecis, esposa do proprietário de uma companhia de teatro mambembe, a Companhia Joaquim Parecis, que o levou para São Paulo. A vida na capital paulista não foi fácil; o jovem Sebastião, inquieto e sentindo falta de um lar estável, fugiu diversas vezes, sendo recorrentemente encaminhado ao Juizado de Menores.

Um momento crucial em sua formação inicial foi a participação, ainda criança, na Companhia Negra de Revistas em 1927. Fundada por Jayme Silva e pelo artista negro De Chocolat (João Cândido Ferreira), a companhia contava com Pixinguinha como maestro e diretor musical, e representava um espaço importante de afirmação e talento para artistas negros. Suas apresentações rapidamente chamaram a atenção, como evidenciado por uma crítica do Jornal do Commercio da época:

"Faz parte do elenco como número de grande attração o grande Othelo, um pequenino artista de seis annos de idade, que é um verdadeiro assombro. O pequeno grande artista canta em diversos idiomas, com uma verve e uma espontaneidade extraordinárias. Jornaes de São Paulo e de diversas cidades chamaram-lhe de o maior artista do idioma portuguez."

O apelido "Grande Otelo" surgiu nesse período, uma ironia a sua baixa estatura e uma referência ao personagem Otelo de William Shakespeare, possivelmente cunhado por Jardel Jércolis ou pelo próprio De Chocolat, e que o acompanharia por toda a vida. Após sucessivas fugas e passagens por diferentes tutores, incluindo a família do escritor Mário de Andrade por um breve período, onde teve contato com um ambiente intelectual e artístico efervescente, Sebastião foi finalmente adotado pela família do político Antonio de Queiroz. Sob a tutela dos Queiroz, Otelo teve a oportunidade de frequentar o Liceu Coração de Jesus, uma instituição de ensino tradicional em São Paulo, onde cursou até a terceira série ginasial. Mesmo com a oportunidade de uma educação formal, sua vocação artística pulsava mais forte, e o teatro continuaria a ser seu principal caminho.

Décadas de 1930, 1940 e 1950: a consagração no teatro de revista e a chegada ao cinema

A década de 1930 marcou a profissionalização e ascensão de Grande Otelo no cenário teatral brasileiro, especialmente no teatro de revista, gênero popular que combinava música, humor, crítica social e números de variedades. Em 1932, integrou a prestigiosa Companhia de Jardel Jércolis, um dos grandes nomes do teatro de revista da época. Foi ali que seu talento cômico e musical começou a brilhar intensamente. Destacou-se, por exemplo, na revista "No Tabuleiro da Baiana", onde seus duetos com a cantora de sambas e marchas Déo Maia (pseudônimo de Deolinda Bernardo dos Santos) eram aclamados pelo público.

Sua versatilidade o levou a participar de diversas produções de sucesso. Em 1936, atuou na revista "Pacificação", de Ary Barroso e Carlos Bittencourt, com a "Companhia de Revistas e Operetas Margarida Max e Mesquitinha". Neste espetáculo, dividiu o palco com artistas renomados como o tenor russo Marcel Klass, o fadista Joaquim Pimentel, o dançarino excêntrico Da Ferreyra, e os próprios cabeças de companhia, Margarida Max e Mesquitinha.

Em 1938, um novo marco em sua carreira e na história do teatro negro brasileiro: Grande Otelo integrou a nova "Companhia Negra de Operetas e Revistas", novamente em parceria com De Chocolat. O espetáculo de estreia, "Algemas Quebradas", foi um sucesso retumbante, contando com um elenco majoritariamente negro que incluía os atores Apolo Correia e De Carambola, o cantor Moacyr do Nascimento, as cantoras Aída Santos e Índia do Brasil, e a atriz Celeste Aída. A peça foi amplamente elogiada pela crítica e pelo público, destacando-se como uma iniciativa bem-sucedida e de grande importância para a valorização dos artistas negros no teatro brasileiro.

O ano de 1939 trouxe um encontro internacional de grande repercussão: Grande Otelo assinou contrato com o glamouroso Cassino da Urca, no Rio de Janeiro, para uma série de apresentações ao lado da lendária dançarina e cantora Josephine Baker, que estava em turnê pelo Brasil. A parceria foi um sucesso e elevou ainda mais o prestígio de Otelo.

Paralelamente ao sucesso nos palcos, o cinema começava a acenar para Grande Otelo. Sua estreia nas telas ocorreu em Noites Cariocas (1935), dirigido por Enrique Telémaco Susini. No entanto, foi na década de 1940 que sua carreira cinematográfica deslanchou, especialmente com o advento das chanchadas, produções da Atlântida Cinematográfica que se tornaram um fenômeno de bilheteria. A parceria com Oscarito (Oscar Lorenzo Jacinto de la Inmaculada Concepción Teresa Diaz) formou uma das duplas cômicas mais emblemáticas e queridas do cinema brasileiro. Filmes como Carnaval no Fogo (1949), Aviso aos Navegantes (1950) e Matar ou Correr (1954) arrastavam multidões aos cinemas, consagrando Otelo como um ícone popular. A química entre o "negro baixinho e ágil" (Otelo) e o "branco alto e desajeitado" (Oscarito) era infalível, explorando contrastes físicos e de personalidade que geravam um humor contagiante e, por vezes, com nuances de crítica social.

Em 1942, Grande Otelo teve uma experiência internacional marcante ao participar das filmagens do projeto inacabado It's All True, do renomado cineasta norte-americano Orson Welles. Welles ficou profundamente impressionado com o talento de Otelo, chegando a considerá-lo o maior ator brasileiro. Embora o filme não tenha sido concluído como originalmente planejado, a experiência e o reconhecimento de Welles foram significativos para a carreira e a autoestima de Otelo.

Em 1950, o ator estava no auge de sua popularidade, reverenciado pelo público e pela crítica. Um comentário na revista O Cruzeiro dimensionava sua importância no mundo artístico:

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