Eric Voegelin (nascido Erich Hermann Wilhelm Vögelin; Colônia, 3 de janeiro de 1901 – Palo Alto, 19 de janeiro de 1985) foi um professor de filosofia política germano-americano. Ele se formou em ciências políticas na Universidade de Viena, onde se tornou professor associado da faculdade de Direito.
A obra de Voegelin pode ser dividida em duas fases: a primeira, anterior a sua emigração para os EUA, durante a qual ele escreveu a 'História das Ideias Políticas' sobre o racismo e o estado autoritário; a segunda, após sua ida para os EUA, onde ele aproximou de visões autoritárias com uma concepção política do mundo baseada na Religião e na História.
Embora Voegelin tenha nascido em Colônia, seus pais se mudaram para Viena em 1910. Por isso, Voegelin estudou na Universidade de Viena. Os orientadores de sua dissertação foram Hans Kelsen e Othmar Spann. Depois de sua habilitação em 1928, ele ensinou teoria política e sociologia. Na Áustria, Voegelin iniciou amizades duradouras com Alfred Schütz e Friedrich Hayek.
Spann o introduziu no estudo da filosofia grega clássica e do idealismo alemão. Muitos de seus colegas do seminário de Spann adeririam posteriormente ao nazismo, posição que sempre considerou inaceitável. Particular importância teve para Voegelin a recepção do pensamento de Hans Kelsen, criador da Teoria Pura do Direito, advogado, jurista proeminente e principal autor da Constituição Austríaca de 1920. Voegelin foi seu assistente, tendo frequentado regularmente seus seminários na Faculdade de Direito onde travou amizade com Felix Kaufmann e Fritz Shreier e, em particular, com Alfred Schütz.
Como resultado do Anschluss, conexão da Áustria com a Alemanha em 1938, Voegelin foi demitido de seu emprego. Ele e sua esposa fugiram das forças nazistas que invadiram Viena. Eles emigraram para os Estados Unidos da América e se tornaram cidadãos americanos em 1944. Evitando por pouco a prisão pela Gestapo, e após uma breve estada na Suíça, ele chegou aos Estados Unidos. Lecionou em várias universidades antes de ingressar no Departamento de Governo da Louisiana State University em 1942. Voegelin permaneceu em Baton Rouge até 1958, quando aceitou uma oferta da Ludwig-Maximilians-Universität de Munique para ocupar a antiga cadeira de Max Weber em ciência política, que estava desocupada desde a morte de Weber, em 1920. Em Munique, fundou o Institut für Politische Wissenschaft. Voegelin retornou à América em 1969 para ingressar na Hoover Institution da Universidade de Stanford e lecionar sobre Guerra, Revolução e Paz; Voegelin permaneceu trabalhando em Stanford até sua morte em 19 de janeiro de 1985.
Voegelin trabalhou para explicar a violência política endêmica do século XX, em uma abordagem peculiar da filosofia política, da história e da consciência. Na sua visão de mundo, inicialmente ele "culpava uma falsa interpretação utópica do cristianismo por ter gerado movimentos totalitários como o nazismo e o comunismo". Voegelin rejeitou quaisquer rótulos ideológicos ou categorizações que leitores e seguidores tentassem impor ao seu trabalho. Contudo essa visão seria revista ou nuançada em seus escritos mais maduros.
Ao longo de sua vida, publicou dezenas de livros, ensaios e resenhas. Um dos primeiros trabalhos foi As Religiões Políticas, de 1938. A obra versava sobre as ideologias totalitárias como “religiões políticas”, devido às suas semelhanças estruturais com a religião. Ele escreveu a série Ordem e História (em inglês, Order and History), em vários volumes, e que começou a ser publicada em 1956, permanecendo incompleta até sua morte, 29 anos depois do início da série. Suas palestras em Charles Walgreen, de 1951, publicadas como The New Science of Politics, às vezes são vistas como prolegômenos da série Ordem e História e continuam a ser seu trabalho mais conhecido. Ele deixou muitos manuscritos inéditos, incluindo uma história das ideias políticas, que desde então foi publicada em oito volumes.
Ordem e História foi originalmente concebida como um exame, em cinco volumes, da história da ordem a partir da experiência pessoal de Voegelin sobre a desordem do seu tempo. Os três primeiros volumes - Israel e Apocalipse, O Mundo da Polis e Platão e Aristóteles - são lançados em rápida sucessão, em 1956 e 1957, e concentraram-se nas evocações de ordem do antigo Oriente Próximo e da Grécia.
Depois disso, Voegelin encontrou dificuldades que retardaram a publicação do restante da série. Isto, combinado com seus deveres administrativos universitários e trabalhos relacionados ao novo instituto, ocasionou um delay de 17 anos, entre o terceiro e o quarto volume. Suas novas preocupações foram indicadas na coleção alemã de 1966 Anamnesis: Zur Theorie der Geschichte und Politik. O quarto volume, A Era Ecumênica, foi lançado em 1974. Ele rompeu com o padrão cronológico dos volumes anteriores, investigando simbolizações de ordem que variavam no tempo - desde a Lista de Reis Sumerianos até Hegel. O trabalho no volume final, Em Busca da Ordem, ocupou os últimos dias de Voegelin e foi publicado postumamente, em 1987.
O trabalho de Voegelin não se encaixa facilmente em disciplinas convencionais, embora alguns de seus leitores tenham encontrado semelhanças com obras contemporâneas, por exemplo, de Ernst Cassirer, Martin Heidegger e Hans-Georg Gadamer. Voegelin frequentemente inventa termos ou então usa, de maneira peculiar, termos já estabelecidos. No entanto, existem padrões em seu trabalho com os quais o leitor pode rapidamente se familiarizar.
Entre as indicações de interesse crescente pelo trabalho de Voegelin está a bibliografia internacional de 305 páginas publicada em 2000 pelo Wilhelm Fink Verlag de Munique; a presença de centros de pesquisa dedicados em universidades dos Estados Unidos, Alemanha, Itália e Reino Unido; traduções recentes em idiomas que vão do português ao japonês; e a publicação de uma coleção de 34 volumes de suas obras primárias pela University of Missouri Press e várias obras primárias e secundárias oferecidas pelo Eric-Voegelin-Archiv da Universidade de Munique.
No início dos anos 50, Voegelin lê as Origens do Totalitarismo da filósofa Hannah Arendt e lhe endereça algumas cartas a fim de comentar seu trabalho. Essas cartas são respondidas por Arendt e depois se tornam uma resenha publicada na Review of Politics. Voegelin discorda então da forma como Arendt entende o totalitarismo e desenvolve uma nova forma de fazê-lo, por meio daquilo que conhecemos como gnose.
Voegelin não faz o mesmo exercício intelectual que outros autores que pensaram o totalitarismo, como é o caso do referido Hannah Arendt, por exemplo. Esta autora desenvolveu um estudo sistemático acerca da organização interna do movimento e investigou detalhadamente alguns aspectos, como a estrutura da polícia, os campos de concentração e os mecanismos propagandísticos. Voegelin pensou tais regimes a partir de outra perspectiva e furtou-se de realizar uma análise histórico-sistemática do nacional socialismo e do estalinismo de forma que não é possível afirmar que Voegelin fez uma caracterização destes regimes como fizeram outros autores. Sua tarefa, antes de tudo, parece ter sido assinalar as relações entre o gnosticismo e a ascensão de tais regimes apontando aqui e ali elementos de ligação.
O tema sobre a gnose encontra-se inserido dentro de um contexto mais amplo: a importância da espiritualidade e suas consequências políticas. Voegelin recorre a Platão para afirmar que participamos da construção da História. Para Voegelin, o homem teria perdido a metaxý (μετά + ξύν), ou seja, o ponto de equilíbrio entre o transcendente e o imanente.
Segundo Voegelin, para “compreender religiões políticas apropriadamente”, seria necessário “ampliar o conceito de religiosidade” e incluir não apenas “religiões de salvação, mas também todas aqueles fenômenos durante o desenvolvimento do Estado, que poderíamos pensar como religioso.” Com efeito, Voegelin distingue “religiões ultramundanas” das “religiões intramundanas”, e a última categoria incluiu todos os movimentos, mesmo aqueles que eram ateus e hostis à religião, que, no entanto, exibiam “experiências religiosas subjacentes ao seu comportamento, que cultuava como sagrado algo diferente das religiões contra lutaram.”